Arquivo para Fevereiro, 2009

Inatividade intelectual

dsc01954Há exatamente uma semana (sexta-feira, 20-02) eu tive uma reunião com a minha orientadora. Discutimos várias coisas e sugeriu marcar uma data para eu entregar o primeiro rascunho do background teórico e métodos de pesquisa. Até aí tudo bem, eu gosto quando as coisas tem datas para serem feitas. Mas daí ela lascou assim à queima-roupa: que tal duas semanas. Eu querendo dar uma de fodona respondi que sem problemas. Na verdade eu fiz um “curso” no semestre passado que consistia em escrever um paper. Esse paper poderia ser usado na dissertação, como estudo piloto ou como background teórico e eu escrevi algo que desse para depois ser usado como background teórico. E me esforcei bastante para escrever uma coisa decente.

Mas aí a coisa começa a complicar. Essa semana fiz uma leitura dinâmica em alguns livros e artigos que a minha orientadora sugeriu e vi que preciso mudar algumas coisas, acrescentar outras, editar mais outras tantas.  E é então que o problema começa. Onde está a força intelectual para sentar e escrever? Eu até já comecei a escrever, mas sempre depois de escrever duas linhas eu começo a achar que não está bom, que eu não levei TODOS os aspectos relevantes em consideração. Escrever um parágrafo é como tentar extrair agua de pedras de Mata (a cidade da madeira que virou pedra).

Me conhecendo como me conheço eu sei que a minha sorte vai virar, que chega uma hora que a inspiração vem. Mas essa hora precisa chegar logo, de preferência agora durante o fim de semana porque semana que vem preciso fazer companhia para a minha sogra quinta e sexta-feira – dia em que o rascunho precisa ser entreque. E enquando essa hora não chega eu sinto um imenso sentimento de culpa por não sentar e escrever umas três páginas numa sentada, coisa que jamais aconteceu.

Para piorar a situação tem o curso de sueco, mas esse eu tô meio que empurrando com a barriga. O problema dele não é a dificuldade, mas sim que sempre tem um texto para escrever ou uma apresentação sobre temas extremamente interessantes para preparar. E isso toma muito tempo.

Acho que a minha saída será escrever qualquer coisa assim sem me preocupar muito com TODOS os aspectos relevantes, entregar e depois esperar para ver o que minha orientadora e meus colegas tem a dizer. Sim, porque como os suecos amam trabalho em grupo, mesmo escrevendo nossas dissertações individualmente, nós temos encontros entre os orientandos do mesmo orientador para discutir nossos trabalhos. Assim para dar um atmosfera grupal à coisa.

Primavera?

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Teoricamente a primaveira chega  no início de fevereiro março aqui por essas bandas, mas a prática é bem diferente, como dá para ver! A universidade de Estocolmo estava coberta de neve ontem. No caminho de casa até o metrô a neve estava quase pelos joelhos. Mas engana-se quem pensa que quando tudo está assim branquinho é muito frio. Para cair neve a temperatura precisa estar em torno de 0° graus o que é uma temperatura bem amena para os padrões locais. Ontem de manhã quando eu saí estava 2°.


dsc01943Aqui em casa tem gente só esperando pelo verão para poder jantar na sacada, mas pelo visto vai demorar um pouquinho.

A história da política de imigração na Suécia

A revista Fokus dessa semana publicou uma matéria com o Ministro da Imigração Tobias Billström que propôs uma nova lei que recebeu duras críticas mesmo de partidos aliados. De acordo com a lei proposta por Billström cidadãos suecos naturalizados que cometam crimes perderão a cidadania sueca. A matéria conta a história do ministro desde os tempos de universidade, mas também a história do desenvolvimento da política de imigração sueca, que eu achei muito interessante e resovi traduzir aqui.

O modelo sueco

Virar a casaca de acordo com o vento

Houve um tempo em que a imagem da Suécia como o país mais generoso com imigrantes no mundo inteiro refletia a realidade.  Desde a metade do século XIX até a I Guerra Mundial a imigração era uma prática totalmente desregulada. Mas mesmo assim  o número de imigrantes não era grande. Em contrapartida os suecos emigravam: 1,3 milhões de suecos deixaram o país durante esse período para tentar a sorte nos Estados Unidos.

