E a louça, quem vai lavar?

A Lola escreveu um post ótimo no blog dela que falava mais ou menos de como aqueles que tem uma posição de poder na sociedade tentam se apoderar do destino daqueles que estão nas bases – subalternos, dominados, chamem como quiserem. No post, que teve mais de 200 comentários ela fala, entre outras coisas, das empregadas domésticas (alguém ja viu empregadO doméstico?) que, na grande maioria das vezes, tem esse tipo de trabalho por completa falta de opção e que são exploradas e tratadas como escravas.

Uma das coisas que as pessoas no Brasil mais se espantam é o fato de que nós não temos empregada. Até mesmo a empregada dos meus pais achou estranho. Quem limpa a casa então? – ela perguntou espantada. Respondi que nós limpamos, lavamos a roupa, cozinhamos (quer dizer, eu cozinho). Na minha família sempre tivemos empregada, assim como nas famílias dos meus colegas de escola, amigos, etc. Ter uma pessoa limpando a casa, fazendo comida, lavando a roupa sempre foi tão comum que eu nunca me perguntei o porquê de elas estarem lá.Ter uma empregada doméstica aqui, por outro lado, custaria quase metade do dinheiro que temos disponível mensalmente. Além disso aqui na Suécia não existe o costume tão comum no Brasil de ter serviçais.

Se eu gostaria de chegar em casa e ver tudo limpinho e cheiroso, as roupas passadas, nenhuma poeira nos móveis? A resposta é sim. Se eu concordo com o sistema que permite que nós no Brasil tenhamos uma pessoa que é obrigada a lavar, limpar, passar, cozinhar e achar que ainda estamos fazendo um favor em empregá-la? A resposta é não. Eu digo obrigada porque eu não acredito que ninguém escolha ser empregada doméstica. O que muita gente não entende é que a mesma organização – ou desorganização – social que lhes permite empregar uma pessoa para fazer as tarefas caseiras faz com que a carreira de traficante seja a mais promissora e lucrativa para um adolescente nascido numa favela, ou que crime seja uma opção de vida.

Aqui na Suécia uma pessoa que trabalha com limpeza – sim elas existem mas a maioria não trabalha com limpeza doméstica – não ganha vinte vezes menos do que um médico por exemplo, mas um pouco menos da metade. Isso faz com que, para a maiora das pessoas pelo menos, ter uma empregada saia caríssimo. Com um salário de auxiliar de limpeza dá para pagar aluguel ou prestação da casa própria, comer e pagar todas as contas, educação é gratuita e a saúde pública é subsidiada. (Quase todos os remédios aqui são subsidiados pelo governo, semana passada eu comprei 13 cartelas de anticoncepcional por pouco mais de 100 reais, no Brasil eu lembro de pagar uns 25 reais por mês. Façam as contas.) Como grande maioria das pessoas tem suas necessidades básicas satisfeitas por um sistema de bem-estar social que funciona relativamente bem, não tem muita gente que precisa roubar para alimentar os filhos. Nós deixamos o carro na frente de casa, sem nenhum tipo de tranca; eu não tenho medo de voltar para casa sozinha à noite, a porta da frente do prédio fica destrancada das 7 da manhã às 9 da noite e nunca aconteceu nada.

Só que agora tem muita gente no Brasil reclamando porque as empregadas não querem trabalhar para viver de auxílio do governo, o que não me parece muito real. Mas suponhamos que seja real, quem no Brasil consegue viver de salário mínimo? As pessoas que tem empregada eu tenho certeza de que não. Se alguém pode escolher entre ganhar um salário mínimo tão mínimo que mal cobre as necessidades básicas ou ganhar um auxílio do governo que dê para um pouco mais, não é lógico a escolha seja a primeira alternativa?

Aqui na Suécia tem muita gente que recebe auxílio do governo (eu inclusive): auxílio família, auxílio moradia, seguro desemprego, licença saúde, bolsa estudantil. Porque aqui o governo cumpre relativamente bem o que eu considero ser uma obrigação importantíssima: impedir a concentração de renda.( Não, eu não acredito no poder de auto-regulação dos mercados, para mim ele existe no mesmo plano que o papai noel, o coelhinho da páscoa e os gnomos e elfos da floresa).  A concentração de renda é uma das principais causas de muitos dos problemas que temos no Brasil, como a violência por exemplo; entretanto  ela  permite que a classe média mantenha seus serviçais.

