As mulheres e a escravidão

 Obs.:tive algumas dificuldades técnicas e não consegui colocar o selo da blogagem coletiva. Que saco!

Hoje algumas mulheres vão receber flores, chocolates, cartões mas para muitas, dia 08 de março de 2008 vai ser um dia como qualquer outro: de trabalho. Duro, pesado e acima de tudo forçado. Embora tenhamos avançado muito em termos de direitos e participação da mulher na sociedade ( para uma visão geral da história do movimento feminino, leiam o post de hoje da Lys que esta ótimo) ainda temos um longo caminho a percorrer. Muitas mulheres brasileiras ainda são exploradas de diversas maneiras, dentro ou fora do Brasil e não têm a quem recorrer para reclamar seus direitos, muitas vezes não tem conhecimento de seus direitos e outras vezes são ingnoradas por autoridades cujo papel seria defendê-las.

Hoje eu estava procurando dados sobre as mulheres e o trabalho escravo no Brasil e não encontrei muita coisa (inclusive, se alguém tiver algum link, faça a enorme gentileza de postar nos comentários) então vou usar o meu achômetro e arriscar dizer que a maioria das mulheres trabalhando em condições análogas à escravidão no Brasil está na prostituição e indústria de vestuário. Eu arrisco em dizer que grande maioria das pessoas exploradas em prostituição são mulheres. De acordo com um relatório de 2006 da Anti-Slavery International, aproximadadamente 70 mil mulheres estão envolvidas em prostituição em outros países, notadamente Espanha e Portugal (Daí se entende porque tantas brasileiras são barradas ou ter que dar satisfação de toda essa vida e das passadas nas imigrações desses países). Eu acho que qualquer país tem direito de defender suas fronteiras, mas isso não quer dizer que eu ache que um estado soberano poderia colocar exércitos atirando de metralhadora quem tentasse entrar muito menos tratar pessoas de forma indigna e muitas vezes injusta e discriminatória. Bom, esse é um caso: muita gente vem para a Europa a passeio, a trabalho, em viagens de estudo e acaba sendo barrado por conta das estatísticas que depõem contra nós.

O segundo caso é de uma mulher que está vindo para para a Europa para se prostituir. Vamos analisar o seguinte: esse mesmo relatório da Anti-Slavery do qual falei antes, cita dados da Polícia Federal que revelam que, em geral, as mulheres traficadas para exploração sexual com fins comerciais têm entre 18 e 30 anos, baixo nível de escolaridade, a maior parte são solteiras com histórico de violência doméstica e algumas vezes com experiências prévias trabalhando como prostitutas. Agora convenhamos: uma pessoa que viaja nessas condições (muitas vezes pensando que está vindo para a Europa para trabalhar de garçonete, faxineira, babá) merece ser tratada como criminosa? Geralmente, a mulher que é levada a se prostituir é a parte mais fraca que um esquema que movimenta muito dinheiro, ela precisa de amparo e de autoridades que ajam em seu favor e de leis que reconheçam sua posição. Pensem que eu, ou você que está lendo tivemos o privilégio de escolher nossas profissões, de estudar. Muita gente não tem, especialmente no Brasil.

No âmbito do trabalho escravo no meio rural, o reconhecimento do papel da mulher pode ser muito importante para a erradicação da escravidão. Mesmo que a mão-de-obra seja constituída em sua maioria por homens, esses homens têm mães, esposas e filhas. Se houverem conscientização e iniciativas no sentido de incluir a mulher no trabalho remunerado muitos homes irão escapar da situação de desespero que faz com que eles aceitem promessas mirabolantes, sejam levados para outro estados e explorados.Em seu último livro (Ending Slavery) Kevin Bales fala sobre a importância de incluir as mulheres nas políticas de desenvolvimento e erradicação da escravidão. Ele dá o exemplo de um programa de micro-crédito para mulheres em Bangladesh, o dinheiro servia para que as mulheres fizessem de tudo um pouco desde plantar ervas, costurar, vender roupas até iniciar pequenas fábricas e manufaturas.

Mas que contribuição nós, enquanto cidadãos podemos dar para a erradicação do trabalho escravo, especialmente o trabalho escravo feminino? Em primeiro lugar podemos nos informar sobre o que acontece em áreas bem remotas do Brasil, de posse dessa informação, precisamos entender o problema da escravidão e quem tem mais poder para solucioná-lo. Fazendo isso, descobrimos que os muito está nas mãos dos políticos e empresários o que significa que nós, enquando cidadãos, podemos usar o poder de voto, o poder de compra e o poder de agir e cobrar de políticos e empresarios ações que contribuam à erradicação do trabalho escravo.

