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Reclamar pode ser bom

No post anterior falamos sobre expatriados reclamões, tem vários comentários interessantes então se você está chegando agora sugiro que os leia também. Eu acho que reclamar pode ser produtivo, dependendo da maneira como o fazemos. Esse post conta a história de uma briga que eu comprei aqui na Suécia porque achei que valia à pena. Os fatos se desenrolaram durante o final do ano passado e primeiro semestre desse ano.

Até janeiro do ano passado eu fazia um curso samado Svenska som främmande språk (sueco como língua estrangeira) na Universidade de Estocolmo. Esse curso era dividido em quatro disciplinas, Sueco oral, escrito, Realia (um tipo de Educação Moral e Cívica em sueco) e Projeto, essa última disciplina tinha como objetivo nos ensinar a fazer um projeto de pesquisa.

Sinceramente, se fosse possível eu trocava a aula de projeto por mais um semestre de gramática, que tive no primeiro semestre do curso com uma professora ótima, porque depois de duas graduações e dotois mestrados eu mais ou menos sei como fazer um projeto de pesquisa. Mas, como essa não era uma opção, fiz a matéria e, consequentemente, o projeto em grupo com mais três colegas.

Tudo correu bem, por incrível que pareça considerando que o trabalho era em grupo (correu tão bem que mantive o grupo com uma das colegas que fez o próximo curso comigo), fizemos nosso trabalho e entregamos a primeira versão para o professor. Ele sugeriu algumas correções e alterações e disse que no geral o trabalho estava bom.

No último dia de aula teríamos que apresentar o trabalho. Apresentamos, nossa apresentação recebeu alguns elogios dos outros colegas, mas quando chegou a hora de o professor fazer seu comentário, ele encheu o trabalho de defeitos, disse que nós usamos uma linguagem estranha, que nós escrevemos como falamos e que o trabalho tinha muitas estatísticas (detalhe: era uma pesquisa quantitativa). Uma das críticas que ele fez era o fato de termos usado a palavra mottagare que significa receptor significando isso mesmo, o receptor da comunicação, sabem, emissor e receptor, ele disse que a palavra era usada antigamente significando rádio, assim como usamos em português. O interessante foi que em uma aula do curso seguinte outro professor usou exatamente a mesma palavra com o mesmíssimo significado que tínhamos usado no nosso trabalho.

Mas não foi só isso não, no final da aula o professor resolveu fazer uma avaliação geral da turma. E aí veio a aula de didática. Ele disse que depois de termos estudado sueco pelo tempo que estudamos, já deveríamos falar bem melhor, que nós não estávamos preparados para fazer um curso universitário em sueco e que se ele fosse um empregador, não nos contrataria por que não falávamos sueco suficientemente bem.  E olha que essa era a última aula de um curso que deve preparar os alunos para um curso universitário em sueco.

Eu fiquei tão indignada que resolvi escrever uma carta para o DCE universidade (aqui se chama studentkår) relatando o que aconteceu, junto com uma das minhas colegas de grupo, que estava tão indignada quanto eu. Mandamos o email e depois de uns dias recebemos a resposta de uma moça chamada Eva, que nos deu algumas opções de passos que poderíamos seguir a partir da nossa reclamação. Nós falamos que não estávamos interessadas em revisão de notas, nós tínhamos passado e isso era o que interessava. No entanto, queríamos que o professor ficasse sabendo que o comportamento dele não foi apreciado. A Eva nos escreveu de volta e sugeriu que marcássemos um encontro com ela, o professro em questão e a chefe do departamento para discutir o problema. Ela então escreveu para a chefe do departamento, explicando o acontecido e pedindo para marcar o tal encontro.

…. (tempo passando)

Meses se passaram e nada aconteceu. Lá por abril eu recebo um email  da Eva dizendo que ela estava fazendo o relatório de fim de semestre, com todos os casos que ela tinha acompanhado e queria saber se nosso caso teve algum desfecho. Eu disse que não, e que tinha ficado decepcionada, porque isso para mim mostrava que o departamento não está nem aí para o que os alunos pensam. Ela me respondeu e disse que achava muito estranho, porque nós não pedimos revisão de prova nem nada, apenas queríamos conversar e disse que iria escrever novamente para a chefe do departamento. Dito e feito. A chefe que daí ja era ex-chefe repassou o email para o atual chefe que pediu desculpas, disse que estava se acomodando na nova função, que tinha muitas coisas para resolver e que nosso caso tinha ficado para trás, mas que nossa reclamação era importante e que iríamos marcar um encontro.

Encontro marcado, vamos eu e a minha colega primeiro conversar com a Eva que nos disse que não era a primeira vez que acontecia esse tipo de problema nos cursos de sueco como língua estrangeira e que  foi muito bom que nós tivéssemos escrito a carta e tal.

Durante o encontro nós falamos, falamos e falamos, perguntamos porque o professor não fez as críticas que ele tinha feito quando entregamos o trabalho para revisão e criticamos a maneira como ele se expressou diante da turma. A Eva falou para ele que aprender uma língua estrangeira depende muito de auto-confiança e por isso falar que não nos empregaria porque não falamos bem a língua não ajuda muito no aprendizado. Mas o melhor mesmo foi quando ela disse que queria ver as avaliações do curso, preenchidas pelos alunos no fim de cada semestre e ele ficou enrolando, porque eu acho que as avaliações não devem ser tão boas. Esse professor – que é tudo o que um bom professor não deve ser – só n0s pediu desculpas quando o chefe do departamento disse que ele, o professor, não tinha se expressado da maneira mais adequada.

No fim das contas, eu acho que valeu à pena ter reclamado. Esse professor deve pensar que os alunos estrangeiros não conhecem os canais para reclamar e por isso abusou de sua autoridade. Eu espero que agora ele pense melhor quando for fazer suas “avaliações”.  Para esse tipo de reclamação eu dou o maior apoio.

Grumpy (not too) old woman

Tem coisas que me irritam sobremaneira

1. A mania dos adolescentes suecos de cuspirem na rua. Será que 90% da população adolescente do país sofre de salivação excessiva? Será que é para demarcar o território? Seja qual for a razão, é bem nojento!

2. A mania dos donos e atendentes de buteco e vendas de esquina, geralmente oriundos do oriente-médio, de ficarem me perguntando de onde eu sou e chutando: Iran e Kurdistão (mais frequentes), Grécia e Turquia (menos frequentes). Daí quando eu digo que eu sou brasileira a resposta é sempre a mesma: mas tu não parece brasileira, geralmente os brasileiros são mais escuros. Bah, valeu aí amigo por me ensinar algo que eu não sabia sobre o meu país. Aí quando eu pergunto se eles conhecem muitos brasileiros a resposta é: siiim, Pelé, Ronaldo, Ronaldinho. E esse diálogo se repete… ad infinitum. Eu não xingo porque geralmente eles são simpáticos, mas que cansa ter a mesma conversa mais ou menos uma vez por mes cansa.

Disclaimer: nada contra os donos de estabelecimentos comercias de qualquer nacionalidade e muito menos as nacionalidades mencionadas. É que 1) o papo cansa mesmo (será que to sendo repetitiva) e 2. todos os donos dos ditos estabelecimentos aqui na minha vizinhanca ou os que me perguntam tem as ditas nacinalidades. Sim né povo, eles perguntam a minha eu pergunto a deles – direitos iguais.

Lutando pela sobriedade da nação

Esse post é dedicado ao creme Nivea, que é barato e cumpre suas funções com maestria!