10 Respostas para “E a louça, quem vai lavar?”


  1. 1 Igor Ranieri 4 de fevereiro de 2009 às 04:44

    Muito bom, o texto, realmente. Isso é fato, o mesmo sistema que permite os serviçais e empregadas domésticas é o que fomenta a violencia e o caos social do brasil. Quantos países de primeiro mundo fazem uso de empregadas domésticas? Por falar em violencia, achei que Estocolmo tivesse um nivel de violencia mensurável, coisa de capital, e tal, tem?

  2. 2 paolasartoretto 4 de fevereiro de 2009 às 09:44

    Igor aqui existe um órgão chamado Brå (Brottsförebyggande rådet) que significa Conselho Nacional de Prevenção ao crime. É esse órgão que mede os níveis de criminalidade em toda a Suécia. Eles acabaram de publicar as estatísticas para 2008. Ano passado o número total de denúncias a polícia foi 1 371 725, das quais a maioria foram roubos, mais de 90 mil para todo o país, esse número representa uma diminuição de 3% em relação ao ano passado. O número de crimes contra a vida foi pouco mais de 88 mil.

  3. 3 Ju Moreira 4 de fevereiro de 2009 às 10:08

    Pa, tu esqueceu de comentar que desde o ano passado o governo está subsidiando serviços domésticos, segundo eles, no intuito de diminuir o trabalho no mercado negro. O valor pago, pode ser descontado no imposto de renda. E não é coisa pouca não.

    Numa pesquisa, muitos suecos responderam que gostariam de ter uma pessoa que limpasse ou fizesse serviços domésticos. Claro, que comparado com o Brasil, não chega a ser muito.

    No mais, como sempre, o texto está ótimo.

    xero

  4. 4 paolasartoretto 4 de fevereiro de 2009 às 12:30

    Bem lembrado Ju, mas essa medida foi bastante criticada pela oposição pois eles acham que o governo não esta distribuindo a renda e sim beneficiando os mais abastados, coisa que o partido do Testão (primeiro-ministro que tem uma testa grande) sabe fazer muito bem. Além disso o conceito de serviços domésticos que aqui é bem diferente do que no Brasil, pelo menos eu acho. Aqui serviços domesticos significa pagar uma pessoa por algumas horas, uma ou duas vezes por semana, não aquela coisa de ter um empregado de segunda a sexta, as vezes até no fim-de-semana, limpando, lavando, passando e fazendo comida. Todos os suecos com quem eu conversei até hoje acharam isso totalmente alien.

  5. 5 Nessa 4 de fevereiro de 2009 às 20:44

    Eu nunca tive empregada, nem minha família. Mas achava que, tudo bem, se um dia tivéssemos dinheiro, gostaria que sim. Teve até uma época em minha mãe chamava faxineiras um dia (ou até dois) por semana. Bem… só notei o que vc fala no post (como as empregadas são tratadas, de modo geral) MESMO quando vim trabalhar como bolsista no apto. de alguém.

  6. 6 Ju Moreira 5 de fevereiro de 2009 às 12:49

    Pois é, Pa. O conceito de serviço doméstico é completamente outro. Mas tu viu que a contratação dessa mao de obra aumentou em quase 6% ano passado?
    xero

  7. 7 Lola 8 de fevereiro de 2009 às 01:25

    Puxa, Paola, que ótimo que vc escreveu aqui a sua observação (pena que eu não tenha visto antes – estou sem tempo nenhum de frequentar blogs). O pessoal que critica os auxílios do governo e chama o governo de “Robin Hood” (teve um cara que escreveu isso nos comentários do meu post – que o governo roubava dos ricos em forma de impostos pra dar pros pobres) e acha que ele deveria sumir da face da Terra pras empresas privadas, sim, poderem fazer justiça social não consegue ver que é a terrível distribuição de renda dos países pobres que gera a pobreza e a violência. Pra esse pessoal, na Suécia não existe pobreza nem violência porque… porque… ahn, porque aí é todo mundo loiro, né? Só pode ser isso. Gente morena não gosta de trabalhar. Ou porque aí é muito frio, e o calor transforma todo mundo em baiano. Tem a ética protestante também, né? Se bem que sueco não é lá muito religioso faz tempo. Anyway, ninguém fala da diferença crucial da Suécia, que é que seu governo, faz décadas, tem a obrigação de distribuir renda. De cobrar impostos mais altos dos ricos pra financiar vida digna aos mais pobres. Oh meu Deus, isso é coisa de comunista! Vou escrever um postzinho sobre isso.

  8. 8 paolasartoretto 8 de fevereiro de 2009 às 10:57

    Pois é Lola, no Brasil tá cheio de gente assim. Às vezes eu me pergunto se esse tipo de gente pensa que aqui não tem mendigo nas ruas porque eles são queimados em câmara de gás. Porque, sinceramente, da última vez que eu fui para o Brasil o que eu senti foi que se desse, muita gente faria um holocausto dos pobres. Lá em Porto Alegre eram coisas do tipo fechar o Parque da Redenção à noite porque os mendigos vão para lá, impedir os carroceiros no centro de Porto Alegre. As pessoas acham que é só fazer esse tipo de coisa que a pobreza desaparece. Desaparece da frente dos olhos delas, que é o que elas querem.