A situação mudou com o desenvolvimento da indústria e a demanda por mão-de-obra depois da guerra.  Finlandeses, Iugoslavos, gregos, turcos. Durante duas décadas cidadãos de certas nacionalidades podiam trabalhar e viver na Suécia livremente.

O número de imigrantes aumentava a cada ano e o desenvolvimento econômigo do país parecia durar para sempre. Em 1965 chegaram aqui 46500 estrangeiros, o número mais alto até então. No ano seguinte a situação econômica apertou e os políticos se apressaram em fechar as fronteiras. Em 1967  a imigração de trabalhadores para a Suécia foi regulamentada.

Ao mesmo tempo que a imigração de força-de-trabalho diminuiu os políticos ganharam um novo problema para resolver. Refugiados. Eles não eram tantos antes. Talvez mil por ano. O número exato é difícil de saber porque o Departamento de Imigração só começou a elaborar estatísticas na década de 80. Os refugiados vinham de países completamente diferentes que os trabalhadores europeus que migraram para a Suécia nos anos anteriores. O golpe militar no Chile foi em 1973 foi uma de muitas razões.

Frente à uma situação completamente nova o parlamento sueco decidiu por unanimidade em 1975 criar uma política de imigração. Mais um modelo sueco, como os políticos declararam orgulhosos, era lançado. Segundo a própria descrição, o mais humano do mundo.

O consenso do bloco político sobre a política de imigração permameceu por décadas porque existiam duas salva-guardas: Social-democratas e Moderados. A vontade dos outros partidos teve um papel apenas marginal.

O que tinha um papel importante, entretanto, era a opiniões. Quando imigração significaca imigração de trabalhadores não havia muito espaço para opiniões. Os imigrantes tinham emprego, casa e se assimilaram à sociedade sueca. Não havia muito o que discutir.

Mas nos anos 80 falar em imigrantes era falar em iraquianos, iranianos, eritreus e somalis. A indústria estava em declínio e o Miljonprogrammet* tinha terminado. O descontentamento com a política de imigração se tornava cada vez mais aparente.

A Ministra da Imigração Maj-Lis Lööw assumiu no governo social-democrata junto com Göran Persson em 1989. Nessa época o próprio ministro da imigração era a última instância num processo de pedido de asilo. Ela tomou a decisão na segunda-feira. Na quinta-feira da mesma semana foram publicados os nomes daqueles que deveriam deixar o país.

A ministra ainda era nova no posto quando ela tomou sua decisão mais difícil. Foi no dia de Santa-Lúcia** em 1989. O título do release revela a pressão pela qual ela passava: “O sistema sueco de asilo político se encontra em crise”.   O decreto de Santa Lúcia, como foi chamado, foi o aperto mais forte na política de imigração até então. Apenas refugiados segundo a Convenção de Geneva poderiam receber asilo e não pessoas que se encontrassem em situação de risco em seus países.

Mesmo assim isso não representou uma mudança de curso. A lógica continuava a mesma do tempo da grande imigração de mão-de-obra, como sempre foi: quando a integração não é bem sucedida o número de imigrantes precisa diminuir e vice-versa.

E o espiral continuou até a eleição de 1991, quando 368 282 eleitores votaram no Ny demokrati (Nova Democracia – partido ultra-nacionalista de extrema direita). 6,7 porcento do total de eleitores. O sucesso se deveu à política de imigração do partido. Nunca os suecos foram tão críticos à imigração quanto no início dos anos 90, de acordo com uma pesquisa do Instituto Som. E isso deixou marcas na política.

- O Ny demokrati influenciou os outros partidos indiretamente na elaboração de políticas mais restritivas. Eles ganharam um significado maior do que o apoio dos eleitores – diz o professor Björn Fryklund na faculdade de Malmö, que há muito tempo pesquisa sobre movimentos e partidos populistas de direita.