Sábado é o dia que as crianças aqui comem doce e o dia que nós adultos tomamos um vinhozinho, pelo menos aqui em casa.  Seguindo esse costume sábado passado depois de nadar fomos comprar nosso vinho semanal. Para quem não sabe, aqui na Suécia bebidas com mais de 3% (acho que é isso, não tenho bem certeza, mas se não for vai aparecer alguém e corrigir) de teor alcoólico só podem ser vendidas por uma empresa estatal chamada Systembolaget. No supermercado e na vendinha da esquina só tem cerveja e cidra com teor alcoólico de até 3%. Ah, é óbvio que bares e restaurantes podem vender bebidas alcoólicas mas também não é assim tão fácil para conseguir a licença.

Mas então, saindo da academia fomos ao Systembolaget local que parece uma daquelas lojas antigas onde nós precisamos pedir o que queremos no balcão e @ funcionári@ busca e vende. Nós queriamos dois vinhos brancos diferentes (um para beber e outro para fazer risotto) e um vinho tinto. Cada produto tem um número, então muita gente costuma anotar e já pedir pelo número o que eu acho que torna a vida d@s atendentes mais fácil. Daí na hora de anotar o número descobrimos que não tinhamos caneta. O que fazer… Eu decorei um número e o Nicklas decorou os outros dois.

Chegando a nossa vez de ser atendidos (é obvio que tem que pegar senha e esperar ser chamado, como tudo aqui) o Nicklas disse os números dele e eu disse o meu. Imediatamente a moça nos pediu identidade para comprovar que nós somos maiores de 21 anos – eu tenho 30, Nicklas 31 – agora tão entendendo o porquê da dedicação ao creme Nívea? (detalhe, há muito tempo, coisa de anos, ninguém pede identidade para o Nicklas) só que como só tínhamos ido nadar eu não levei a carteira e não tinha a minha identidade. A moça então falou que poderia apenas vender os vinhos que o Nicklas pediu, não o que eu pedi.  Nós dois ficamos meio que sem reação, eu disse à moça que eu tenho 30 anos e até cabelos brancos. Mas não adiantou, ela estava irredutível e disse que eu pareço muito jovem (brigadaí mocinha, que provavelmente era mais nova que eu).  Nesse meio tempo eu encontrei meu cartão do metro e meu cartão de estudante, ambos pessoais, intransferíveis e contendo meu número de identidade sueco que sempre começa com o ano de nascimento. Mas a moça estava decidida a lutar pela minha sobriedade e disse que tais documentos não eram válidos como prova de identidade.

Nós então resolvemos deixar a moçoila lutar pela sobriedade da nação e fomos até outra loja no bairro próximo, onde compramos todos os vinhos que queríamos, o Nicklas passou no caixa e ninguém pediu a identidade dele.

Agora me digam, para que eu vou gastar dinheiro em Clinique e Lancôme se o creme Nívea já me faz parecer quase 10 anos mais jovem? Ah sim, não é só o creme Nivea, eu também evito o sol, porque é melhor ter a pele pálida e jovem do que morena e igual a uma uva-passa, não é mesmo?

Ao redor do buraco tudo é beira

Durante a semana passada o diário sueco Dagens Nyheter publicou uma série de reportagens escritas pelo jornalista e escritor Maciej Zaremba, que é polonês naturalizado sueco e chegou aqui desde 1969, com 18 anos fugindo das perseguições aos judeus na Polônia. A série se chama “I väntan på Sverige” (à espera da Suécia), nela o autor discute a integração de imigrantes sob vários pontos de vista. Ele fala sobre multiculturalismo, nacionalismo, sobre a burocracia sueca encontrada por refugiados e asilados e sobre aprender sueco. Em linhas gerais ele discute porque é tão difícil para imigrantes se integrarem à sociedade sueca.

Imigração e integração são assuntos que dão pano para manga aqui na Europa. Muitos países do velho continente que por muito tempo tiveram populações etnicamente homogêneas ou em que um grupo conseguiu por décadas manter uma certa dominancia cultural e política estão tendo vários valores questionados por imigrantes ou minorias que podem ser pequenas, mas não são nem um pouco submissas. Uma questão que é recorrende nessas discussões é: quem precisa se adaptar a quem?

Apesar de o autor usar quase só exemplos particulares para ilustrar o geral e apresentar bem poucos dados que comprovem que a realidade daquelas pessoas que ele descreveu é reprensentativa do todo, em muitos pontos eu pude me identificar com o que ele escreveu. Nos primeiros textos ele fala sobre o ensino de sueco e como ele NÃO corresponde à necessidade da maioria dos alunos. Para mim isso não é novidade. Uma coisa que não aconteceu comigo, mas que eu sei que não é raro principalmente em cidades pequenas aqui na Suécia (aconteceu com algumas pessoas que eu conheço), é abrirem turmas em que juntam gente que é analfabeto em sua língua materna  com outros que terminaram a faculdade. Não estou querendo dizer que ninguém é melhor que ninguém, mas acho que são grupos com necessidades diferentes.

Daí passamos ao conteúdo dos livros que tratam imigrantes e suecos de uma forma tão estereotipada que chega a ser quase cômico. Se não fosse trágico. Nos livros de sueco Ali e Fatima estão sempre esperando cartas da imigração ou falando com com o funcionário do órgão que deveria ajudar as pessoas a encontrarem empregos.  E é óbvio que o funcionário ou funcionária sempre tem um nome sueco. Ah, também acontece de Zeinab e Juan procurarem emprego, que geralmente é como cozinheiro (a), ajudande em creches ou operário (a) de fábrica.  Novamente, nada contra esses empregos, mas será que todos os imigrantes querem seguir essas carreiras ou todos os suecos querem exercer profissões de nível universitário?

Outra coisa é a tonelada de coisas inúteis que precisamos engolir quando o que queremos é apenas dominar uma língua. Por que eu preciso conhecer clássicos da música sueca do século XVIII? Por que eu preciso ler livros do século XIX escritos em de uma maneira que não se escreve nem fala mais hoje em dia? Como eu já disse em outro post, eu quero aprender a língua e depois decidir de acordo com a MINHA agenda que livros eu vou ler e que tipo de música eu vou escutar.

Adestramento

O autor também fala da idéia que parece permear a burocracia sueca de que nós (sim nós, eu também sou imigrante assim como você que está aí lendo e mora na Suécia, não apenas árabes, somalis e iraquianos) precisamos primeiro aprender a viver na sociedade sueca, antes de qualquer coisa. Sim porque no mundo lá fora TUDO funciona diferente e se nós não aprendermos como as coisas funcionam AQUI, nunca conseguiremos nos integrar. Eu não acho que isso seja racismo, talvez um pouco de preconceito, somado à ignorância com uma pitada de inocência e falta de conhecimento do mundo lá fora, aquele para além da costa leste do país. É essa mistura que faz com que, por exemplo, a Ju quase fosse impedida de entrar no segundo nível de um curso de francês na Universidade de Estocolmo, mesmo tendo estudado francês na França, porque dã, ela não fez o primeiro nível na Universidade de Estocolmo. E qualquer que seja o Francês que eles ensinam lá na França é óbvio que não é a mesma coisa que ensinam aqui.

Numa das respostas à série de reportagem – que teve muitas respostas, hoje o jornal publicou duas páginas só com respostas – uma professora sueca aposentada diz que ajudou um professor polonês com 15 anos de experiência a escrever uma monografia para poder ter licença para dar aula aqui na Suécia.  Ela conclui com uma certa ironia

Ele será certamente um professor muito melhor depois de escrever 30 páginas sobre como se ensina, não é mesmo?

Outra leitora do jornal diz o seguinte

Eu fiz parte de uma revolução, estudei em três países e falo quatro línguas. Mas isso não é nenhum mérito na Suécia, o que conta é ser sueco, falar como sueco, se comportar como sueco, pensar como sueco.