Em relação à prostituição, acho que muita gente precisa rever seurs conceitos, refletir mais sobre suas opiniões. Aqui na Europa eu ouço muitos brasileiros falando: “quem vem para se prostituir sabe no que está se metendo” ou “essas prostitutas acabam com a reputação de quem sai do Brasil para estudar e trabalhar”. Quanto à primeira afirmação, dá para dizer que muita gente não sabe no que está se metendo e outras tantas sabem e só estão se metendo porque estão desesperadas mesmo. Quanto à segunda afirmação eu poderia escrever um post inteiro mas vou apenas dizer que erra quem faz a generalização de que todas as brasileiras que vêm para a Europa são prostitutas e erra quem julga sem entender a lógica da situação.

Por fim, espero a data de hoje sirva para celebrar as conquistas de muitas mulheres que lutaram para que hoje nós tenhamos possamos votar, estudar, trabalhar e dizer o que pensamos e para refletir sobre o caminho que ainda temos que percorrer para que os direitos conquistados pela luta feminista possam ser desfrutados por mulheres de diferentes classes, religiões e etnias.

16 Respostas para “As mulheres e a escravidão”


  1. 1 laurams Março 10, 2008 às 7:24 am

    acho que erra tb quem critica o trabalho de uma prostituta??
    é uma caretice total!!
    Mas eu sei que muitos homens desrespeitam essa profissão, q se for exercida por uma pessoa com o seu arbítrio, não tem nada de mais!
    Bjos ermã!

  2. 2 ethel scliar Março 10, 2008 às 10:13 pm

    Gostei de você ter focado nesta questão do trabalho escravo - disfarçado com outros nomes ou explícito. Gostaria de lembrar uma outra forma de escravidão, muito recorrente no brasil: a da empregada doméstica. Sem horario para entrar ou para sair, quase sem folgas, recebendo as migalhas das roupas usadas, dos restos da casa - e ainda tem que ouvir que “é da família”! Alguém sabe me dizer de algum caso onde estas domésticas que são da família receberam parte da herança? Pois é. Fora o trabalho que beira a escravidão das mulheres sujeitas a multiplas jornadas - tema que abordei la no meu post. Bzus mil, bom inicio de semana. Ethel SC
    PS: Adorei o titulo do blog. Hoje de manha, aqui no Canada, estavamos falando sobre isto mesmo! Cada as baratas? Cada as formigas? Cade aquele mundaréu de insetos?

  3. 3 ethel scliar Março 10, 2008 às 10:20 pm

    Ha! Em tempo: muiiiiito bem lembrada a questao das metas do milênio. Vou reforçar isto la no clubedolivro e chamar para o teu link. Ethel SC

  4. 4 paolasartoretto Março 11, 2008 às 12:06 am

    Ermã, não toquei no mérito dessa questão, porque isso é assunto para blogar uma vida inteira e mais seis meses. Eu acho que ninguém tem direito de julgar ou desrespeitar uma prostituta.
    Ethel, existem casos de trabalho escravo domiciliar documentados pela Anti-Slavery na Europa e pela Free the Slaves nos Estados Unidos (Kevin Bales relata alguns desses casos em seus livros). Até onde eu sei não existem dados sobre esse tipo de trabalho no Brasil (pode ser que eu esteja bem errada), mas eu não tenho dúvidas de que existem empregadas domésticas trabalhando em condções bem precárias no Brasil, mesmo tendo todos os direitos que a constituição assegura ao trabalhador brasileiro.
    Quanto as baratas, eu ODEIO elas, por isso que agora decidi ir para o Brasil só no inverno, quando elas não dão as caras.

  5. 5 Mercia Março 12, 2008 às 5:28 pm

    Adorei o texto!!!!!! vim antes porque a Scliar colocou seu link no clube do livro.. mais ia acabar chegando aqui porque estou seguindo devagar a blogagem.
    Muito bom… temos começar a achar os culpados desse problema de prostituição… e não culpar (como sempre) os mais fracos, mais simples, que aparecem na linha de fogo e botão a cara a tapa.

    Parabens pelo texto!
    Mercia

  6. 6 Lys Março 15, 2008 às 9:35 am

    Excelente texto ! Parabens por sua participacao tambem exemplar !

    Eu entendo que voce nao tenha entrado na questao do merito da prostituicao pois esse realmente eh um assunto para toda a vida. Qualquer tipo de discriminacao eh condenavel. E temos que ser livres para escolher nossa profissao e o que fazemos com nossas vidas e com nosso corpo. Isso inclui o direito ao aborto e tambem a prostituicao. Isso eh uma coisa e na minha opiniao pessoal acho que deveria ate ser legalizada, mas temos que olhar por outro lado como voce colocaste de maneira exemplar ! A grande maioria das mulheres envolvidas na prostituicao nao estao nela por opcao e sim por falta de oportunidade ou ate mesmo pela forca e eh por essa razao mesmo que a legalizacao eh muito dificil de ser pensada. E isso inclui ate mesmo criancas e adolecentes.

