Números, números, números…

(Senta que o post é longo)

Semana passada tive uma palestra muito interessante num dos meus cursos de verão com uma moça da Agência Nacional de Estatísticas (SCB – Statistiska Centralbyrån, mais ou menos um IBGE sueco) sobre os imigrantes e o mercado de trabalho na Suécia. Eu acho que já devo ter dito em algum outro post que os suecos são obcecados por e experts em estatísticas. A Agência Nacional de Estatístiscas sueca é reconhecida internacionalmente e dá consultoria para vários outros países em pesquisa estatística, demografia, etc. Para quem tem um interesse mais “numérico” pela Suécia, o site da SCB tá cheio de informações e a maioria dos relatórios pode ser encontrada em inglês também. Dá até para ver quantas pessoas tem o mesmo nome, no meu caso tem 765 Paolas na Suécia.

Bom mas voltando à palestra, para começar algumas informações gerais sobre imigração. Por exemplo, até 1930 havia mais emigração do que imigração, ou seja mais gente saía do que entrava na Suécia. Na década de 30 muitos imigrantes, principalmente do sul da Europa, vieram para a Suécia como trabalhadores convidados. Mas mesmo assim o número de imigrantes nunca chegou a 20 mil por ano de 1930 a 1940. Depois disso há dois picos de imigração, nas décadas de 70 e 90, quando chegaram até 80 mil pessoas num só ano.  Por conta do golpe militar no Chile, e revolução no Iran muitos chilenos e iranianos vieram para a Suécia na década de 70. Da mesma forma, na década de 90 os conflitos na ex-Yugoslávia  e a guerra Iran-Iraque obrigaram muita gente a deixar esses países e a Suécia foi um dos destinos.  Ano passado mais de 100 mil imigrantes chegaram na Suécia o que representa o maior número até o momento, entre as causas para o aumento na imigração estão a guerra no Iraque e a entrada de novos países na União Européia em 2005 e 2007.

Atualmente 14% da população da Suécia, cerca de 1,3 milhões de pessoas, não é nascida aqui e a estimativa é de que em 2058 18% da população da Suécia não terá nascido no país, ou seja quase 1 em cada 5 habitantes. Desses 55% são europeus e 45% não europeus, mas estima-se que em 2060 essa relação vá se inverter e 55% dos habitantes que não são nascidos na Suécia serão não-europeus. Comparando com o Brasil, seria como se mais ou menos 33 milhões de pessoas fossem nascidas fora do país, mais  do que três vezes a população do Rio Grande do Sul. Segundo os prognósticos da SCB, se não houvesse imigração a população da Suécia diminuíria ao longo do tempo.

Um outro dado importante é que enquanto o número de pessoas na faixa dos 0-19 e 20-64 anos vai crescer pouco nos próximos 50 anos- de 2,1 para 2,3 milhões e de 5,4 para 5,7 milhões respectivamente – o número de pessoas com mais de 65 anos aumentar significativamente, de 1,6 para 2,7 milhões.  Esse aumento no número de pessoas com mais de 65 anos vai ter efeitos no sistema de saúde e previdência social, porque à medida que envelhecemos precisamos de mais cuidados médicos e também quanto mais gente aposentada, mais gente precisa estar ativa no mercado de trabalho para pagar essas aposentadorias.  Uma previsão bem pessimista é de que geração que está agora na faixa dos 30 anos vá precisar trabalhar até os 70 antes de poder se aposentar.

