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Reforma, sill e mídia

A conferência da IAMCR terminou e agora eu tenho três semanas de semi-ócio até que as minhas aulas iniciarem na semana 35, mais especificamente dia 26 de agosto para o resto do mundo não familiar com o sistema sueco de contagem do tempo. Digo semi-ócio porque estamos arrumando a cozinha que está ficando muito tri, quando terminarmos coloco umas fotos aqui. E quando digo ESTAMOS ARRUMANDO isso significa no sentido físico não no sentido gerencial como se faz no Brasil. Eu viajei duas semanas antes para o Brasil e durante esse tempo o Nicklas removeu três (!) camadas de papel-de-parede e uma de tinta, quando voltamos ele pintou e agora a cozinha está quase pronta, só faltam duas molduras para as fotos de Porto Alegre que compramos no Brique da Rendenção e ajeitar um pouco a lâmpada. Eu gostei tanto que estou até pensando em me lançar na carreira de decoradora.

Mas mudando de assunto, a conferência estava muito boa (o ponto que falta para estar ótima é o menu, que descreverei mais adiante) enquanto não estava trabalhando, resolvendo problemas com apresentações que não abriam, pen drives que não eram aceitas pelos computadores e ajudando gente a achar as salas; pude assistir apresentações de trabalhos muito interessantes. Isso sem falar nos palestrantes principais que apresentaram ótimas visões do tema (Media and Global Divides, algo como Mídia e Diferenças Globais). Tudo bem que, num evento que tinha como um dos objetivos discutir o papel da mídia no estreitamento das diferenças entre leste-oeste, norte-sul, pobres-ricos, etc… o número de participantes de fora do eixo Europa-EUA tava bem baixo.

Antes de falar mais sobre as palestras, preciso fazer abrir parênteses para escrever sobre o local do evento: a Aula-Magna, um dos prédios mais bonitos da Universidade de Estocolmo. O prédio é obra do arquiteto Sueco-Britânico Ralph Erskine e foi inaugurado em 1997. Erskine se inspirou nos teatros gregos para criar o auditório que tem capacidade para 1200 pessoas e foi construído de maneira que de praticamente qualquer lugar na platéia é possível ver todo o auditório. A idéia é proporcionar uma sensação de proximidade com entre os espectadores. Além disso, graças  à maneira como o auditório foi construído, dizem que é possivel ser escutado em todo o auditório sem microfone. Erskine também procurou usar os recursos naturais da melhor forma possível: o auditório, por exemplo, foi construído no declive do morro, as rochas servem de parede na entrada e a luz natural foi aproveitada ao máximo.

Voltando à conferência, ela foi aberta com chave de ouro (sim, eu sei que o ditado é fechar com chave de ouro, mas tudo que se fecha um dia esteve aberto e para abrir também se usa chave) por Vandana Shiva, física e ativista ambiental indiana, que falou sobre crise de alimentos, recursos naturais, transgênicos, biodíesel e onde a mídia e os pesquisadores em mídia e comunicação entram no meio disso tudo.

Na segunda-feira, como eu estava trabalhando na recepção (a conferência se iniciou domingo, mas a maioria dos participantes chegou segunda-feira) peguei apenas partes da palestra de abertura com Anabelle Sreberny, Jan Naderveen Pieterse e Robin Mansell sobre Global Divides. Nas partes que eu ouvi, eles falavam sobre as várias diferenças globais: gastos em armamentos, mortalidade infantil, uso de computadores…

Na terça-feira eu apresentei meu trabalho, foi tranquilo e eu recebi umas sugestões bem boas. Não tinha muita gente na sessão, primeiro porque começou as 6 da tarde e eu acho que o povo não foi bobo e quis aproveitar o sol até 11 da noite e o calor para ver Estocolmo e segundo porque eu acho que o meu tema não está muito em voga atualmente. Eu estava no grupo de trabalho chamado Community Communication, ou seja Comunicação Comunitária e em todas as sessões que eu fui nunca tinha muita gente; já as sessões de pesquisa em audiência e recepção estavam sempre lotadas. Como vocês podem ver, até a pesquisa acadêmica segue tendências fashion.