Esse mesmo preconceito, misturado à inocência, ignorância e ao gosto por tudo o que já é conhecido e claro como água constrói o muro que separa muitos imigrantes do mercado de trabalho. Segundo Maciej Zaremba muitos suecos são selecionados para empregos no lugar de imigrantes porque

Vão rir das mesmas piadas, não vão dar uma opinão que não seja fundamentada, não vão falar de livros que os outros não conheçam, não vão interromper quem está falando, vão compreender exatamente o que sigfica dizer que Olsson “é meio especial”*.

Por isso tudo eu tenho um certo receio de vir a trabalhar num lugar onde eu seja a única estrangeira (isso me lembra do Daffyd, the only gay in the village, personagem do David Walliams em Little Britain). Eu não quero ser o elefante branco no meio da sala. Na Inglaterra eu sempre trabalhei com gente de vários lugares, não tinha olhares estranhos, ninguém se sentia excluído.  E todos precisavam, uma vez ou outra, explicar piadas.

A indústria da integração

Num dos artigos da série o autor fala que a integração pode não ter dado certo na Suécia, mas muita gente saiu lucrando. Sim porque o governo está tentando privatizar a integração e começou pelas escolas de sueco. E é obvio que isso significa professores não necessariamente qualificados, ganhando menos  e  salas de aula cheias.  O concurso é para ver quem consegue “educar” mais gente pelo menor preço. O tipo de ensino e aprendizado resultam dessa  equação vocês podem imaginar.

Quando eu estava na escola, a minha professora queria que eu fizesse a prova final um mês antes da data que estava marcada porque ela achava que eu estava preparada.  Quando ela foi pedir a autorização da diretora da escola (que nunca me viu mais gorda), a diretora disse que eu deveria esperar mais um mês. Eu ja tinha feito outra prova um mês antes da data marcada e acho que a diretora achou que eu não estava dando lucro para a escola, que recebia por aluno/hora-aula.

Identidade escrita na pedra

Nesse debate todo sobre integração, uma coisa que eu não entendo é porque tem gente que pensa que a identidade de uma pessoa está escrita na pedra, não pode mudar.Istoé: se eu sou brasileira não posso aceitar a cultura sueca e valores suecos.  Eu acredito que uma coisa nao exclui a outra, que uma pessoa pode se identificar com várias culturas, com várias nações.

Na minha opinião a era de um povo, uma nação, uma cultura já passou.

* Em sueco, quando se diz que uma pessoa é um pouquinho especial isso significa que a pessoa não bate bem, é estranha. Esse é outro exemplo de swenglish. as vezes o Nicklas me falava que ciclano ou beltrano era a little special e eu achava que a pessoa era trilegal, só não entendia por que ele falava que a pessoa era só um pouquinho especial em vez de dizer que a pessoa era bem especial.

A princesa casa e o povo paga a conta

Não sei se alguém notou a minha falta virtual, mas eu passei a semana inteira lendo jornais do ano passado para a minha dissertação. Segunda-feira eu tive uma reunião com a minha orientadora e o grupo de orientandas dela (eu e mais três colegas, ao todo somos cinco, mas uma das minhas colegas está fazendo um curso em Londres) e precisei também ler as propostas das minhas colegas para poder discutí-las. Para o meu profundo alívio a minha orientadora disse estar muito satisfeita com o meu progresso e gostou do que eu escrevi até o momento.  E se ela está satisfeita, eu também estou.

Mas vamos ao que interessa. Acho que já é de conhecimento geral que a princesa vai casar ano que vem. Quem não está a par dos detalhes pode ler o post da Ju. Como nós sabemos, ou melhor imaginamos (porque não é todo mundo que frequenta círculos reais), esse tipo de evento custa caro. E a família real sueca não pode fazer feio perante outras casas reais. Imagine só, se o príncipe fulano da Noruega teve uma fonte de Cristal, se no casamento da princesa fulana da Espanha serviram trufas com folhas de ouro, o casamento da Vitória não pode deixar por menos.

Só tem um problema. Dinheiro de menos. Os assessores econômicos do rei descobriram que a verba de cerca de 112 milhões de coroas (cerca de 30 milhões de reais) que a casa real vai receber esse ano não será suficiente para organizar um casamento digno de uma princesa-herdeira. E como quem casa quer casa, além do casamento também é preciso montar um ninho para os pombinhos. Diante dessa situação, o que faz o rei? Como nesses tempos modernos em que vivemos não dá para ele vender um pedaço de terra para a Dinamarca ou Noruega ou conquistar mais uns territórios na direção da Rússia, a única coisa que resta ao nosso soberano é pedir mais dinheiro ao parlamento sueco. E eu não preciso explicar de onde vem a grana não é mesmo? Dos impostos.

Mas veja bem, nós estamos falando de um país que atravessa uma crise econômica. Um país onde milhares de pessoas perderam seus empregos ano passado e onde estima-se que mais gente vá ser demitida esse ano. Um país onde muita gente foi obrigada a vender a casa com prejuízo porque não podia pagar a hipoteca por causa do aumento nos juros. Daí o que faz o monarca, que possui uma coleção de carros antigos? Ignora tudo isso e pede mais uns milhõezinhos para enterter umas cabeças coroadas do mundo. Não sei se é porque a família real não é nenhum símbolo de orgulho ou identidade nacional para mim pessoalmente, mas eu achei isso um insulto.

Tem muita gente dizendo o dinheiro que o rei vai ganhar não é nada perto da publicidade e aumento no turismo que o casamento vai gerar para a Suécia. Eu na minha ignorância não vejo nenhuma relação, eu acho que o turismo aqui na Suécia é influenciado por outros fatores. E eu não vejo uma como uma pessoa na Áustralia, por exemplo, pode ver umas fotos do casamento numa revista e pensar: poxa que casal simpático, vou ter que visitar a Suécia para conhece-los.

Acho que um uso muito melhor do dinheiro seria investir em treinamento para as pessoas que estão desempregadas ou criar uma linha de crédito para aqueles que não estão conseguindo pagara hipoteca das casas. Porque não sei se o rei se deu conta, mas quanto menos gente trabalhando e pagando impostos no país, menos chance ele tem de receber seu salário.

Olhem só os comentários deixados no site de um jornal sueco (traduzidos por mim):

Todo mundo pode mesmo se mudar para o castelo com o rei quando o dinheiro e os empregos sumirem.

Eu imagino como deve ser viver como o rei a a família real… Eles não foram nenhum pouco afetados pela crise econômica.  Parece que eles estão completamente fora da realidade. “Agora minha filha vai casar e precisa de uma casa, mandem o dinheiro”

Eu conheço essa história: pagar 100 milhões de coroas para que eles apareçam em revistas de fofocas espanholas e alemãs. Nós não ganhamos nenhum dinheiro com isso. Como já disse, com a minha experiência em viagens, eu sei que a família real é um pontinho no espaço. No geral ninguém se importa com eles. Bom talvez tenham alguns monarquistas fanáticos suecos espalhados pelo mundo. Mas eles podem continuar a adorar a família real independente de o rei ser ou não pago pelo estado.

Não é só o rei que precisa de dinheiro. Tem muito mais gente que gostaria de receber uns trocados extras do governo. Mas quando a Saab precisa de ajuda eles dizem não. A Saab não é um símbolo sueco? Quantos estrangeiros conhecem a Saab versus o rei? Por que nós não investimos em gerar empregos na Suécia em vez de investir no rei? Em vez de dar mais dinheiro para o rei poderiam salbar uma empresa sueca, ou retomar o controle de empresas que eram suecas.