    A Scliar citou muito bem o problema das empregadas domesticas no Brasil e isso se amplia para todos os paises subdesenvolvidos onde a necessidade faz com que um cidadao tenha que se submeter a trabalhos dificeis em troca de sua sobrevivencia. Empregadas domesticas e mais uma serie de outros trabalhos, incluindo amnos os sexos, pode se enquadrar como escravidao. Estou realmente que voce tenha abordado esse tema pois eh um consenso nessa coletiva e de certa forma eh um tapa na cara de muita gente que adora dividir o mundo entre putas e santas, tipico de nossa cultura patriarcal.

    Estava pensando essa noite mesmo que sabemos muito pouco sobre a questao da escravidao sexual e o trafico de mulheres e ate que ponto estamos nas investigacoes desse caso. Como aparece como um consenso nessa coletiva pensei em escrever uma carta em nome dos blogs participantes pedindo um esclarecimento maior sobre a situacao pois assim como voce tambem nao encontrei nada muito esclarecedor na internet.

    Voce saberia me dizer qual seria o orgao competente para nos colocar a par da situacao ? Seria a Policia Federal ?

    Um abraco querida e mais uma vez parabens por teres feito sua parte tao bem.

    Lys

  7. 7 paolasartoretto Março 15, 2008 às 4:35 pm

    Oi Mercia, obrigada por mais uma visita e pelo comentario. Eu espero que esse movimento que estamos fazendo no ambito virtual desencadeie ações no ambito real, que as pessoas revejam seus conceitos e repensem suas atidudes em relação ao outro.

    Lys, espero que tu estejas melhor e te desejo uma ótima recuperação da tua cirurgia. Eu admiro muito tua dedicação e comprometimento com os problemas da mulher brasileira.

    O foco do minha dissertação de mestrado foi a escravidão no meio rural, mas eu acabei lendo e ainda leio bastante sobre escravidão em geral. A questão do tráfico de pessoas para escravidão, principalmente mulheres, tem tido relativa visibilidade em alguns países europeus. Entretanto eu não noto a mesma preocupação no Brasil.

    Quanto aos órgãos que poderiam nos dar mais informações sobre escravidão sexual e tráfico de mulheres, esses são os que me vêm à cabeça no momento:

    - Polícia Federal pode ter dados sobre tráfico de pessoas par o exterior.
    - CONATRAE (Comissão Nacional para erradicação do trabalho escravo): podem ter dados sobre exploração dentro do Brasil.
    - Repórter Brasil: é uma ONG e agência de notícias na área de questões trabalhistas e trabalho escravo. Eles podem ter dados, mas também podem nos orientar no sentido de quem é o responsável por coletar esses dados. Eu entrevistei um dos coordenadores da Repórter Brasil para a minha dissertação e eles foram extremamente atenciosos e me ajudaram bastante.

  8. 8 Lys Março 15, 2008 às 8:20 pm

    Excelente Paola ! Belas dicas que me deste ! Agora ja sei por onde comecar. Muito obrigada… aprendi muito com seu post !

    beijocas
    Lys

  9. 9 Ciça Março 18, 2008 às 3:37 pm

    Arri égua, se era pra deixar a gente sem palavras, parabéns! Muito bom!

  10. 10 georgia aegerter Março 25, 2008 às 5:44 pm

    Oi, o número de prostituicao é mesmo altíssimo. Vc focalizou um lado da questao que poucos pensaram nessa blogagem: o lado escravo.

    Vim aqui te fazer um convite e desculpa o recado assim mas creio que você vai entender…

    Viemos aqui para te convidar para uma blogagem coletiva com o titulo:
    O que voce pode fazer para acabar com o analfabetismo no Brasil?

    Que acontecerá no proximo dia 18 de abril, dia nacional do livro.

    O post convocatoria voce pode ler no blog da Georgia (http://saia-justa-georgia.blogspot.com/) e no blog da Meiroca (www.meiroca.com).

    Caso voce tenha algo a dizer a respeito, deixe um comentario no blog da Georgia ou da Meiroca, para que possamos te incluir.

    Participe e divulgue em seu blog.

    Georgia e Meire

  11. 11 georgia aegerter Março 27, 2008 às 12:16 pm

    Oi, vim agradecer a sua participacao.

    Bom dia!!!

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Eu moro na Suécia mas não sou agência de turismo, intercâmbio nem trabalho no consulado brasileiro, então não me peça informações sobre morar aqui, aprender a língua, estudar, etc, para essas coisas existe o Google e foi googlando que eu achei 99% das informações que precisava para morar aqui. Na página de links tem vários sites com informações úteis sobre morar na Suécia e Inglaterra.

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