Definições

O objetivo da política de integração do governo sueco é que todos tenham os mesmos direitos, deveres e oportunidades independente de seu background cultural ou étnico. O governo anterior (social democrata) criou em 1998 o Departamento de Integração (Integrationsverket) que foi fechado pelo governo atual (coligação de partidos centro-direita) em 2007. Com o fechamento desse órgão muitas de suas funções foram transferidas para outros órgãos do governo inclusive a SCB que hoje é responsável por elaborar estatísticas sobre a integração de imigrantes na sociedade em geral e no mercado de trabalho em particular. Um dos problemas que a SCB teve no início foi o mar de definições usadas para caracterizar estrangeiros e imgrantes: imigrante, imigrado, nascido no esterior, background imigrante, estrangeiro, background estrangeiro, entre outras. O primeiro passo para poder navegar nesse mar foi criar definições claras de quem é quem e para isso foram criadas divisões entre nascidos na Suécia e fora, cidadania sueca ou estrangeira e backround sueco ou estrangeiro. Os nascidos no exterior são divididos pelo tempo que estão na Suécia: 0-4 anos e 5 anos ou mais. Os nascidos na Suécia são divididos entre os que tem ambos os pais nascidos no exterior, pai OU mãe nascido no exterior e ambos os pais nascidos na Suécia. De acordo com a cidadania a população é dividida entre cidadãos suecos – nascidos na Suécia ou nascidos no exterior – e cidadãos estrangeiros que também podem ter nascido na Suécia ou no exterior. De acordo com dados de 2008, três quartos da população sueca é composta por pessoas nascidas na Suécia de pais suecos e um quarto da população se divide entre as outras categorias, nascidos no exterior, na Suécia de pais estrangeir@s e nascidos na Suécia de pai OU mãe estrangeir@. Além dessas divisões a população também é dividida por sexo e por região de procedência (Eu sei, parece que as pessoas são carne, ovo ou brócolis, mas não consegui pensar em outra expressão).

Imigração e integração

Uma das coisas que nós ficamos sabendo na palestra é que a idade média em que as pessoas costumam emigrar é em torno dos 30 anos com outro pico no número de criancas menores de 5 anos, porque muitas vezes os imigrantes trazem filhos pequenos. A grande maioria, quase 80%, dos imigrantes vindos de países nórdicos (Finlândia, Noruega, Dinamarca e Islândia) vive na Suécia há mais de 20 anos. Já os Africanos tem o maior número de novos imigrantes (0-4 anos na Suécia) entre os grupos pesquisados. A maioria (quase 80%) dos imigrantes da América do Sul está aqui na Suécia há mais de 10 anos. Das pessoas que fixaram residência na Suécia de 2000 a 2007 a maioria – quase 150 mil – vem da Ásia. Entre as principais razões desse grupo para mudar de país estão pedido de asilo político e laços familiares. Nós sul-americanos estamos entre o menor grupo de imigrantes no mesmo intervalo de tempo, junto com a América do Norte e Oceania,  com menos de 25 mil imigrantes para cada grupo.

Quando o assunto é emprego, a SCB considera economicamente ativas todas as pessoas que exerceram algum tipo de trabalho por pelo menos uma hora por semana e também pessoas que não estão trabalhando mas que tem um emprego (lincença saúde, maternidade, paternidade). Entre os homens nascidos na Suécia, cerca de 85% são economicamente ativos em comparação com cerca de 80% das mulheres. Os números são um pouco mais baixos entre @s nascid@s fora da Suécia: cerca de 70% dos homens e 60% das mulheres são economicamenteo ativ@s. Eu arriscaria a dizer que os nascidos fora da Suécia são maioria entre as pessoas exercendo formas mais precárias de emprego como contratos temporários e por hora. A maioria  dos desempregados na Suécia tem entre 20 e 29 anos e são mulheres nascidas fora da Suécia. Mulheres entre 20 e 29 anos também são maioria nos empregos temporários.

Analisando as pessoas ativas no mercado de trabalho de acordo com a região de nascimento o maior número de empregados é entre os imigrantes vindos dos países nórdicos e o menor entre os imigrantes africanos, mas também vale lembrar que entre os imigrantes africanos muitos são novos imigrantes (estão há menos de 4 nos na Suécia) o que pode explicar o alto índice de desemprego. Quando nível de educação e emprego são comparados, entre os nascidos na Suécia quanto mais alto o nível de edução, maior a quantidade de pessoas empregadas; o que não acontece entre alguns grupos de imigrantes, por exemplo sul americanos, entre os quais o número de empregados entre os que tem educação de nível médio é mais alto do que entre aqueles que possuem nível superior independente do sexo.