Deixem aqueles que tem a ganhar com o casamento pagar por ele Aftonbladet, Expressen, Svensk Damtidning, Se och hör (jornais e revistas de fofoca). Todas as revistas e jornais de fofoca devem pagar mais impostos ano que vem. São os que ganham com o casamento que tem condições de pagar por ele. Simples.

Primavera?

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Teoricamente a primaveira chega  no início de fevereiro março aqui por essas bandas, mas a prática é bem diferente, como dá para ver! A universidade de Estocolmo estava coberta de neve ontem. No caminho de casa até o metrô a neve estava quase pelos joelhos. Mas engana-se quem pensa que quando tudo está assim branquinho é muito frio. Para cair neve a temperatura precisa estar em torno de 0° graus o que é uma temperatura bem amena para os padrões locais. Ontem de manhã quando eu saí estava 2°.


dsc01943Aqui em casa tem gente só esperando pelo verão para poder jantar na sacada, mas pelo visto vai demorar um pouquinho.

A história da política de imigração na Suécia

A revista Fokus dessa semana publicou uma matéria com o Ministro da Imigração Tobias Billström que propôs uma nova lei que recebeu duras críticas mesmo de partidos aliados. De acordo com a lei proposta por Billström cidadãos suecos naturalizados que cometam crimes perderão a cidadania sueca. A matéria conta a história do ministro desde os tempos de universidade, mas também a história do desenvolvimento da política de imigração sueca, que eu achei muito interessante e resovi traduzir aqui.

O modelo sueco

Virar a casaca de acordo com o vento

Houve um tempo em que a imagem da Suécia como o país mais generoso com imigrantes no mundo inteiro refletia a realidade.  Desde a metade do século XIX até a I Guerra Mundial a imigração era uma prática totalmente desregulada. Mas mesmo assim  o número de imigrantes não era grande. Em contrapartida os suecos emigravam: 1,3 milhões de suecos deixaram o país durante esse período para tentar a sorte nos Estados Unidos.

A situação mudou com o desenvolvimento da indústria e a demanda por mão-de-obra depois da guerra.  Finlandeses, Iugoslavos, gregos, turcos. Durante duas décadas cidadãos de certas nacionalidades podiam trabalhar e viver na Suécia livremente.

O número de imigrantes aumentava a cada ano e o desenvolvimento econômigo do país parecia durar para sempre. Em 1965 chegaram aqui 46500 estrangeiros, o número mais alto até então. No ano seguinte a situação econômica apertou e os políticos se apressaram em fechar as fronteiras. Em 1967  a imigração de trabalhadores para a Suécia foi regulamentada.

Ao mesmo tempo que a imigração de força-de-trabalho diminuiu os políticos ganharam um novo problema para resolver. Refugiados. Eles não eram tantos antes. Talvez mil por ano. O número exato é difícil de saber porque o Departamento de Imigração só começou a elaborar estatísticas na década de 80. Os refugiados vinham de países completamente diferentes que os trabalhadores europeus que migraram para a Suécia nos anos anteriores. O golpe militar no Chile foi em 1973 foi uma de muitas razões.

Frente à uma situação completamente nova o parlamento sueco decidiu por unanimidade em 1975 criar uma política de imigração. Mais um modelo sueco, como os políticos declararam orgulhosos, era lançado. Segundo a própria descrição, o mais humano do mundo.

O consenso do bloco político sobre a política de imigração permameceu por décadas porque existiam duas salva-guardas: Social-democratas e Moderados. A vontade dos outros partidos teve um papel apenas marginal.

O que tinha um papel importante, entretanto, era a opiniões. Quando imigração significaca imigração de trabalhadores não havia muito espaço para opiniões. Os imigrantes tinham emprego, casa e se assimilaram à sociedade sueca. Não havia muito o que discutir.

Mas nos anos 80 falar em imigrantes era falar em iraquianos, iranianos, eritreus e somalis. A indústria estava em declínio e o Miljonprogrammet* tinha terminado. O descontentamento com a política de imigração se tornava cada vez mais aparente.

A Ministra da Imigração Maj-Lis Lööw assumiu no governo social-democrata junto com Göran Persson em 1989. Nessa época o próprio ministro da imigração era a última instância num processo de pedido de asilo. Ela tomou a decisão na segunda-feira. Na quinta-feira da mesma semana foram publicados os nomes daqueles que deveriam deixar o país.

A ministra ainda era nova no posto quando ela tomou sua decisão mais difícil. Foi no dia de Santa-Lúcia** em 1989. O título do release revela a pressão pela qual ela passava: “O sistema sueco de asilo político se encontra em crise”.   O decreto de Santa Lúcia, como foi chamado, foi o aperto mais forte na política de imigração até então. Apenas refugiados segundo a Convenção de Geneva poderiam receber asilo e não pessoas que se encontrassem em situação de risco em seus países.

Mesmo assim isso não representou uma mudança de curso. A lógica continuava a mesma do tempo da grande imigração de mão-de-obra, como sempre foi: quando a integração não é bem sucedida o número de imigrantes precisa diminuir e vice-versa.

E o espiral continuou até a eleição de 1991, quando 368 282 eleitores votaram no Ny demokrati (Nova Democracia – partido ultra-nacionalista de extrema direita). 6,7 porcento do total de eleitores. O sucesso se deveu à política de imigração do partido. Nunca os suecos foram tão críticos à imigração quanto no início dos anos 90, de acordo com uma pesquisa do Instituto Som. E isso deixou marcas na política.

- O Ny demokrati influenciou os outros partidos indiretamente na elaboração de políticas mais restritivas. Eles ganharam um significado maior do que o apoio dos eleitores – diz o professor Björn Fryklund na faculdade de Malmö, que há muito tempo pesquisa sobre movimentos e partidos populistas de direita.

O governo de direita, com Friggebo como ministro da imigração, tentou acabar com a vinda de refugiados da Iugoslávia através da imposição de visto para bosnios (?) em 1993, quando a guerra estava em seu pior momento. “

* Miljonprogrammet: programa do governo sueco durante os anos 60-70 para construir 1 milhão de apartamentos como preços acessíveis.

** Dia de Santa Lucia: 13 de dezembro, marca o início das comemorações de Natal

O buraco negro que me ronda

blackhole

Eu nunca fui de perder muita coisa. Eu lembro que quando éramos pequenas minha irmã, a Laura vivia perdendo dinheiro.  Não lembro de ter perdido nada importante durante o tempo de faculdade, por exemplo. Quando eu morava em Londres – acho que porque eu tinha que sair de casa carregada de tudo o que eu ia precisar durante o dia – as coisas começaram a desaparecer. Um dia perdi meu celular no cinema. Perdi mesmo, não acho que tenha sido roubado porque era uma sessão no meio da tarde e tinha bem pouca gente. Outro dia eu perdi meu porta-cartões com meu cartão do transporte, cartão que dava acesso a várias salas da faculdade e a biblioteca (e que custava 10 libras, acho que uns R$ 40) e meu cartão para entrar no trabalho. Nesse dia eu e o Nicklas estávamos, por coincidência, voltando do cinema me dei conta da perda quando fomos pegar o ônibus. Mas ao chegarmos no andar em que eu morava, 15o, eu consegui derrubar a minha chave no vão entre o elevador e o piso.

Mas nada me compara ao que tem me acontecido nos últimos dias. Primeiro eu foram duas faturas – H&M online e do telefone e internet que desapareceram. A do telefone eu liguei e eles mandaram outra e ainda deram mais uns dias para pagar.  Tudo bem. Eis que chega semana passada. Eu estou na universidade e vou ligar para uma amiga que tinha combinado de encontrar para almoçar. Só que, cadê meu celular? Em princípio eu achei que tinha esquecido em casa, como eu faço com uma frequencia bem maior do que gostaria. Chegando em casa, procuro o celular por todos os lados e não acho. Perdido.

