If you broke it, you shouldn’t be allowed to fix it

Terça-feira, dia 3 foi um dia que eu nunca vou esquecer: eu tive a oportunidade de escutar Naomi Klein ao vivo no Södra Teatern aqui em Estocolmo. Eu sou fã dela desde No Logo e agora depois de ler The Shock Doctrine minha admiração pela escritora canadense aumentou. The Shock Doctrine (A Doutrina do Choque) é um livro de quase 600 páginas que fala sobre algo que ela chama de “disaster capitalism” ou seja como governantes (os Republicanos nos Estados Unidos) se aproveitam disastres - naturais ou provocados - para empurrar leis de privatização e desregulamentação. No livro ela cita vários exemplos de quando isso aconteceu: golpes de estado nos anos 60-70 na América Latina, Rússia depois do fim da União Soviética, Sri Lanka depois do Tsunami, New Orleans depois do furacão Katrina e por último o Iraque. A idéia dela quando começou a escrever o livro era falar sobre a indústria de reconstrução e segurança que vem lucrando com a reconstrução do Iraque. Entretanto, na palestra Naomi contou que quando estava na Argentina em 2003 ela participou de algumas manifestações contra a ocupação e percebeu que as Mães da Praça de Maio argumentavam que estavam fazendo com o Iraque a mesma coisa que fizeram com a Argentina nos anos 60. Foi então que ela começou a refletir sobre o assunto, perdeu muitos prazos de entrega de manuscritos e o que era para ser um livro sobre a ocupação do Iraque se transformou num tratado sobre o Capitalismo de Disastre.

Naomi falou da crescente indústria de segurança que ganha cada vez mais dinheiro protegendo países e pessoas de ameaças que muitas vezes nem sequer existem. O que essa indústria faz é criar sofisticados sistemas de proteção para os ricos e “gerenciar” os pobres com prisões, controles de fronteiras além de tratar de afastá-los fisicamente - com projetos habitacionais e planejamento urbano - de quem tem dinheiro, como aconteceu no Sri Lanka depois do Tsunami. Naquele país, o dinheiro que os europeus enviaram para ajudar as comunidades locais a se recuperarem do desastre, foi na verdade usado para afastá-los da costa e do mar, de onde tiravam seus sustento, para construir resorts ultra luxuosos.

Já no Iraque, a reconstrução depois da guerra se transformou num mega negócio onde quem ganhou foram empresas de segurança como Halliburton e Blackwater (onde um dos maiores acionistas é o vice-presidente Dick Cheney) e quem perdeu foi o povo Iraquiano.

Como disse a apresentadora da palestra -não lembro o nome dela- o The Shock Doctrine não é um livro esperançoso, mas é certamente inspirador. Segundo Naomi, a saída para evitar os tratamentos de choque planejados pelo governo americano é falar e refletir sobre o que está acontecendo a nossa volta, porque os estrategistas do capitalismo de disastre se aproveitam exatamente dos momentos em que todos estão chocados e sem entender o que está acontecendo.

Por fim, Naomi falou da idéia do débito ecológico, ou seja, que os países desenvolvidos paguem para que as reservas naturais continuem intactas, uma vez que países como Equador e Brasil também querem lucrar com petróleo e outras commodities. O que não pode acontecer é deixar que os responsáveis pelo estrago tenham a chance de arrumar a casa como aconteceu no Iraque.

O mais engraçado de tudo foi um grupo de jovens suecos arrumadinhos na porta do teatro carregando umas placas com fotos do Milton Friedman. Para mim eles pareciam umas crianças mimadas que não têm idéia do que é pobreza, desemprego e fome tentando defender seu direito de dirigir uma BMw, passar férias na Tailândia e carregar uma bolsa Gucci. Ridículo.

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