As mulheres africanas são absoluta maioria nos setores de serviço, assistência e vendas: quase 60 mil contra cerca de 30 mil suecas trabalhando nesses setores. Já em profissiões que demandam “competências teóricas específicas” as imigrantes da América do Norte e Oceania são maioria, 30 mil contra 20 mil suecas. Entre os homens, europeus de países que não fazem parte da UE são maioria em trabalhos de operação de máquinas, mais de 30 mil trabalham no setor, contra 15 mil suecos. Em empregos que necessitam de “competências teóricas específicas homens nascidos em países da UE são maioria, mais de 20 mil contra cerca de 15 suecos. Nessas tabelas apenas os grupos mais representativos foram computados, nascidos na Suécia, Àfricanas e Norte Americanas-Oceania para mulheres e nascidos na suécia, nascidos nos 27 países da UE e nascidos no resto da Europa para homens. Entre aqueles com nível universitários, 74% das mulheres e 66%  dos homens nascidos na Suécia trabalha em profissiões que exigen nível universitário, seguidos pelos imigrantes dos países nórdicos, 73% e 66% respectivamente. @s sul-american@s ficam na terceira pior colocação, na frente de asiátic@s e a e african@s, independente do sexo. 52% das mulheres e 46% dos homens sul-american@s com diploma universitário trabalham em empregos que exijam esse tipo de qualificação. Asiátic@s lideram entre empresári@s entre homens e mulheres, independente do sexo.  A maioria dos empresários independente da nacionalidade oferece serviços privados (aí entram contabilistas, tradutores, pintores, etc ).,

Independente de sexo ou nacionalidade, o nível de desemprego é maior entre os nascidos no exterior do que entre nascidos na Suécia, entretanto segundo a análise da SCB, outros fatores precisam ser levados em consideração como tempo na Suécia, idade e motivo para morar na Suécia.  Por exemplo 20% ou 1 em cada 5 imigrantes está aqui na Suécia há menos de 4 anos e para esse grupo a língua pode fazer uma grande diferença na hora de conseguir emprego. Além disso, nos últimos anos muitos dos imigrantes são refugiados, que precisam ter seu pedido de asilo deferido para poder trabalhar.

10 Respostas para “Números, números, números…”


  1. 1 Somnia 8 08UTC Julho 08UTC 2009 às 00:47

    Uau Paola! voce ta de volta mesmo! rs…

    adorei o post so de ler o inicio porque sempre quero essas estatisticas pra balancar o que vejo e penso e nao consigo!

    vou voltar amanha pra ler com calma tudo!

    beijocas!!!

  2. 2 Ju Moreira 8 08UTC Julho 08UTC 2009 às 21:04

    Muito legal o post, tipa! ;)

  3. 3 Liane 9 09UTC Julho 09UTC 2009 às 20:05

    Olá! : ))

    fantástica a tua matéria…é eu não duvido nenhum um pouco ,que o povo sueco ama uma estatística. Eu vejo em alguns artigos e trabalhos cientificos publicados e tremo em saber que eles”amam”…breve estarei indo para Upssala!!Interessante em esse levantamento deles e comparar com outros.Eu gostei muito e tu escreves muito bem, Paola!Desculpe-me tenho uma pequenina dúvida e sobre as pessoas que não trabalham elas ficam sustentadas pelo governo por um curto ou longo tempo como em alguns países da UE? abraços

  4. 4 Mariel Stupp 17 17UTC Julho 17UTC 2009 às 00:45

    Suecos sao mesmo ligados em estatìsticas e todas as formas de informaçao, nao é mesmo?
    Sem dùvida a grande barreira é a lìngua, sendo que muitos imigrantes se “refugiam” em comunidades de seu paìs de origem e por consequencia nao sao escolhidos para trabalhos melhor remunerados ou menos desgastantes fisicamente.
    Beijos e bom verao(antes que ele escorra pelas nossas maos…)!