O governo de direita, com Friggebo como ministro da imigração, tentou acabar com a vinda de refugiados da Iugoslávia através da imposição de visto para bosnios (?) em 1993, quando a guerra estava em seu pior momento. “

* Miljonprogrammet: programa do governo sueco durante os anos 60-70 para construir 1 milhão de apartamentos como preços acessíveis.

** Dia de Santa Lucia: 13 de dezembro, marca o início das comemorações de Natal

Escreva primeiro, pergunte depois

Pegue uma mulher num país estrangeiro, possivelmente com problemas psicológicos, governado por um partido de extrema direita que fez uma campanha abertamente contrária à imigracão. Digamos que ela invente um ataque xenofóbico. O resultado poderia ser uma família preocupada, um julgamento, alguns traumas e possivelmente um tratamento psicológico. Agora coloque na equacão uma imprensa onde a falta de profissionalismo impera, qual o resultado? Escândalo, caos e marcas que ficarão por toda a vida.

Eu não estou dizendo que se se confirmar que a Paula Oliveira mentiu, inventou a gravidez e o ataque, ela seja uma coitadinha. Acho que se ela mentiu para a polícia precisa ser punida; se tem problemas psicológicos precisa ser tratada. Mas facamos um exercício: o que teria acontecido se o caso não estivesse nas capas dos jornalões e na tela da TV um dia depois de ter acontecido? O que aconteceria se fosse eu ou você que não temos pais bem relacionados em Brasília? (No meu caso, pode ser que o Jornal do Povo desse uma notícia, talvez, bem talvez, a Zero Hora, porque meus pais não são tão bem relacionados quanto o Sr. Paulo Oliveira, político e advogado). Imagine se fosse um de nós, eu ou você, e se nós realmente tivéssemos problemas psicológicos. Você ia querer a sua foto estampada nos principais jornais do país? Não né, pois é, nem eu e acredito que nem a Paula.

Para mim é um misto de mau-caratismo com covardia que a imprensa tenha se portado como se portou. Quem trabalha na imprensa sabe o poder que tem em mãos e deveria saber que esse poder deve ser usado com cuidado. Agora imaginem, alguém numa redacão de jornal recebe o telefonema do Sr. Paulo Oliveira, umas fotos por email – que ele disse ter pedido à filha que tirasse para servir como prova – e tcharan, o que temos: uma notícia. Para que checar com a polícia, para que investigar, para que ouvir os outros lados da história, quando se pode dar a notícia imediatamente, antes de todo mundo, não é mesmo?

Parece que o imediatismo é bem mais importante que outros princípios do jornalismo, como a investigacão.  Um jornalista não pode esperar escrever a verdade absoluta sobre alguma coisa – muitos duvidam até que algo como verdade absoluta exista – mas investigar um fato sob vários ângulos, procurar informacões em várias fontes, isso é perfeitamente possível. O problema é que investigar um fato minuciosamente significa esperar uns dias para publicá-lo, o que parece ser inaceitável para a imprensa brasileira. O importante é falar qualquer coisa, mesmo que depois seja preciso desmentir. A Paula por exemplo era vítima na semana passada e nessa é culpada. Semana passada ela tinha nome e sobrenome na Folha, essa semana ela só tem sobrenome.  Mas no fim das contas contas é a cara – e a barriga – da Paula que estão nos jornais mesmo, não a do editor, então para que se preocupar como essas coisas de ética?

Na minha humilde opinião o maior vexame nessa história toda foi o da imprensa, mas os jornais vão continuar aí, todo mundo vai continuar lendo e daqui a pouco eles acham outro super furo de reportagem , outra pessoa para julgar. Enquanto a Paula vai continuar sendo para muita gente a brasileira que saí por aí manchando a reputacão do Brasil no primeiro mundo.

*Povo eu estou escrevendo no computador da universidade e não consegui achar o cedilha, peco desculpas pelos transtornos causados!

Artistas arteiros

A Konstfack é uma escola de artes super tradicional aqui na Suécia, cujas origens datam lá do século XIX. Muita gente famosa por aqui – no ramo das artes, fique bem entendido- estudou lá, como por exemplo Mats Åkerman e Jan Stenmark. Dizem que não é qualquer um que estuda lá: precisa apresentar portfólio e uma carta de intenções e  tem uma  entrevista.  É algo tipo a nata da nata da vanguarda artística.

