Arquivo para Novembro, 2007

Barata não tem, mas se tiver traças tô ferrada…

Se é que eu possuo leitores assíduos, estes devem ter notado que eu deixei o blog meio às traças. Eu estava seguindo os ensinamentos do meu sábio pai que sempre disse que a internet é a pior inimiga dos estudos. Demorou quase 30 anos, mas agora está caindo a ficha que muitas (maioria das) vezes nossos pais têm razão! Na verdade como eu sou um pouco antiga, a internet só foi afetar meus estudos lá pelo meio da faculdade, mas minhas irmãs sentiram o efeito beeem mais cedo.

Nesse tempo em que estive ausente do blog eu li muiiito: tenho em média 150 páginas por semana para o mestrado, mais minhas tentativas de ler em sueco, mais os livros que eu pego na biblioteca (os últimos que li foram Labirinto - chaato e Two Caravans - engraçadíssimo), mais os livros que comprei nas últimas semanas (Ending Slavery - incrível e o último livro da Naomi Klein que chegou segunda-feira, The Shock Doctrine - ainda não comecei). Além disso, no dia 20 me submeti a uma maratona de provas de sueco, duas no mesmo dia, ao chegar em casa não sabia mais nem meu nome.Para completar recebi duas visitas, M. que foi minha colega de faculdade em Santa Maria passou 2 dias aqui. Passeamos, conversamos, rimos e fofoqueamos sobre vários assuntos. Na semana seguinte K. que foi minha colega de sueco em Örebro estava em Estocolmo com o marido então almoçamos juntas para botar a fofoca em dia.

O resultado é que agora o blog ficou cheio de posts sobre amenidades porque a minha capacidade cerebral se esvai em ler, preparar seminários, tentar aprender essa língua louca em que não se usa vírgula  se usa, mas beeeeem pouco(pasmem!) e pensar sobre o que eu vou escrever nos trabalhos. Essa semana por exemplo eu li muito sobre pornografia, siiimm! Nunca na minha vida eu imaginei que houvesse um tão vasto corpo de estudos sobre o tema. Mas, como aqui na Suécia a igualdade entre os sexos e uma coisa muito importante - tanto que todas as disciplinas precisam incluir uma perspectiva de gênero - eu preciso ler muito sobre feminismo, estudos femininos e gênero. Não que eu não ache esses estudos importantes, muito pelo contrário, mas eu acho que as representações de gênero na mídia representam uma dentre milhares de outros tópicos. E se eu quisesse me aprofundar nesse assunto, faria um curso específico.

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Quem observa os termômetros no lado direito percebeu que a temperatura aqui ta rodeando a casa dos 0°, de acordo com o calendário do hemisfério norte (eu e Nicklas discutimos muito a respeito disso) o inverno começa dia 1°. Só que a neve ja chegou, nevou bastante há duas semanas e hoje esta nevando novamente. Eu gosto quando fica tudo branquinho e a luz da lua e dos postes reflete na neve o que faz com que as noites fiquem super claras, de uma certa forma. No inverno não chove tanto, apesar de ser frio, é seco o que é beem melhor.

Blogs e mais blogs

Como eu não tenho muita coisa para fazer além de ser expert em leitura dinâmica, o que me permite ler todos os meus textos em menos de 2 horas, eu resolvi dar a idéia de criar um blog para a nossa turma do mestrado. Por enquanto postamos apenas transcrições das aulas e das nossas apresentações em seminários, mas a idéia é que com o tempo o pessoal comece a postar seus textos sobre mídia, gênero, comunicação, jornalismo, economia-política, etc. Acho que vai ser super interessante porque a minha turma é um microcosmo da comunidade mundial. Tenho colegas do Brasil, Alemanha, Suécia, Urugay, Russia, China, Paquistão, Georgia, Israel, Irã, Holanda, Finlândia, Nepal e Turquia e se todo mundo resolver escrever sobre sobre os assuntos que discutimos em sala de aula, sob o ponto-de-vista de seus países, o blog vai ficar bem legal.

Para ler o Blog clique aqui.