    Dizem que a Suécia é um dos países menos religiosos do mundo, mas eu acho que historicamente a ética protestante muito contribuiu para o sistema que existe hoje.

    Mas tendo escrito o que escrevi no post, preciso dizer que a Suécia hoje é governada por uma coligação de centro-direita, sendo que o primeiro ministro é de um partido que historicamente defendeu os interesses das classes mais abastadas. É óbvio que eles nem cogitam fazer mudanças drásticas no sistema de bem-estar social ou nas leis sindicais por exemplo, mas eles andaram cortando gastos aqui e ali para “maximizar a eficiência” sabe? O equivalente sueco ao nosso INSS está com sérios problemas porque o governo fez uma reestruturação, fechou escritórios e cortou verbas. Eles fecharam ano passado com um déficit de 900 milhões de coroas (cerca de 280 milhões de reais), mas o governo quer que eles gastem ainda menos esse ano.

  9. 9 fatima pombo 16 de fevereiro de 2009 às 14:58

    seu blog eh muito BOM!
    foi no da lola que li comentario sobre o seu….

  10. 10 Paulo 23 de agosto de 2010 às 23:08

    Minha cara concordo plenamente com a sua posição, e trabalhar para que, se a sua vida nem a de seus vizinhos mudam, continuam a mesma M. de sempre…. O trbalho é importantissimo para matermos uma sociedade equilçibrada, mas a escravidão não, qual a diferença entre ganhar um salário minimo e viver sendo escravo, a unica é que não se apanha…. então como se muda isso, e não tendo medo de assumir a suas proprias responsabilidades, a nossa sociedade A e B sempreviveram com pessoas fazendo o seu trabalho e elas simplesmente curtindo o Ocio de um pais que não se permite isso, não se pensa num país para os seus ficlhos, a ficha só cai quando o filho ou a propria pessoa é vitíma da violência, ai vemos que país os nossos pa´si deixaram para nos, mas não se faz nada para mudar apenas vamos a lei, a nossa justiça é injusta, eu acho que não mas a nossa sociedade é, quando vc descobre que não é respeitado e que as suas idéias não valem nada, sobra o que uma família destruida, e um futuro certo de miséria, frustação ou cadeia, o que se tem a perder nada porque a sua vida não vale nada porque perante a sociedade, não te vê nem como igual ou desigual apenas como nada. Esse é o maior problema do nosso país a violência mas este é apenas o reflexo da nossa falta de respeito, eu fico muito triste com isso porque o nosso país é de pessoas ótimas de gente que quer trabalhar, mas quando vc fala para que est´pa proximo que quer ter algo tão bom quanto o do outro o outro se sente ameaçãdo porque é fraco e não supoirtaria ter o mesmo carro que o seu vizinho….. o querer que o outro tenha as mesmas condições que a sua, é necessário para que a sociedade equipare e cresça, mas o contrario é destrutivo, gera odio e consequente violência, isso só muda quando quem sabe tenta mudar os que não sabem, e quem sabe está por cima, mas quem está por cima não olha para baixo, e quem está em baixo está com raiva, mas a raiva real é de quem está em cima porque tem recalque e medo de perder…. Estive na suécia em 1997, e pude ver exatamente isso, como vc compra um tiquete para 2 horas (na epoca não sei hoje), vc poderia andar o dia todo com o mesmo ticket porque neste periodo niguem me cobrou (apenas na alemanha), mas qual a motivação deste crime se vc não precisa (improtante necessidade), sobra apenas uma a falta de caráter (isso tem em todo lugar), sobra a responsabilidade, algo me foi confiado preciso corresponder, eu tenho está idéia desde 1997, a confiançao vem de cima para baixo, e para que isso aconteça tem que respeitar, sou negro e sei o que falo sempre que estou no aeroporto ou em alguma loja mais cara, me olham com desconfiança, vc tem o dever de cuidar mas tem a responsabilidade de respeitar, é preciso cuidar sem invadir a individualidade, não pode intimidar o outro simplismente pelo tom de pele, é preciso ter um motivo se ele não existe o respeito vem primeiro, senão novamente gera a reiava e a desconfiaça do outro lado. esta ansiedade deve ser contida senão a confiaçã quebra e ai demora para reatar, é isso que falta em nosso país ninguém confia em ninguém.


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