Arquivo para Abril, 2009

Londres, os terroristas e eu

Então que eu fui para Londres e já voltei. Cheguei lá no domingo de páscoa com muita vontade de ver vários amigos e de ir a vários lugares que eu gostava. Na verdade eu estava com uma pontinha de medo de me arrepender de ter mudado para a Suécia e querer voltar a morar em Londres. Essa foi a primeira vez que eu voltei desde que sai de lá em dezembro de 2006. Só posso dizer que não me arrependo de nada, eu não conseguiria mais morara em Londres nem se fosse obrigada. Depois do segundo dia lá eu queria voltar para Estocolmo.

É óbvio que eu gostaria de poder ver meus amigos que estão lá com mais frequência e de comprar na Topshop por preços 20% menores. Mas isso não compensa a paranóia que é viver em Londres.

Para começar, cheguei lá a 1 da tarde, almocei com meu amigo Dani que foi me esperar em Heathrow e fiquei esperando a minha irmã que ia chegar as 3:30. Ela chegou e fomos pegar o metrô. Andamos umas cinco estações e o motorista avisou que “havia uma pessoa embaixo do trem” e que por isso ele não pararia em várias estações, o que atrasou nossa viagem e nos fez trocar de linha duas vezes em vez de uma. Mas o que mais me impressionou foi a maneira como eles disseram “there is a person under the train” assim como se a pessoa estivesse lá fazendo alguma coisa, parafusando um parafuso em vez de morta e dividida em vários pedacinhos.

Fora isso tem a paranóia do terrorismo, cartazes por todo lado dizendo para as pessoas reportarem qualquer coisa suspeita, policiais por tudo.  Eu não consigo evitar de me sentir suspeita de achar que sempre tem alguém achando que eu to fazendo algo errado.  Não sei se quem mora lá nota isso, acho que muita gente está tão acostumada que nem percebe mais. Eu fiquei meio estressada. E isso é uma pena porque Londres é uma cidade maravilhosa, cheia de coisas, lugares e pessoas interessantes. Tem sempre alguma coisa acontecendo por lá, cada área da cidade tem uma personalidede diferente, a maioria dos museus são gratuitos. Mas o governo consegue estragar tudo criando esse climão alarmista e paranóico.

(essas são os poster da nova campanha do governo contra o terrorismo, eu acho que se isso der certo Londres vai virar uma ex-Yugoslávia no tempo da guerra, vizinhos contra vizinhos, famílias matando entre si, etc. Só que eu acredito na sensatez das pessoas, pelo menos as pessoas com quem eu conversei acharam essa campanha bem ridícula)

Os cinco dias que eu passei em Londres me fizeram valorizar ainda mais a minha vida em Estocolmo: nosso apartamento espaçoso e com preço bem razoável, as três linhas de metrô que sempre funcionam, inclusive durante a madrugada nos fins-de-semana (eu me irritava no inverno, quanto tinha um aviso dizendo algo assim “pode ser que sua viagem demore mais hoje porque os trens estão andando mais devagar pois a pista está escorregadia por causa da neve”, agora juro que nunca mais me irritarei), o curso de sueco e mestrado gratuitos e o fato de não estar sendo observada 24 horas por dia e não temer um atentado terrorista a qualquer momento.

Mas bem que o a Inglaterra e a Dinamarca poderiam trocar de lugar, assim daria para eu ver os meus amigos com mais frequência.

P.S.: Acho que Estocolmo mudou um pouco a minha personalidade, a June comentou quando nos encontramos que eu estava menos rabugenta e reclamona.

E aqui um pessoal que se preocupa tanto com terroristas que resolveu fazer graça.

(Esses produtos químicos não serão usados para preparar uma bomba porque esse é um cenário fictício. A realidade é mais complicada. Não confie em outros… como o governo… para lhe dizer como pensar. Se você suspeita deles, informe-se)

Vou ali e já volto

Amanhã eu vou para Londres, encontrar a minha irmã e ensiná-la a atravessar a rua do lado errado. Também vou encontrar alguns amigos muito queridos que deixei por lá e se possível tomar uma pint no Prospect of Withby em Wapping e comer um hamburger no Cafe 1001 na Brick Lane.