Daí eu comecei academia essa semana, segunda-feira fui nadar e na terça-feira resolvi me exercitar nos aparelhos. Fui procurar meu tênis de academia. Cadê ele? Provavelmente no mesmo lugar que o celular, na dimensão paralela das coisas perdidas por Paola Sartoretto.

Já cansada de perder coisas eu resolvi prestar muita atenção em meus pertences, incluindo o cadeado para o armário da academia. Só que o poder de atração do buraco negro que me rodeia é mais forte do que eu. Hoje quando eu estava pronta para ir dar a minha nadadinha, fui procurar a chave para fechar o cadeado do armário e cadê ela? Sim, foi fazer companhia ao celular e ao tênis. Desci na recepção, comprei outro cadeado e fui nadar. Enquanto eu nadava e pensava na vida e me concentrava em não me afogar, olhei para o meu pulso, onde as chaves ficam presas numa pulserinha de borracha. Obviamente a chave não estava lá.

Mas dessa vez eu não tinha perdido a chave, pelo menos isso. O único problema é que ela estava no fundo da piscina de 3,6 metros. Eu consegui mobilizar umas pessoas para me ajudar e um moço muito prestativo tentou mergulhar e pegar a chave, mas não conseguiu. E ela continua lá, no fundo da piscina, enquanto eu tive que pedir para a moça da recepção cortar o meu cadeado.

Alguém sabe alguma simpatia para não perder coisas ou uma macumba para afastar esse buraco negro que me ronda?

Fortress Europe

Eu comecei a escrever esse post ano passado, mas nunca publiquei porque nunca achei que estivesse bom o suficente. Imigração é um tema que rende muito assunto, livros, programas de rádio e TV, filmes… Mas pegando carona no post sobre a Anita Dorazio, resolvi publicar esse agora.

worldmapper.org

o tamanho da área representa o número de imigrantes internacionais vivendo ali. Fonte: worldmapper.org

Nos últimos anos, a Europa tem adotado ou tentado adotar posturas que limitem ou tornem a imigração mais difícil. Desde 2002, quando cheguei em Londres, eu tenho percebido que o preconceito e posturas negativas com relação aos imigrantes, principalmente muçulmanos e não-ocidentais tem aumentado e se tornado mais socialmente aceita. Parte da mídia britânica, não sei em outros países, trata dos imigrantes e refugiados sob uma luz muito negativa. Para jornais como o Daily Mail ou Daily Express, imgrantes são terroristas em potencial, abusam do sistema e não respeitam as tradições e costumes do país que os acolhe. Acontecimentos como 11 de Setembro, as bombas no metrôs de Madri em 2003 e Londres em 2005 e a revolta civil na França também em 2005 contribuíram para o racismo e o preconceito, antes condenados, tornarem-se justificáveis e até mesmo socialmente aceitos.

No início do ano passado, eu li uma matéria no The Guardian sobre como comentários e posturas racistas, anti-imigração estavam se tornando comuns em setores como o governo e academia. Ano passado, a BBC mostrou um vídeo do departamento de imigracao Holandês que estava causando polêmica por mostrar casais gays e mulheres fazendo topless para ilustrar que a Holanda é um país liberal e que quem quiser morar lá precisa compartilhar dos mesmos valores. Segundo alguns grupos, esse vídeo teria como objetivo dissuadir muçulmanos da idéia de emigrar para o país Europeu.

Ainda na Grã-Bretanha, o número de apoiadores do BNP (British National Party) que é contra a imigração e do qual SPAIN IMMIGRANTSapenas britânicos brancos podem fazer parte, tem crescido principalmente entre a classe média-baixa. Aqui na Suécia, uma pesquisa realizada pelo Departamento de Imigracao Sueco (Migrationsverket) revelou que um em cada quatro suecos votaria em um partido que restringisse os direitos dos imigrantes. Na Itália, o governo está fazendo uma verdadeira caça aos ciganos, que já são tratados como cidadãos de segunda classe em vários países.

Desde que eu decidi sair do Brasil e morar no exterior, tenho me interessado bastante por questões relacionadas à imigração. Enquanto houver conflitos, guerras,  fome e miséria em parte do mundo, a imigração vai continuar sendo uma realidade, especialmente em países europeus. Entretanto, é interessante que os países que recebem o maior número de imigrantes per cápita são Estados Unidos, Canadá e Austrália*, nenhum deles na Europa. Já a Suécia é um dos países que mais recebes refugiados em valores relativoz. Então eu me pergunto: Quais são os direitos dos imigrantes? Qual o grau de integração e contribuição para a sociedade que o acolhe o imigrante precisa ter para ter mesmos direitos dos cidadãos nativos? E mais importante, é justo que um país feche suas fronteiras ou imponha restrições à imigração?

O termo “fortress europe” ou fortaleza europa tem sido usado para definir exatamente as políticas que estão se tornando comuns em vários países europeus de dificultar a imigração e pedidos de asilo e refúgio. Só que aí existe uma pequena contradição: esses mesmos países que agora estão fechando as fronteiras deram sua contribuição para que a situação em alguns países esteja tão ruim que as pessoas sejam obrigadas a emigrar. A Grã-Bretanha foi um dois países que mais explorou a escravidão até o início do século XIX, além de explorar suas colônias na África e Ásia. A França e Holanda, que também estão fechando suas portas, não escapam do passado colonialista. Várias formas de exploração de países subdesenvolvidos ainda exíste hoje, como por exemplo os subsídios dados aos agricultores europeus e a guerra no Iraque que tem a Grã-Bretanha como ¨ator coadjuvante¨. Segundo a Agência da ONU para Refugiados, existem hoje quase 33 milhões de pessoas entre as categorias de refugiados, asilados, pessoas sem estado e pessoas internamente destituídas.

imigracao-3Tem que haver alguma coisa de muito errada quando as pessoas arriscam a vida para sair de seu país. Provavelmente o risco que se corre permanecendo no país é maior do que aquele oferecido pela jornada. Nesse caso, talvez os governos do oeste europeu devessem colocar a mão na consciência e e fazer algo para resolver os problemas que ajudaram a criar. É muito estranho que as pessoas falam tanto em comércio globalizado, economia globalizada mas ninguém fala de solidariedade globalizada. Na minha opinião não há nada mais justo, porque se companhias európeias e norte-americanas lucram vendendo armas para os warlords em Darfur, por exemplo; esses países deveriam arcar com o ônus da guerras guerras com as quais lucram.

Existe também uma certa tendência da mídia, de políticos um tanto quanto salafrários e da polícia – esses dois últimos, geralmente as principais fontes do jornalismo – de dar bastante espaço a qualquer tipo de ofensa cometida por imigrantes, deste assaltos, estupros até abuso do sistema social.  É bom lembrar que nós não sabemos ao certo se imigrantes cometem mais assaltos do que nativos, ou se abusam mais do sistema social. Mas a julgar pelo que vemos em alguns setores da mídia é mais ou menos isso que eles fazem todos os dias. É lógico que é muito fácil jogar a culpa pela criminalidade crescente e ineficiência do sistema social nos imigrantes, eles chegaram por último, eles são preguiçosos, eles vêm de países “sem-lei”, como vão saber respeitar as leis do nosso civilizado mundo ocidental? É muito bom quando podemos colocar a culpa no outro, isso evita que precisemos olhar para os nossos defeitos.

A sueca do ano tem vergonha de ser sueca

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Anita Dorazio, 72 anos foi eleita sueca do ano pela revista Fokus (revista semanal de jornalismo) por seu trabalho com refugiados e imigrantes ilegais. Anita fundou a primeira clínica secreta da Suécia há 13 anos. Aqui refugiados e imigrantes ilegais precisam pagar pelo tratamento médico e convenhamos que quem foge de uma guerra ou da pobreza extrema  não tem lá as melhores condições finaceiras o que torna virtualmente impossível que essas pessoas tenham acesso a um hospital ou pronto socorro.