Acontece que agora alguns alunos da Konstfack resolveram fazer arte. Não essa arte dos quadros que temos nas paredes, mas aquela que as mães não gostam que os filhos façam. Como por exemplo escrever nas paredes com chocolate, no meu caso. (Eu era uma criança bem criativa, assim como os alunos da dita escola).  E eis que a escola agora não sai das páginas dos jornais.
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Primeiro foi um aluno até agora não identificado que em seu projeto de graduação resolveu pichar um trem do metrô de Estocolmo, quebrar uma janela para sair e filmar. Tudo isso com o trem em trânsito. O filme de dois minutos foi o trabalho de conclusão de curso dele. Agora a SL, empresa de transporte público de Estocolmo está processando a escola em 100 mil Coroas Suecas (cerca de 26 mil Reais) pelos danos causados. A escola diz que não autoriza projetos que possam causar danos à propriedade pública ou privada, mas o aluno foi aprovado e ganhou seu diploma.

Agora em janeiro outra aluna, Anna Odell, colocou em prática seu projeto de se fazer passar por doente mental tentando cometer suicídio perto de uma ponte aqui em Estocolmo.  Ela foi ajudada por passantes que chamaram a polícia. A polícia levou Anna para uma emergência psiquiátrica onde ela foi medicada. Depois disso ela se identificou, disse que era completamente saudável e que tudo era parte de um projeto para a faculdade. Os médicos não acharam o acontecido lá muito artístico e reportaram Anna para a polícia. A estudante está sendo acusada por sete infrações legais. Os professores da faculdade expressaram seu apoio à estudante, mas a escola iniciou uma investigação interna para reavaliar seus procedimentos.

Semana passada alguns professores da faculdade escreveram um artigo em um dos diários nacionais suecos, o Dagens Nyheter, apoiando a aluna.  Eles dizem que (tradução bem livre minha)

“Todos nós sabemos que a medicina, os hospitais e psiquiatria tem funcionado historicamente não apenas como mecanismos de apoio, ajuda e cura mas também como um campo para o exercício do poder e disciplina.

Poucos negam que o papel da psiquiatria tem sido o de apontar e definir os limites da normalidade”

Acho que esses profes andaram lendo o Alienista. Bom, mas voltando ao assunto, eles acrescentam que um experimento parecido foi feito por uma jornalista na década de 70 e que também gerou intenso debate. Além disso, dizem os professores, quando a aluna terminar o trabalho e expor seu objetivo – que até agora não foi exposto – a sociedade irá entender o porquê de ela ter agido como agiu.

Daí eu me pergunto, quais são os limites da arte. Eu acho que a criatividade não deve ser limitada.  Se empresas podem pagar para colocar seus outdoors feios  e muitas vezes cheios de preconceito e estereótipos no espaço público, por que artistas não podem utilizar esse espaço? Só que eu também acho que a arte deve nos fazer pensar, nos fazer ver as coisas sob uma perspectiva diferente. Eu não sei se eu considero o resultado do projeto do nosso pichador anônimo arte. Mas e aí, quem decide o que é arte e o que não é? Eu? Os intelectuais? Os curadores dos museus? Executivos de grandes empresas quando decidem que projetos vão patrocinar?

E o projeto da moça que se fingiu de suicida é arte? É um desperdício do dinheiro público? E se fosse um estudo sociológico, será que despertaria tanta polêmica?

Se alguém tem a resposta para essas perguntas, be my guest, porque eu não faço a mínima ideia.


Todos querem ser donos da verdade

Eu não retiro uma vírgula do que disse no post anterior. Eu acho que a história da agressão à Paula tomou rumos inesperados e mesmo que a hipótese de que ela teria se auto-mutilado e inventado o ataque seja comprovada isso não vai mudar em nada o fato de que a situação para imigrantes aqui na Europa está se deteriorando.

