Ontem, no caminho para o centro peguei um dos jornais distribuidos gratuitamente para ler. Foi uma experiência, digamos, interessante. A manchete era sobre um a quadrilha de latino-americanos sul- americanos que roubam as casas no sul de Estocolmo, onde moro. Até ai tudo bem, crime e primeira página de jornal sempre combinaram como arroz e feijão. Entretanto, eu achei engraçado eles se referirem aos ladrões como latino-americanos sul-americanos . Segundo a Wikipédia, a América Latina engloba 22 países. Como Nicklas argumentou, é mesma coisa que dizer uma quadrilha européia, não esclarece nada, os ladrões podem ser croatas, alemães, poloneses, suíços… Mas não para por aí, pois o jornal também afirma que os membros da quadrilha tinham “aparência latino- sul-americana”. Alguém pode me dizer que aparência é essa, pois se eu penso nos (as) latinos (as) que conheço de vários dos 22 países, eles tem várias aparências. Fazia tempo que eu não via algo de tamanha ignorância publicado num jornal (sem contar aquela revista semanal brasileira, cujo nome é sinônimo de olhe). Eu aceito que uma das minhas colegas no curso de sueco diga que eu não pareço brasileira, porque sou muito clara, afinal o cidadão comum não tem obrigação de ter um vasto conhecimento sobre o Brasil. Eu também, até bem pouco tempo, não sabia muito sobre o Curdistão, de onde ela vem. Só fiquei sabendo mais porque tive uma colega austríaca, mas de origem curda, no mestrado em Londres. Ela estava pesquisando sobre a diáspora dos Curdos e me contou várias coisas sobre essa parte do mundo. Mas um jornal, na minha humilde opinião, deveria ter um pouco mais de cuidado com uso da palavra escrita. Não interessa se é um jornal grátis. Jornalistas, repórteres, editores, não precisam ser experts em américa-latina (ou américa do sul) , mas poderiam pensar um pouquinho mais e procurar informações (coisa em que eles deveriam ser peritos) para não escrever tamanha burrice.
Mais adiante no mesmo jornal, uma publicidade me chamou atenção. Era um anúncio de uma página da Svenskt Näringsliv, algo como Confederação das Empresas Suecas. Esse anúncio, com o título “A fábula da moça que comprou muito pouco”, contava, de forma literária, a estória de uma moça que no Natal sempre comprava várias coisas: presentes, decorações, comidas fazendo a felicidade do dono da loja, que assim podia manter seu negócio, pagar seus funcionários, etc. Mas, tudo mudou quando a moça leu artigos dos cruéis articulistas, que diziam que as pessoas estão comprando demais, que isso é ruim para o meio ambiente além de alimentar um sistema exploratório. Os articulistas diabólicos pediam que as pessoas comprassem menos, fizessem seus presentes, etc. E a moça (e mais um monte de gente) ouviu os articulistas e decidiu comprar menos. E isso teve sérias consequências: o dono da loja precisou fechar seu negócio, seus fornecedores tiveram que demitir funcionários porque o consumo diminuiu e a moça do título teve um natal muito chato. Tudo isso porque ela não comprou o suficiente.
Tudo bem, eu defendo a liberdade de expressão (até mesmo dos neonazis) mas isso é um insulto à inteligência das pessoas. Primeiro essa linguagem de estória infantil forçou a barra. Segundo, são exatamente pequenos negócios, como o da fábula, que sofrem com a expansão das grandes corporações. Terceiro, a maioria dos movimentos e organizações que tentam propor alternativas ao nosso modo de vida extremamente nocivo ao ambiente defendem o consumo em negócios locais, como o caso da propaganda. Na verdade, quando eu li o anúncio eu não sabia se dava risada da idéia totalmente equivocada que a agência de publicidade teve, ou se me irritava com a maneira como eles distorceram a realidade.
Depois dessa, eu parei de ler o jornal, tinha chegado na minha estação.
Ao contrário da moça que comprou muito pouco, eu acho que comprei o necessário, comprei de lojas pequenas (onde o atendimento geralmente é muiiiito melhor) e a maioria das embalagens eram recicláveis. Acho que o meu Natal não vai ser chato como o da moça que comprou muito pouco.


Você acaba de ganhar a 11ª leitora…
Será que é presente de natal?? rs
Obrigada pela visita, volte sempre.
Os europeus acham que os sul-americanos somos tudos como os mexicanos estereotipados das sitcoms americanas…
Fiquei na casa de uma familia francesa há dois anos é ficaram surpresos cuando me viram. Eles não podiam acreditar que hajam sul-americanos brancos e mesmo loiros!
Beijo!
God jul och gott nytt år