Nos anos 90, quando Anita iniciou a primeira clínica em Estocolmo, a lei de imigração havia mudado recentemente, o país estava recebendo muitos refugiados da ex-Yugoslávia e o partido de direita Ny Demokrati (Nova Democracia) questionava o direito de refugiados e imigrantes ilegais de receber auxílio do sistema de saúde. Nessa época Anita trabalhava pelo direito dos refugiados a asilo político. Como professora ela tinha contato com muitos imigrantes e percebeu a dificuldade que eles tinham em ter acesso a remédios ou tratamento médico.  Ela decidiu então fazer alguma coisa e, tendo contato com vários profissionais da área de saúde, muitos com experiência em países em desenvolvimento, conseguiu montar um grupo para atender quem não tinha acesso ao sistema de saúde.  A primeira clínica secreta abriu suas portas dia 7 de maio de 1995 em Estocolmo. Mais tarde  outras clínicas em Gotemburgo e Malmö passaram a atender os “sem-papéis” como são chamados  os ilegais aqui na Suécia.

Desde então a situação para imigrantes ilegais e exilados se deteriorou. Uma nova lei de asilo político, que entrou eu vigor na primavera gerou um debate sobre o acesso limitado dessas pessoas ao sistema de saúde. Diante disso 27 organizações da sociedade civil – entre elas Anistia Internacional, Cruz Vermelha, Igreja Sueca e lideranças sindicais – fundaram a  Rätt till vård initiativet (Iniciativa pelo direito à assistência médica).

De acordo com a polícia há mais de 8 mil refugiados (que não tiveram seu pedido de asilo aceito pelas autoridades suecas mas decidiram permanecer ilegais no país) na Suécia. O Departamento de Imigração acredita que o número de pessoas que vivem na Suécia sem permissão de residência está em torno de 10 e 15 mil. Já a Organização Médicos no Mundo acredita que esse número pode chegar a 35 mil. Essas pessoas estão numa situação extremamente vulnerável, muitos são obrigados a trabalhar por salários bem abaixo do mínimo em condições muito desfavoráveis porque recebem ameaças dos empregadores. Em 2006 Paul Hunt, relator da ONU fez críticas severas ao governo sueco por não satizfazer o direito universal à saúde. A conclusão dele foi de que a legislacão sueca estava entre as mais restritivas da União Européia desobedecendo inclusive a Declaração Universal dos Direitos Humanos que prevê o direito universal ao melhor tratamento médico possível. Muitos governos locais na Suécia estão insatisfeitos com as leis federais,  tanto que nove províncias suecas resolveram aumentar as possibilidades de acesso ao sistema de saúde para imigrantes iligais e refugiados.

- Eu tenho vergonha de ser sueca, nesse país não existem mais direitos humanos para refugiados, diz Anita. Ela considera inaceitável o fato de que depois de 13 anos as clinícas secretas ainda precisem existir. Segundo Anita muitos refugiados e imigrantes ilegais tem uma vida pior que animais de estimação em lares suecos.

Mesmo fazendo um trabalho extremamente necessário e ajudando centenas de pessoas Anita sempre recebeu muitas críticas e insultos. Anita chegou a receber um caixão pelos correios e além de receber muitas ligações anônimas em que era chamada de “amante dos refugiados”. Ela conta que um dia recebeu uma ligação de Bert Karlsson, fundador do partido político Ny Demokrati e também magnata da cafonisse (c?) (ele fez uma considerável fortuna produzindo música brega sueca) que entre gritos perguntou se ela trababalhava para o Departamento de Imigração, ao que ela respondeu: “não, mas provavelmente contra”.

Explicando:

“sem-papéis” ou ilegais são aquelas pessoas que entraram na Suécia sem se registrar no sisteme. Na prática essas pessoas não existem porque não tem um número de identidade sueco.

Refugiados são pessoas que solicitaram asilo político às autoridade suecas, tiveram seu pedido negado e decidiram permanecer no país ilegalmente.

Fontes:
Fokus
Metro

O universo só pode estar conspirando contra mim

É a única explicação! Acho que eu vou parar de estudar e procurar emprego de motorista do metro. Que vocês tão pensando: não ganha mal, não precisa pagar transporte, pode xingar as pessoas, dá pra ficar escutando música. As vantagens não param…

Sim porque tentar estudar nesse país está se tornando um desafio. Hoje recebi a lista dos supervisores da dissertação. Eu estava o tempo todo pensando: pode ser qualquer um menos o Fulansson (fulando em sueco), qualquer um menos ele. Dito e feito: Fulansson será meu orientador. Ele acabou de acabar o doutorado, ele não é um bom professor (ser um bom pesquisador e ser um bom professor são coisas muito diferentes), ele não tá nem aí para os alunos e no topo de tudo isso o agravante de que não da para entender o que ele fala.

Agora eu estou aqui pensando o que eu faço: bom já perguntei qual foi o critério de atribuição de supervisores porque tinha outra professora que seria bem mais adequada.

Nesse meio tempo vou dar uma olhada no site da empresa de transporte, quem sabe eles estão precisando de motoristas para o metro.

Tentando aprender sueco – apesar dos professores

Dizem as lendas e pesquisas que aprender uma língua depois de uma certa idade já não é tão fácil eu não sei se concordo, acho que depende muito dos métodos de ensino, da vontade do cidadão e do esforço que colocamos na tarefa.  Eu não acho que sueco seja mais fácil ou mais díficil do que as outras línguas que estudei, tem coisas que são mais fáceis e coisas que são mais difíceis, mas no frigir dos ovos dá na mesma. O problema são os métodos – ou a falta de – de ensino de sueco como língua estrangeira.

Primeiro precisamos reconhecer que não é muita gente que quer aprender sueco como língua estrangeira, comprarando com inglês e espanhol por exemplo. Eu “guesstimo” que a grande maioria das pessoas que estuda sueco como língua estrangeira o faz porque mora aqui e precisa falar a língua. Logo não há uma grande demanda para que se desenvolvam métodos modernos para ensinar a língua. E quem sofre são os alunos.

Desenhando: esse curso que estou fazendo (que é o último nível de sueco como língua estrangeira) se divide em quatro disciplinas: sueco oral, redação e duas outras muito inúteis que eu tenho vontade de chorar por perder meu temo estudando que são projeto – nós temos que fazer um pseudo (bem pseudo mesmo) projeto de pesquisa e algo que equivale à Educação Moral e Cívica (chama-se Realia em sueco), lembram? Acho quem fez o ensino fundamental na década de 80 deve lembrar. Nessa aula somos domesticados em cultura sueca. O professor de projeto e Educação Moral e Cívica é o mesmo e ele parou na década de 60. E a prova é daquelas de vomitar o livro pelas mãos, mais ou menos como as minhas provas de história da 7a série, quando eu precisava explicar a divisão das capitanias hereditárias. Eu tenho provas de que ele dá as mesmas aulas há 4 anos, mas acredito que seja muito mais. A aula de redação é uma brincadeira, primeiro porque é uma aula de como escrever, não de como escrever EM SUECO. E o método da professora é o seguinte, nós escrevemos os textos, ela corrige muito mal corrigido e depois nos sentamos com o coleguinha ao lado e tentamos ajudar um ao outro a melhorar seu texto. Se é assim, para que professor? Eu podia muito bem me encontrar com meus colegas uma vez por semana e discutir sobre os nossos textos. Já o foco da aula de sueco oral é desenvolver a importantíssima habilidade de falar em público, lemos textos sobre retórica, aprendemos como estruturar um discurso, apresentamos discursos, uma maravilha. Agora, quando eu terei a oportunidade de fazer um discurso em sueco eu não sei. Talvez quando eu receber algum prêmio nobel, for eleita para algum cargo político, que são coisas que realmente estão nos meus planos.