Até agora eu não encontrei uma fonte de informações confiável.  A imprensa brasileira é muito apressada em achar culpados em achar uma explicação, qualquer que seja, vide o caso do vôo TAM.

Do lado suíço, não sei o que esperar de um país governado por um partido de extrema direita, que tinha um discurso racista durante a campanha eleitoral e que em sua plataforma de governo quer limitar os direitos de imigrantes no país. Além disso, até 1990 mulheres não podiam votar nesse cantão suíço.  (Os textos estão em inglês e espanhol, respectivamente). Nesse contexto assim super favorável (ironic mode on) a mulheres e imigrantes não dá para esperar que instituições estatais – como a polícia – tratem um membro desses dois grupos maravilhosamente bem.

Nós e os outros

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Ontem de manhã eu saí da academia e no caminho até a estação de metrô, uns 5 minutos, liguei para a Ju. Eu cheguei em casa sã e salva o que não aconteceu com a Paula Oliveira, que mora em Zurique, na Suíça. Como muita gente deve saber a Paula foi agredida por neonazistas quando voltava do trabalho, o choque a fez perder os gêmeos que estava esperando. Infelizmente a Paula não foi a primeira vítima desse tipo de crime aqui na Europa. E lamentavelmente ela não será a última.

Em setembro de 2007 eu escrevi nesse post sobre a campanha eleitoral ultra-racista do SVP, o partido que agora está no poder na Suíça. O SVP é apenas um, talvez o mais bem sucedido, dos partidos de extrema direita que pipocam aqui na Europa. A Grã-bretanha tem o British National Party, a Itália tem o Lega Nord e aqui na Suécia tem o Sverigedemokraterna. Durante os últimos anos o número de votos para esses partidos tem crescido bastante. O problema não é que as pessoas hoje são mais racistas do que no passado, mas sim que hoje certos comportamentos estão se tornando socialmente aceitos. E isso é muito perigoso.

Muito do racismo que existe hoje na Europa e faz com que episódios horríveis como o que aconteceu com a Paula Oliveira se tornem mais comuns tem origem num raciocínio prá lá de tacanha, que muitas vezes é incentivado pela mídia. O discursos desses partidos neonazistas é, em essência, de que a imigração é a principal causa da violência e desmantelamento da sociedade. Falta de emprego, criminalidade, baixos salários … é tudo culpa dos imigrantes.

Para quem não se esforça em entender outras culturas é muito fácil colocar culpar quem é diferente e mais vulnerável. Para quem não quer entender uma complexa rede de relações sociais e políticas que causam a falta de emprego, os baixos salários e a alta criminalidade, é muito fácil dar uma cara ao vilão. Criar um antagonismo entre nós e eles faz um grupo pensar que ao eliminar o outro estará solucionalndo todos os seus problemas.

A partir da década de 90 o fluxo de imigrantes para os países do oeste europeu aumentou muito. Duas guerras no Iraque e conflitos na ex-Yugoslávia e África contribuíram para que muita gente deixasse seus países. Ao chegarem no novo país, imigrantes, asilados e refugiados estão numa posição muito vulnerável. A integração à nova sociedade é muitas vezes quase impossível sem falar a língua e morando num gueto. A segregação da qual muitos imigrantes são vítimas causa outros problemas como desigualdade, pobreza e obviamente a violência.

Do outro lado da equação está a ignorância que anda de mãos dadas com o preconceito. Não entender a cultura do outro faz muitas vezes com que nós formemos opinões erradas – preconceito. O preconceito faz que nós não aceitemos que outros sejam diferentes de nós – intolerância. Como eu já escrevi lá em cima, a mídia contribui muito para formar a imagem dos imigrantes em vários países na Europa. Ela contribui quando retrata imigrantes como criminosos, ou quando diz que imigrantes abusam do sistema de bem-estar social ao mesmo tempo que se cala  sobre a dificulde de encontrar emprego, ser aceito e se integrar na nova sociedade. A mídia também contribui quando retrata certas culturas e religiões – vocês sabem quais – de uma forma extrema, maniqueísta e unilateral.