Can’t wait

A censura que nós não conhecemos

Uma das minhas colegas no mestrado está fazendo uma pesquisa super interessante sobre um fenômeno chamado Blue Jacking (de highjacking ou hijacking – que significa tomar controle) que vem acontecendo no Irã. O que acontece é que o Irã é governado por um ditador muçulmano e a imprensa do país sofre uma censura bem pesada. Não dá para criticar a religião nem o governo, as mulheres são bastante oprimidas e, obviamente, não dá para sair googlando qualquer coisa porque as buscas na internet são controladas.  Mas é óbvio que como jeitinho não existe apenasmente no Brasil, os iranianos também encontram uma saída para a censura: mensagens por bluetooth. Como essas mensagens não podem ser rastreadas eles aproveitam para mandar de tudo para familiares e amigos, desde cenas de filme (uma das minhas colegas iranianas falou que demonstrações de afeto são proibidas na TV) até piadas e notícias.  Segundo a minha colega é normal receber cerca de 100 mensagens por dia. Então ela está explorando essa mundo meio que underground e como as pessoas – principalmente jovens – lidam com esse fenômeno.

Isso me faz pensar nas coisas que nós, no nosso mundo ocidental, temos e não damos o mínimo valor. Eu posso escrever criticando o governo brasileiro no meu blog, muita gente pode ler e ninguém vai para a cadeia por isso. Eu posso seguir a religião que eu quiser, ou não seguir nenhuma. Se eu quiser googlar homem fazendo sexo com uma camela (não que eu me interesse em fazê-lo) eu posso e não duvido de que venham resultados. Mas eu não vou tentar. Foi apenas um exemplo, uma hipótese.

Para mim a idéia de não poder escolher em que acreditar, não poder falar o que eu quero, não poder criticar aquilo que acho que está errado, não ter acesso às informações que eu procuro é completamente alien. Eu não sei o que faria se estivesse numa situação dessas.

Mas o melhor (ou pior) vem agora, minha colega se inscreveu numa conferência na Polônia sobre Oriende Médio, mídia e democracia, ou algo do tipo. O trabalho dela foi aceito, ela mandou o resumo e está tudo pronto para ela ir. Mas eis que ela resolve olhar a lista de participantes iranianos e vê que o nome de altos-oficiais do governo. Pânico. Hoje ela estava sem saber o que fazer, porque ela quer poder voltar ao país sem correr perigo de ser sequestrada presa no aeroporto e desaparecer.  Ela disse que o governo está de olho em estudantes iranianos em outros países, para saber se o que eles andam pesquisando e escrevendo representa alguma ameaça à “soberania nacional”. Outra coisa que para mim é completamente natural, poder apresentar minha pesquisa – que é sobre comunicação política, in case you wonder – em conferências sem me preocupar se vai ter alguém lá para me acusar de estar traindo a nação.

Por outro lado eu não cesso de me surpreender com a habilidade que o ser humano tem de driblar situações adversas e encontrar saídas. Não dá para escrever no jornal, não dá para mandar email,  a TV não mostra o que a gente quer ver? Bluetooth neles!

Atualização: Falei com a minha colega essa semana, ela disse que conversou com os organizadores do evento que disseram para ela que o pessoal do Irã eram apenas pesquisadores, que não tinha ninguém do governo mas que não tinha nenhum problema se ela quisesse mudar o tema da aprensantação. Então ela disse que mudou para uma coisa mais neutra, acho que ela vai dar uma receita de bolo de cenoura ou algo do tipo.


Porto Alegre Click for Porto Alegre, Brazil Forecast Estocolmo Click for Stockholm, Sweden Forecast

Atenção

Eu moro na Suécia mas não sou agência de turismo, intercâmbio nem trabalho no consulado brasileiro, então não me peça informações sobre morar aqui, aprender a língua, estudar, etc, para essas coisas existe o Google e foi googlando que eu achei 99% das informações que precisava para morar aqui. Na página de links tem vários sites com informações úteis sobre morar na Suécia e Inglaterra.

 

Abril 2009
S T Q Q S S D
« Mar   Mai »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  

Blog Stats

  • 57,382 hits