O que mais me irrita nisso tudo é que os professores ficam tentando impor a agenda deles: o que ler, que partes da cultura são importantes; quando o que eu quero é apenas aprender a língua de tal maneira que eu possa me comunicar de maneira eficaz. Que livros ler e a maneira como eu vou entender a sociedade e a cultura eu me reservo o direito de escolher de acordo com a MINHA agenda. Outra coisa que me irrita é que salvo algumas exceções os professores nos tratam como se tivéssemos 10 anos

Para não dizer que todos os professores são ruins, em quase dois anos eu tive duas professoras boas, nenhuma delas sueca. A primeira foi no Swedish For Idiots, ela era alemã e a segunda foi a professora de gramática nesse curso da universidade que é finlandesa.

Como eu consegui aprender sueco?

Apesar dos professores eu até que consigo me virar no sueco, falo, leio, escrevo é óbvio que saem erros, mas eu me preocupo bastante em evitá-los. Para mim o mélhor método para aprender uma língua estrangeira é lendo porque eu adoro ler dai eu fico prestando atenção nas palavras, como elas podem ser usadas, expressões e até mesmo gramática. Estou muito satisfeita porque estou conseguindo ler uma quantidade razoável de ficção, levando-se em conta as 150-200 páginas que preciso ler por semana para o mestrado. O último livro que li foi Fågelbovägen 32 da Sarah Kadelfors, li em menos de uma semana e gostei bastante. Agora estou lendo Den vindunderliga kärlekens historian que está bem promissor. Também comprei alguns livros do Chomsky e um do John Pilger em sueco e quero começar a ler logo.

Como a pronúncia do sueco é bem peculiar – a sílaba tônica de uma palavra pode mudar de lugar, por exemplo – eu procuro assistir TV e  ouvir rádio sempre que dá. Um dos meus programas sérios favoritos chama-se Uppdrag Granskning, do qual ja falei aqui, e passa na SVT1, é um programa de jornalismo investigativo. No ramo mais trash, eu gosto de assistir programas de decoração (Room Service no Canal 5, Design Simon e Thomas no Canal 3) e alguns de culinária principalmente Vad blir det för mat (Qual vai ser a comida?) no canal 4+.

Leia mais sobre as minhas aventuras aprendendo sueco aqui, aqui e aqui

I say tomato you say tomeito

Hoje meus olhos foram maiores que a barriga e eu servi mais do que consegui comer. Resultado: precisei jogar comida fora. 

Ao ver o desperdício, Nicklas disse:

- Pense nas crianças da África que não tem o que comer, era o que minha mãe costumava dizer.

Eu tive que responder:

- Já eu não precisava ir tão longe com o pensamento…

Caixas e mais caixas

Passaremos o fim-de-semana encaioxotando coisas aqui em casa em preparação para a mudança no próximo sábado. Queremos realizar uma operação organizada e eficiente como foi nossa mudança para Estocolmo há um ano. Já recrutamos ajudantes e elaboramos um cronograma de atividades. O bom é que dessa vez o apartamento fica a 5 minutos de carro de onde moramos agora.

Semana que vem tem a nossa nano-blogagem do dia do trabalho. Ano que vem quero ver se organizo mais e arrecado mais uns participantes.

Enquanto isso até o final de maio preciso escrever:

2 trabalhos 1trabalho atrasado de metodologia de pesquisa

1 trabalho de redação em sueco

1 trabalho de Filosofia e ética na pesquisa (para teça-feira)

1 redação em sueco (para segunda-feira, acho que vou matar aula)

2 trabalhos de expressão oral em sueco para compensar 2 aulas que eu perdi.

1 Relatório de um projeto piloto para o mestrado (eu fiz uma pequena falcatrua e usei minha dissertação do mestrado em Londres)

2 trabalhos muito idiotas de Estudos Sociais em sueco, um em grupo, um individual.

uns 3 textos para o site da conferência da IAMCR

Fora isso, no final de maio e inicio de junho eu tenho provas de redação e interpretação de textos, gramática e uma prova oral em sueco. Acho que vou tentar um truque que vi no Desperate Housewives : as mães tomavam os remédios para ADHD dos filhos e ficavam ligadonas, o que lhes permitia gerenciar a casa com maestria, cuidar dos rebentos e produzir a apresentação de fim de ano da escola. O único problema é que eu não conheço ninguém com ADHD para roubar umas pílulas mágicas.

Cadê?

Aqui na Suécia as coisas funcionam, em geral, de maneira organizada. Eu ouço buzinas pouquíssimas vezes. A lavanderia do prédio funciona bem, todo mundo marca sua hora, lava sua roupa e deixa o local livre e limpo para o próximo.

Eu disse no geral, porque no particular as coisas de vez em quando complicam. Eu estava reunindo meus documentos escolares para me inscrever para um curso. Eis que percebo que falta 1 página na tradução de uns dos meus históricos escolares. Daí eu pensei cá com meus botões, quando a mesma coisa aconteceu em Londres, eu fui na secretaria da faculdade e pedi para tirar uma cópia, pois eles tinham todos os meus documentos que foram enviados quando eu me candidatei para o mestrado. Eles ainda carimbaram as cópias e deram uma declaração dizendo que eles tinham os originais e que aquela era uma cópia legítima. Mais ou menos como uma autenticação.

Seguindo o mesmo raciocínio, mandei um email perguntando se eu podia tirar uma cópia dos meus documentos para a coordenadora do meu curso, que sugeriu que eu falasse com a secretaria, o que eu imediatamente fiz. Hoje a secretária do curso me escreve dizendo que falou com a ex-coordenadora do curso que por sua vez disse que se eu tenho pressa talvez seja melhor conseguir o documento de outra forma.

Agora a pergunta é, o que eles fizeram com meus documentos? Porque se era por uma questão de espaço, eles poderiam ter me devolvido depois de terem constatado que eu preenchia os requisitos para o curso.

Será que é mal das faculdades de comunicação? Porque os outros departamentos com quais eu tenho contato na Universidade de Estocolmo parecem ser bem organizados e em Londres eu estudei no departamento de Sociologia.

Agora eu estou pensando em quais serão as consequências de enviar meus documentos com uma página da tradução de um histórico faltando….

Bem feito para mim, se tivesse cuidado melhor dos meus papéis…

Humpf!

Tem muitas coisas que eu gosto muito na universidade aqui na Suécia, mas tem uma que eu ODEIO: o fato de que somos praticamente obrigados a comprar livros. Não, eu não tenho nada contra comprar livros, muito pelo contrário, eu trabalhei numa livraria principalmente para poder comprar livros com 35% de desconto. O problema é ter que comprar um livro do qual eu só vou mesmo usar alguns capítulos. Ou, como é o caso no momento, comprar um livro de 300 coroas (+ou- 80 reais) que eu vou usar apenas por duas aulas. Livros acadêmicos são caros, porque não são impressas muitas cópias, ao contrário dos Paulo Coelho da vida. Eu não acho isso certo, mas é a realidade. Sendo assim, eu prefiro comprar aqueles que me serão úteis como referência e não livros que eu vou usar por 1 ou 2 meses e depois largar na estante para pegar poeira.