Mas eu acredito que nós brasileiros – principalmente os que moram na Europa – não estamos numa posição muito boa para falar de tolerância. Eu já ouvi e li muitas opiniões extremamente preconceituosas sobre árabes, muçulmanos, africanos, europeus do leste, indianos … a lista poderia continuar. Quando um de nós é agredido e violentado é preciso refletir e pensar que a raíz dessa agressão é esse tipo de idéia que nós também temos a respeito de outros.

Leia o post da Ju sobre o assunto.

Leia mais sobre imigração na Europa.

Aqui também tem índio – ou melhor, habitantes nativos

Sexta-feira, dia 06 foi o Dia Nacional dos Samis,  o povo que habita a região que muitos de nós chamamos de Lapônia mas que para eles se chama Sàpmi e fica numa área que abrange o norte da Noruega, Suécia, Finlândia e um pedacinho da Rússia. A data comemora o primeiro congresso Sami, realizado em Trondheim na Noruega em 1917. Nesse congresso Samis da Noruega e Suécia se encontraram pela primeira vez para discutir seus problemas.Segundo a Wikipédia os Sami são os indígenas aqui da área, o que eu acho que significa que eles chegaram aqui no pedaço antes mesmo dos vikings, há mais de 2500 anos.  Aqui muita gente os chama de Lapp, ou lapão, que tem um sentido pejorativo porque lapp nas línguas escadinavas significa trapo e reza a lenda que os Sami eram chamados assim por causa de suas roupas típicas.

Durante muito tempo os Sami viveram de atividades rurais como pesca e pastoreio (de renas) e também artesanato.  Como  precisavam se adaptar ao clima Ártico os Sami eram um povo nômade. Hoje em é apenas uma minoria que vive da criação de renas, apenas 2,800 de um total de 135 mil. A criação de rena é uma atividade que permitida somente a Samis.  Hoje em dia a maioria dos Samis vive uma vida moderna como a minha e a sua. O maior número de Samis vive na Noruega – de 60 a 100 mil e o segundo maior na Suécia 15 a 25 mil; em seguida vem a Finlândia e a Rússia, com 6 e 2 mil respectivamente.

Os Sami sempre se consideraram uma nação, mas a idéia de território Sami (Sàpmi) surgiu na década de 70 para indicar a região que pode ser culturalmente ligada ao povo Sami.  Eles também possuem representantes na Noruega, Suécia e Finlândia – os Parlamentos Sami de cada país.  Há ainda um órgão cooperativo dos Samis desses três países – o conselho Sami,  que tem o objetivo de defender os interesses do povo Sami internacionalmente. Isso inclui a preservação de sua cultura, tradições e identidade.

Feira de Jokkmokk

Feira de Jokkmokk

Atualmente há algumas feiras Sami no norte da Suécia, a mais famosa é a de Jokkmokk onde dá para comprar artesanato e comidas típicas.

Não existe uma língua Sami, mas sim nove dialetos falados nas regiões onde os Sami vivem, dois dialetos (Kemi Sami e Akkala Sami) foram extintos.  A TV e a Rádio Sueca ( SVT e SR) apresentam programas em Sami, não sei qual dos dialetos.  Na universidade de Oulu, na Finlândia é possível fazer uma graduação em Sàmi.

Aqui em Estocolmo, a data esta sendo comemorada com várias atividades no Skansen, o parque mais famoso de Estocolmo, incluindo concertos de jojk (música folclórica Sami) e jazz Sami, além de uma feira com produtos típicos.

Um jornal aqui publicou algumas regras de etiqueta quando se fala com Samis, uma delas é que não da para chegar perguntando: Aí seu lapão, quantas rena tu tem? Isso é completamente no-no, primeiro porque eles não se chamam lapões, segundo porque muito poucos criam renas hoje em dia. Da mesma forma como nós não gostamos quando estrangeiros nos perguntam se no Brasil existe água encanada, não é mesmo. (Ainda que em alguns lugares não exista, mas isso a gente não gosta de contar). Outra coisa é que não se sai chamando as pessoas de metade-lapão, um quarto-lapão ou quaquer que seja a fração, por motivos bem óbvios e explicados anteriormente. Assim como a gente não gosta de ser chamado de cabeça preta (svartskalle) aqui na Suécia.