  5. 5 paolasartoretto 21 21UTC Julho 21UTC 2009 às 17:28

    Liane, o tipo de auxílio que cada pessoa tem depende de várias condições – tempo de trabalho antes de ficar desempregado, ser ou não membro do sindicato, etc. Respondendo de maneira bem geral, pode-se receber auxílio desemprego por até 2 anos num valor de 80% do último salário.

  6. 6 paolasartoretto 21 21UTC Julho 21UTC 2009 às 17:29

    Oi Sonia, vai lá no site da SCB, tem tudo em inglês!

  7. 7 Somnia 12 12UTC Agosto 12UTC 2009 às 09:42

    Paola, ontem vi uma materia e lembrei de voce… o cara escreveu sobre o que ele considera ser a principal caracteristica sueca que seria meio que uma liberacao sexual… nao li inteiro ainda, porque e grande, mas to lendo…

    bom, no final, um cara comentou que ele discordava do texto porque os suecos nao eram liberados, mas sim super manipulados. Ele disse que em menos de 20 anos a suecia sera liderada pelos muculmanos. O comentario era tao maluco e estava bem escrito o que me pareceu alguém com certo nivel educacional que me deixou meio de parafuso…

    lembrei desse artigo seu sobre a imigracao… O que muita gente repete sempre e que no ultimo ano o nome que mais foi registrado nos cartorios suecos foi Mohamed. Isso parece causar um medo. E estranho mesmo como a imigracao do oriente medio assusta mais que as outras…

    nao sei se e estranho, mas e algo que tambem assusta. Assusta pensar que o preconceito e assim mesmo, com cara e nome…

  8. 8 Somnia 12 12UTC Agosto 12UTC 2009 às 09:44

    ah..o link caso voce quera ver o artigo… eu to lendo e ainda nao consigo ter uma ideia, nao consegui concordar ainda com a tese do cara, embora eu ate aceite alguns argumentos… vou tentar terminar e quem sabe vira um post.

    beijos

  9. 9 paolasartoretto 13 13UTC Agosto 13UTC 2009 às 08:02

    Soniaaaa, o link que tu me passou nao funciona, e agora eu quero ler esse artigo! Trate de conseguir o link certo. Dja!

  10. 10 paolasartoretto 13 13UTC Agosto 13UTC 2009 às 09:51

    Sonia eu acho que, comparando com o e Brasil, as pessoas encaram o corpo e a sexualidade como coisas naturais não como tabu. Um exemplo disso é o chuveiro modelo câmara de gás nas academias. Agora essa história de que a Suécia, ou a Europa, será dominada pelos muculmanos em 20, 30, 10 anos eu não engulo mesmo. Primeiro, de onde vem esse limite de tempo? As pessoas calculam a idade dos filhos de imigrantes de paises islamicos para chegar nesse numero? Se é isso então acho que o calculo ta meio furado, porque um grande problema, se é que pode ser chamado assim, que os imigrantes enfrentam é que seus filhos, a primeira geracão nascida na Europa, quer viver uma vida ocidental e não ta muito ligada em religiao. Entao mesmo que eles se chamem mohammed e fatimah os valores são ocidentais.

    Essa coisa dos nomes é outra que eu só acredito vedo. Esses dias eu tava escutando rádio, era um quiz show, a pergunta foi qual o nome mais registrado na Suécia no ano passado e a resposta foi Maja. Eu lembro porque foi o meu chute.


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Atenção

Eu moro na Suécia mas não sou agência de turismo, intercâmbio nem trabalho no consulado brasileiro, então não me peça informações sobre morar aqui, aprender a língua, estudar, etc, para essas coisas existe o Google e foi googlando que eu achei 99% das informações que precisava para morar aqui. Na página de links tem vários sites com informações úteis sobre morar na Suécia e Inglaterra.

 

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