Meu encontro com os nazis

Bom, não foi bem assim um encontro no sentido interativo da palavra. Eu os vi, observei, não fiz contato e saí de perto. Sábado de manhão fomos no supermercado no centro do bairro onde moramos e ao chegar na feira (mais ou menos como uma feira do Brasil, um pouco menos na verdade, com frutas, verduras, flores etc) e tinha uns meninos com duas bandeiras distribuindo panfletos. Ao chegar mais perto percebi que a publicação que eles distribuíam chamava-se Patriot uma publicação do grupo Nationellt Motstånd (Resistência Nacional). Na minha pequena cabeça, palavras como patriota, nacionalismo, nacional, em qualquer língua muitas vezes são eufemismos para racismo, intolerância e conservadorismo. Essa organização em particular, defende os valores tradicionais suecos, ordem, hierarquia e disciplina e acham que os imigrantes que não se adaptam têm que pegar as malas e dar o fora. Gostaria muito de saber como eles medem a adaptação, será que têm alguma tabela, 100% adaptado, 60% adaptado, etc?

Não preciso nem dizer que eu fiquei observando o grupo, eu tenho muito interesse em saber o que essas pessoas pensam, como elas justificam suas idéias e como elas argumentam seu ponto de vista. Quando eles argumentam, claro, porque muitas vezes eles se fazem valer da violência. O interessante é que o grupo era formado apenas por homens, uns 10 mais ou menos. Eles estavam ali na deles sem perturbar ninguém. Acho que se eles decidissem perturbar estariam em desvantagem, porque percebi que aqui no meu bairro moram muitos estrangeiros. Ninguém tava fazendo muito caso deles. Eu vi um deles oferecer o panfleto para algumas pessoas que não pegaram.

Apesar de ser totalmente contra o ponto de vista deles, eu sou totalmente a favor da liberdade de expressão. Me preocuparia muito mais se um monte de gente estivesse pegando os panfletos e conversando com os ativistas. Ninguém estava. Proibir que algo seja dito não faz com que a idéia, o pensamento desapareça da cabeça das pessoas. Agora, educação faz com que as pessoas tenham discernimento suficiente para identificar o que é retrógrado e intolerante.

Para que servem os jornalistas

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Semana passada a Ju me passou o link do programa Uppdrag granskning (não sei uma tradução boa para o português, aceito contribuições. Recebi contribuições da Ju - vide comentários e da Givana: Missão Investigação. Valeu gurias) que foi ao ar quarta feira dia 24/10. O UG é um excelente programa de jornalismo investigativo apresentado pelo Janne Josefsson, que eu considero um jornalista com culhões, ele não se intimida diante de políticos, empresários e exige deles respostas e explicações sobre os assuntos investigados. O programa que assisti falava sobre empresas de limpeza contratadas (terceirizadas, para variar) para limpar cadeias de restaurantes como Mc Donald’s, Burger King e Max (um tipo de Mc D’s sueco). Essas empresas empregam quase sempre imigrantes, pagam pouquíssimo e obviamente, não cumprem os direitos trabalhistas.
Quando a reportagem termina, o Janne questiona pessoas envolvidas no assunto. Nesse caso foram representantes do Burger King, Max e McDonalds.Quem ta pensando que eles vieram com aquela conversa e isso é lamentável, não era de nosso conhecimento, vamos tomar providências o mais rápido possível acertou em cheio.

Eis que hoje, o jornal diário de circulação nacional Dagens Nyheter publicou essa matéria afirmando que depois da transmissão do programa, uma das cadeias de restaurantes reviu seus contratos com as empresas de limpeza e está oferecendo vagas àqueles anteriormente empregados por elas.

Quando eu pensava em ser jornalista e depois durante a faculdade eu sempre acreditei que esse é o papel da imprensa: denunciar, exigir explicações e ajudar a promover mudança social. Claro que não é sempre que isso acontece e não é sempre que os jornalistas têm essa possibilidade.