O buraco negro que me ronda

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Eu nunca fui de perder muita coisa. Eu lembro que quando éramos pequenas minha irmã, a Laura vivia perdendo dinheiro.  Não lembro de ter perdido nada importante durante o tempo de faculdade, por exemplo. Quando eu morava em Londres – acho que porque eu tinha que sair de casa carregada de tudo o que eu ia precisar durante o dia – as coisas começaram a desaparecer. Um dia perdi meu celular no cinema. Perdi mesmo, não acho que tenha sido roubado porque era uma sessão no meio da tarde e tinha bem pouca gente. Outro dia eu perdi meu porta-cartões com meu cartão do transporte, cartão que dava acesso a várias salas da faculdade e a biblioteca (e que custava 10 libras, acho que uns R$ 40) e meu cartão para entrar no trabalho. Nesse dia eu e o Nicklas estávamos, por coincidência, voltando do cinema me dei conta da perda quando fomos pegar o ônibus. Mas ao chegarmos no andar em que eu morava, 15o, eu consegui derrubar a minha chave no vão entre o elevador e o piso.

Mas nada me compara ao que tem me acontecido nos últimos dias. Primeiro eu foram duas faturas – H&M online e do telefone e internet que desapareceram. A do telefone eu liguei e eles mandaram outra e ainda deram mais uns dias para pagar.  Tudo bem. Eis que chega semana passada. Eu estou na universidade e vou ligar para uma amiga que tinha combinado de encontrar para almoçar. Só que, cadê meu celular? Em princípio eu achei que tinha esquecido em casa, como eu faço com uma frequencia bem maior do que gostaria. Chegando em casa, procuro o celular por todos os lados e não acho. Perdido.

Daí eu comecei academia essa semana, segunda-feira fui nadar e na terça-feira resolvi me exercitar nos aparelhos. Fui procurar meu tênis de academia. Cadê ele? Provavelmente no mesmo lugar que o celular, na dimensão paralela das coisas perdidas por Paola Sartoretto.

Já cansada de perder coisas eu resolvi prestar muita atenção em meus pertences, incluindo o cadeado para o armário da academia. Só que o poder de atração do buraco negro que me rodeia é mais forte do que eu. Hoje quando eu estava pronta para ir dar a minha nadadinha, fui procurar a chave para fechar o cadeado do armário e cadê ela? Sim, foi fazer companhia ao celular e ao tênis. Desci na recepção, comprei outro cadeado e fui nadar. Enquanto eu nadava e pensava na vida e me concentrava em não me afogar, olhei para o meu pulso, onde as chaves ficam presas numa pulserinha de borracha. Obviamente a chave não estava lá.

Mas dessa vez eu não tinha perdido a chave, pelo menos isso. O único problema é que ela estava no fundo da piscina de 3,6 metros. Eu consegui mobilizar umas pessoas para me ajudar e um moço muito prestativo tentou mergulhar e pegar a chave, mas não conseguiu. E ela continua lá, no fundo da piscina, enquanto eu tive que pedir para a moça da recepção cortar o meu cadeado.

Alguém sabe alguma simpatia para não perder coisas ou uma macumba para afastar esse buraco negro que me ronda?

E a louça, quem vai lavar?

A Lola escreveu um post ótimo no blog dela que falava mais ou menos de como aqueles que tem uma posição de poder na sociedade tentam se apoderar do destino daqueles que estão nas bases – subalternos, dominados, chamem como quiserem. No post, que teve mais de 200 comentários ela fala, entre outras coisas, das empregadas domésticas (alguém ja viu empregadO doméstico?) que, na grande maioria das vezes, tem esse tipo de trabalho por completa falta de opção e que são exploradas e tratadas como escravas.