Mas agora, voltando à comida, o negócio é o seguinte, o prédio é lindo, ecológico de bom-gosto, mas entretando contudo porém todavia, não possui uma cozinha, logo, os 950 e poucos participantes da conferência não podiam comer comida quente. Até aí tudo bem, tem muita comida fria que é boa só que um dia serviram um macarrão vagamente oriental que só pode ter vindo direto do freezer. Em vez de molho tinha uma água. Daí, outro dia eu vou almoçar (ou ter a minha lunch-experience como definiu uma amiga minha) e tinha uns wraps que até que tavam com uma cara boa, só que na primeira mordida eu descobri um OCNI (objeto comestível não identificado) que não era bom. Mais tarde vim a saber que era uma iguaria sueca muito polêmica: sill ou arenque como se fosse em conserva. Só para dar uma contextualizada, é uma comida bem típica sueca que tem um sabor bem especial (horrível. na minha humilde opinião) e que tem muitos suecos que odeiam, meu namorado é um deles e, bom, é o tipo da coisa que é love or hate. E tem muita gente que detesta e alguém tem a cintilante idéia de servir isso num congresso em que 70% dos participantes são estrangeiros. É mais ou menos como se servissem sanduíches de Marmite num evento assim na Inglaterra ou chimarrão em vez de café se a coisa fosse em Porto Alegre. Mas, na quinta-feira essa gafe gastronômica foi redimida com um jantar bem gostoso, música ao vivo ao ar-livre, vinho e um clima bem agradável.

Ano que vem a conferência da IAMCR será no México, o tema é Mídia e Direitos Humanos. Com esse tema, eu já estou elaborando um plano estrategicamente arquitetado para estar lá.

Curiosidades, bizarrices e afins
- A organização da conferência montou um “centro de impressão”, com dois computadores e duas impressoras para que os participantes pudessem imprimir papers e dar toques finais em suas apresentações. Na terça-feira à noite os dois computadores foram roubados. Depois que a sala tinha sido trancada alguém pegou a chave na recepção, abriu a sala e saiu, quando voltou, adeus computadores. Na quarta-feira à tarde recebemos dois computadores novos que foram presos a mesa com correntes. Não adiantou, na quinta-feira de manhã a porta foi arrombada e os computadores roubados. Isso me leva a pensar sobre a febre do CCTV na Inglaterra, não porque se fosse em Londres um prédio desses ia ter câmeras por todos os lados, coisa que não me agrada muito. Mas será que se houvesse câmeras na sala os computadores seriam roubados?

- Uma moça apresentou seu paper em francês. Tudo bem, tudo bem, não vou entrar no mérito de questões de hegemonial cultural, maaaas, o um dos princípios de eventos como esse para um pesquisador é divulgar sua pesquisa, ouvir o feedback, críticas, sugestões, questões, etc, o que é muito útil. Agora, se eu apresentar meu trabalho numa língua que nem 10% dos presentes na sala entende, esse princípio se perde, não é mesmo?

- Outro rapaz do Taiwan apresentou um trabalho muito interessante, sobre a diferença na representações do mesmo personagem da cultura popular em novelas na China e Taiwan. Daí no final a moderadora fez uma pergunta para ele. Então o professor dele disse que ia responder a pergunta, porque ele tinha treinado os seus alunos durante 10 meses para apresentar seus trabalhos, mas não para responder perguntas.

Escravo tem dia?

O Dia Internacional do Trabalhador é, em teoria, uma data em que se comemorariam as conquistas de direitos trabalhistas, como o dia de trabalho de 8 horas em vez das 14 ou 16 trabalharas nas fábricas na época da revolução industrial, o direito de associação, de formar sindicatos e uniões, o direito à greve e muitos outros. O problema é que com o avanço desenfreado do capitalismo, com sua constante sede por lucro acima de tudo e lucro que permanece nas mãos de poucos, esses benefícios e direitos conquistados às custas de muita luta vão sendo perdidos.

No Brasil, a concentração de riqueza nas mãos de poucos não é novidade, acontece desde o periodo colonial. A má distribuição de renda faz com que a maioria dos habitantes de um país rico seja pobre ou miserável. E quem vive na miséria se torna extremamente vulnerável. Qualquer promessa ou proposta, por mais absurda e impossível que seja, parece uma boa alternativa a morrer de fome. É assim que milhares de brasileiros se tornam escravos, ludibriados pela promessa de um trabalho digno, de poder sustentar sua família.

De acordo com a última estimativa a que eu tive acesso, 25 mil pessoas estariam trabalhando em condições análogas à escravidão no Brasil. No caso do trabalho escravo, é difícil chegar a números extatos, pois quem utiliza mão de obra escrava faz questão de escondê-la. Em dez anos, de 1995 a 2005, desde que o Pacto Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo entrou em vigor, mais de 17 mil trabalhadores foram libertados. Mas apenas libertar trabalhadores não é o suficiente para acabar com a escravidão contemporânea. E necessário também que as condições que levam uma pessoa a cair na cilada do trabalho escravo sejam eliminadas. Essas condições são a extrema pobreza, a falta de empregos e muitas vezes a falta de informação.