Especialmente no que tange à violação dos direitos trabalhistas, eu acho que a mídia tem um papel muito importante a cumprir. O poder legislativo elabora leis e o judiciário garante que serão elas cumpridas e pune o não cumprimento. Mas quem comete abusos aos direitos trabalhistas sempre conta com a ignorância da justiça. Só que quando o fato esta na capa do jornal, na tela da TV e do computador, fica mais difícil ignorá-lo.

Ainda no mesmo tema, hoje a Denise, do Síndrome de Estocolmo escreveu sobre a fábrica de roupas fornecedora da Gap* na Ìndia onde foram encontradas crianças trabalhando em condições análogas à escravidão. Imaginem qual foi a resposta da Gap?? Isso é lamentável, não sabíamos de nada, blablabla. Que por sua vez é uma resposta muito pareciada com a de quem explora trabalho escravo no Brasil. Bom, eles têm que dar alguma desculpa, porque dizer: sim, nós deliberadamente exploramos trabalhadores para ter mais lucro, não fica muito bonito.

* Eu trabalhei na Gap por 8 meses em Londres,foi sem dúvida o meu pior emprego. Gerentes que tratavam os empregados como idiotas, uma pressão para estar sempre sorrindo, vendendo, e forçando intimidade com os clientes, salário péssimo e além de tudo eles faziam o possível para se esquivar de nos pagar benefícios, como horas-extra, adicional noturno e compensação para trabalhar em feriados. Depois que eu pedi demissão de lá, o trauma foi tão grande que eu só consegui entrar numa loja da Gap depois de um ano, e mesmo assim, não foi na loja em que eu trabalhava. Também não comprei mais nada lá e não pretendo comprar.

Racismo, violência e intolerância

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A ermã acaba de me contar um triste episódio acontecido segunda-feira no DCE da UFRGS, um colega dela no curso de Direito foi espancado no banheiro do DCE por um grupo supostamente neonazistas. O menino, que vou chamar de Pedro*, defendia as cotas na UFRGS e justiça social. Eu tive que parar um pouco de escrever meu ensaio para comentar isso no blog.

Tem gente que acha que no Brasil não existe racismo. Essas pessoas devem viver em algum tipo de bolha sedadas por algum tipo de soma. No Brasil existe racismo sim e acho que no sul do Brasil a situação é ainda pior pois tem aqueles que se acham melhores, superiores porque afinal de contas, descendem da nata européia.

Agora eu me pergunto, esses tais de Neonazistas, acham que são o que? Europeus? Essa mania da elite branca e classe média brasileira de achar que pertence a uma casta superior porque seu tataratataravô fugiu da fome ou da guerra encontrar abrigo no Brasil é deplorável. E mesmo que tenham sangue europeu correndo nas veias, isso não os faz melhores do que ninguém. Desde quando uma raça é superior a outra? Acho que essa idéia da superioridade racial foi abandonada há no mínimo uns 50 anos. Eu entendo que há pessoas que são contra o regime de cotas nas universidades públicas, sou defensora da liberdade de pensamento e expressão, mesmo que o pensamento seja diferente do meu. O que não faz sentido é o uso da violência para defender um ponto de vista.

Eu espero que quem agrediu o Pedro responda pelos seus atos, para que outras pessoas que cogitam agir da mesma forma saibam que racismo e violência são crimes. Eu espero também que aqueles lutam contra a segregação racial e por uma sociedade mais igualitária e tolerante não se intimidem com esse tipo de ameaça.

*A Laura (ermã) pediu para eu não divulgar o nome verdadeiro do Pedro porque ele teme que a falta de civilidade de seus agressores tome proporções maiores.


Porto Alegre Click for Porto Alegre, Brazil Forecast Estocolmo Click for Stockholm, Sweden Forecast

Atenção

Eu moro na Suécia mas não sou agência de turismo, intercâmbio nem trabalho no consulado brasileiro, então não me peça informações sobre morar aqui, aprender a língua, estudar, etc, para essas coisas existe o Google e foi googlando que eu achei 99% das informações que precisava para morar aqui. Na página de links tem vários sites com informações úteis sobre morar na Suécia e Inglaterra.

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