Uma das coisas que as pessoas no Brasil mais se espantam é o fato de que nós não temos empregada. Até mesmo a empregada dos meus pais achou estranho. Quem limpa a casa então? – ela perguntou espantada. Respondi que nós limpamos, lavamos a roupa, cozinhamos (quer dizer, eu cozinho). Na minha família sempre tivemos empregada, assim como nas famílias dos meus colegas de escola, amigos, etc. Ter uma pessoa limpando a casa, fazendo comida, lavando a roupa sempre foi tão comum que eu nunca me perguntei o porquê de elas estarem lá.Ter uma empregada doméstica aqui, por outro lado, custaria quase metade do dinheiro que temos disponível mensalmente. Além disso aqui na Suécia não existe o costume tão comum no Brasil de ter serviçais.

Se eu gostaria de chegar em casa e ver tudo limpinho e cheiroso, as roupas passadas, nenhuma poeira nos móveis? A resposta é sim. Se eu concordo com o sistema que permite que nós no Brasil tenhamos uma pessoa que é obrigada a lavar, limpar, passar, cozinhar e achar que ainda estamos fazendo um favor em empregá-la? A resposta é não. Eu digo obrigada porque eu não acredito que ninguém escolha ser empregada doméstica. O que muita gente não entende é que a mesma organização – ou desorganização – social que lhes permite empregar uma pessoa para fazer as tarefas caseiras faz com que a carreira de traficante seja a mais promissora e lucrativa para um adolescente nascido numa favela, ou que crime seja uma opção de vida.

Aqui na Suécia uma pessoa que trabalha com limpeza – sim elas existem mas a maioria não trabalha com limpeza doméstica – não ganha vinte vezes menos do que um médico por exemplo, mas um pouco menos da metade. Isso faz com que, para a maiora das pessoas pelo menos, ter uma empregada saia caríssimo. Com um salário de auxiliar de limpeza dá para pagar aluguel ou prestação da casa própria, comer e pagar todas as contas, educação é gratuita e a saúde pública é subsidiada. (Quase todos os remédios aqui são subsidiados pelo governo, semana passada eu comprei 13 cartelas de anticoncepcional por pouco mais de 100 reais, no Brasil eu lembro de pagar uns 25 reais por mês. Façam as contas.) Como grande maioria das pessoas tem suas necessidades básicas satisfeitas por um sistema de bem-estar social que funciona relativamente bem, não tem muita gente que precisa roubar para alimentar os filhos. Nós deixamos o carro na frente de casa, sem nenhum tipo de tranca; eu não tenho medo de voltar para casa sozinha à noite, a porta da frente do prédio fica destrancada das 7 da manhã às 9 da noite e nunca aconteceu nada.

Só que agora tem muita gente no Brasil reclamando porque as empregadas não querem trabalhar para viver de auxílio do governo, o que não me parece muito real. Mas suponhamos que seja real, quem no Brasil consegue viver de salário mínimo? As pessoas que tem empregada eu tenho certeza de que não. Se alguém pode escolher entre ganhar um salário mínimo tão mínimo que mal cobre as necessidades básicas ou ganhar um auxílio do governo que dê para um pouco mais, não é lógico a escolha seja a primeira alternativa?

Aqui na Suécia tem muita gente que recebe auxílio do governo (eu inclusive): auxílio família, auxílio moradia, seguro desemprego, licença saúde, bolsa estudantil. Porque aqui o governo cumpre relativamente bem o que eu considero ser uma obrigação importantíssima: impedir a concentração de renda.( Não, eu não acredito no poder de auto-regulação dos mercados, para mim ele existe no mesmo plano que o papai noel, o coelhinho da páscoa e os gnomos e elfos da floresa).  A concentração de renda é uma das principais causas de muitos dos problemas que temos no Brasil, como a violência por exemplo; entretanto  ela  permite que a classe média mantenha seus serviçais.


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Atenção

Eu moro na Suécia mas não sou agência de turismo, intercâmbio nem trabalho no consulado brasileiro, então não me peça informações sobre morar aqui, aprender a língua, estudar, etc, para essas coisas existe o Google e foi googlando que eu achei 99% das informações que precisava para morar aqui. Na página de links tem vários sites com informações úteis sobre morar na Suécia e Inglaterra.

 

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