Essa é justamente uma das críticas de autoridades internacionais ao projeto de erradicação do trabalho escravo no Brasil. Mesmo sendo um dos países que mais tem agido para encontrar e libertar trabalhadores nessas condições, o governo brasileiro não tem feito muito para punir os culpados ou para criar condições que desistimulem o trabalho escravo.

Só que muita gente se beneficiaé do trabalho escravo porque ele reduz os custos de produção. Então tem muita gente no Brasil que primeiro se recusa a admitir que há trabalho escravo e segundo se recusa a aceitar as medidas para erradicá-lo. Um exemplo é a PEC 438, ou PEC do Trabalho Escravo, que está parada na Câmara dos Deputados desde 2003 principalmente por causa do lobby da bancada ruralista. Essa proposta de emenda constitucional istituiria o confisco de terras onde trabalhadores em condições análogas à escravidão fossem encontrados e as terras seriam destinadas à reforma agrária.

Algumas organizações, como a Repórter Brasil e a Comissão Pastoral da Terra vêm pressionando o governo para que a PEC seja aprovada e colocada em vigor como explicam Leonardo Sakamoto e Xavier Plassat. Dia 12 de março houve uma manifestação em Brasília e há um abaixo assinado na internet pedindo que a PEC seja votada. Como eles bem disseram: Dá para tolerar que nossos representantes continuem sentados em cima de uma questão como essa?

P.S.: Eu estou blogando do meio das caixas, nós mudamos para o ap novo sábado e os nossos pertences já estão todos encaixotados. Espero escrever mais sobre escravidão contemporânea durante a semana, mas não sei se vai dar tempo, principalmente porque vai levar 3 semanas para conectarem a internet no outro ap, então só vou poder acessar da internet, caso não haja um vizinho camarada, com uma conexão aberta para me emprestar. Leiam também os blogs da Laura e da Lys que vão escrever sobre o assunto hoje.

6 coisas que amo

A Ermã me passou uma tarefa de escrever sobre 6 coisas que amo e ainda afirmou que eu a obedeço porque ela é maior, coitada…

Aqui vão as coisas

Ler Eu adoro começar um livro novo, passar uma tarde lendo, ler no ônibus, no trem. Gosto de livros de ficção e não-ficção e até mesmo alguns meio trash.

Estudar Além de aprender e descobrir eu gosto do ambiente da universidade e espero permanecer nele por um bom tempo.

Viajar Conhecer novos lugares, pisar num país ou cidade pela primeira vez, usar dinheiro diferente, escutar uma lingua diferente, comer coisas diferentes.

Cuidar da minha casa Gosto de encontrar coisas diferentes, em lojas de segunda-mão, liquidações, combinar coisas e receber amigos.

Passar tempo com as pessoas que gosto Eu passo boa parte do meu tempo com pessoas com as quais eu não escolho estar, então, meu no meu tempo livre gosto de passar tempo com pessoas que são especiais para mim.

Cozinhar é o mais perto de gostar de química que eu consigo chegar. Misturar coisas, ver massa se transformar em bolo, pão crescer, coisas mudarem de cor e sabor é muito divertido, principalmente quando estou cercada de gente legal.

Bom meu povo, eu não tenho poder de influenciar seis habitantes dessa blogosfera, mas eu posso subornar a Ju com sorvete de limão.

As regras são as seguintes

As regras que os convidados devem seguir sao simples:

1. indicar os links de quem os convidou
2. escrever o regulamento no proprio blog
3. citar os 6 objetos do jogo
4. envolver outras seis pessoas
5. comunicar aos proximos 6 sortudos a nomination

Psiu

Agora eu também estou aqui


Porto Alegre Click for Porto Alegre, Brazil Forecast Estocolmo Click for Stockholm, Sweden Forecast

Atenção

Eu moro na Suécia mas não sou agência de turismo, intercâmbio nem trabalho no consulado brasileiro, então não me peça informações sobre morar aqui, aprender a língua, estudar, etc, para essas coisas existe o Google e foi googlando que eu achei 99% das informações que precisava para morar aqui. Na página de links tem vários sites com informações úteis sobre morar na Suécia e Inglaterra.

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