No Brasil o xerox rolava solto, aqui até que rola, mas as vezes leva semanas para conseguir o livro na biblioteca. Na universidade em Londres os professores diziam para não comprarmos os livros e até que tinha um bom número de exemplares na biblioteca. Tudo bem, em Londres eu tinha que pagar pelo meu curso e aqui eu não preciso. Eu acho que o raciocínio por trás disso é que aqui na Suécia os estudantes geralmente recebem algum tipo de ajuda do governo. Geralmente, mas não sempre. Paola Madrid Sartoretto, por exemplo, não recebe nenhuma coroa. Mesmo se recebesse, odiando desperdício como eu odeio, acho que ainda ia reclamar de ter que comprar livros caros que para mim não valem o seu preço.

E tenho dito. Votem em mim na próxima eleição (só não sei para que…)

P.S. Tem uma coisa que me causa muita inveja: entrar nos escritórios dos meus professores e ver as paredes CHEIAS de livros. A minha inveja quase me deixa sem fala.

O X da questão

Domingo, depois de um mês de pausa, a minha assinatura do jornal voltou. Eu ganho a assinatura da faculdade, então eles precisavam registrar que eu paguei o equivalente sueco ao Diretório Acadêmico. Voltou em tempo de eu ler sobre o debate envolvendo reformas propostas para o SFI (Svenska för invandrare) o curso de língua sueca e “intrudução à sociedade” que é oferecido a todos os imigrantes com visto de residência e trabalho.

O que acontece é que, segundo a aliança governista, o curso precisa ser reestruturado. Eles alegam que muita gente usa o curso como fonte de sustento – através da ajuda de custo oferecida a refugiados – e fica estudando o beabá em sueco por aaaaanos a fio. As propostas, elaboradas em conjunto pelos ministérios da Educação e Integração, incluem um limite de três anos para que o aluno termine o SFI, um bonus para aqueles que terminarem o curso em pouco tempo, mais fiscalização nas escolas e treinamento para os professores.

O problema é que essas propostas não foram muito bem aceitas entre os professores e diretores de escolas. Eles acham que o foco dos parlamentares está no lugar errado. Segundo eles, o foco deveria ser em melhorar a qualidade do ensino e oferecer treinamento aos professores. O X da questão não é que as pessoas demoram muito para terminar o SFI, mas sim que muitos desistem da escola sem terminar o curso. Jakob Thunell, diretor de uma escola em Södertalje, na região metropolitanana de Estocolmo, diz que não reconhece o quadro pintado pelos governantes, de estudantes que permanecem no SFI por tempo ilimitado; pelo contrário, ele diz que muitos pedem para fazer a prova para terminar o curso, mesmo não estando prontos.

Outro ponto salientado por professores e diretores de escolas é a diferença de background entre os alunos. Segundo estimativas do governo, 23% dos alunos têm até seis anos de escola em seus países de origem, alguns são analfabetos e, obviamente, precisam primeiro ser alfabetizados para depois aprender a língua.

De minha parte, eu tendo a concordar com os professores e diretores de escola. Eles trabalham todos os dias com o ensino de sueco e provavelmente têm muito mais conhecimento de causa do que os políticos que recebem relatórios prontos de seus assessores, provavelmente sem nunca ter pisado numa dessas escolas. Eu tive uma experiência ótima e uma péssima com o SFI e acho que a qualidade do ensino realmente fez muita diferença na motivação que eu tinha para estudar. Quanto às pessoas usarem o SFI como fonte de sustento, eu acredito que existem casos, mas não é a regra. A grande maioria dos meus colegas queria terminar o curso para poder ir adiante na vida: fazer um curso universitário, encontrar um emprego e principalmente se incluir na sociedade. Mas, quando as coisas não vão bem é muito fácil colocar a culpa na parte mais fraca: os imigrantes, principalmente refugiados que “só querem saber de mamar nas tetas do governo”, afinal de contas, nem votar eles votam!

Adestramento de pessoas: AQUI

Depois de duas semanas correndo de um lado para o outro pela cidade, hoje deu para ficar o dia inteiro em casa. Não tive aula no curso de sueco nem no mestrado, e como é carnaval no Brasil, também nao fui trabalhar.  Nessas duas semanas que passaram eu fui uma das melhores clientes da SL (companhia de transporte urbano de Estocolmo), peguei inúmeros trens e onibus por dia, para ir da universidade 1 para a universidade 2 e da universidade 2 para o trabalho. A universidade 1 e a 2 são a mesma universidade, o que acontece é que a Faculdade de Jornalismo e Comunicação fica no centro da cidade e nao no campus onde é o meu curso de sueco. Super conveniente!

Por falar no curso de sueco, ele vai muito bem. Tirando os professores que acham que estão adestrando cachorros e se esquecem de que estão ensinando seres humanos. Isso é uma coisa que me irrita muito, desde que comecei a estudar sueco, o tempo DESPERDIÇADO  em discutir estereótipos (“o sistema penintenciário da Suécia é uma colônia de férias”; sexismo no ambiente de trabalho; quais são as tarefas consideradas masculinas e quais são as tarefas consideradas “femininas”; e por aí vai) porque eles têm que preparar os imigrantes semi-civilizados para viver nessa sociedade democrática-iguálitaria-inclusiva-justa e tudo mais. Não que eu ache que a sociedade sueca não é todas essas coisas ou que esses assuntos não devem ser tratados em aula, mas isso poderia ser feito de uma forma menos “aqui-homem-lava-louça-e-cozinha-e-a-mulher-trabalha-fora”. Eu já estudei inglês e italiano e não me lembro de ter passado horas discutindo sobre se os ingleses vão muito ao pub ou se os italianos falam muito alto. Durante os cursos eu li sobre a história e costumes dos dois países, porque são interessantes e porque é um jeito divertido de aprender a língua. Agora, ficar batendo na mesma tecla do aqui é todo mundo igual e não converse com as pessoas no metro, pelamordedeus, haja saco.

Para aumentar ainda a minha antipatia com professores que acham que nós somos retardados, na aula de expressão oral nós tivemos que apresentar para a turma três pontos importantes do livro que estamos lendo. É óbvio que todo mundo gaguejou, ficou pensando nas palavras, ninguém na turma fala sueco fluente. Só que eu acho que o professor não entendeu isso e saiu com uma palestra sobre como falar em público, com direito a exercícios de respiração e um tal de ficar repetindo aaaa – mmmmm- uuuuuu. E eu lá pensando se falava ou não para ele que eu quero aprender a falar sueco, não aprender a falar em público que nisso até que eu me viro, contanto que seja numa língua que eu domino.

Bom, mas agora chega de reclamação, porque os exercícios de sueco me esperam.

Voltei

Nossa, passei tanto tempo sem escrever um post decente que agora os meus 10 leitores devem ter diminuído para 2. Mas a vida tem sido um pouco atribulada do lado de cá. Durante as ¨férias¨precisei fazer um trabalho para o mestrado. Trabalho esse muito chato e inútil, devo dizer. Eu fico boquiberta com a incapacidade de uma das minhas professoras de se expressar por escrito numa maneira pelo menos semi-inteligível. Mas enfim, o trabalho foi entregue.

Semana passada minhas aulas no mestrado começaram e parece que dessa vez eu vou, finalmente, ter um curso de metodologia de pesquisa que preste. Tem muita coisa para ler, mais ou menos 120 páginas por semana, mas acho que vai valer à pena. O lado ruim é que acho que vou levar vários meses para terminar The Shock Doctrine e eu estou com God Delusion que ganhei de Natal esperando para ser lido. Acho que ele vai ter que esperar bastante.
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A outra coisa legal é que passei para o curso de sueco na Universidade de Estocolmo. Eu tinha comentado aqui sobre a prova. Eu fiquei em segundo lugar na lista de espera para o curso e acabei conseguindo uma vaga. Não tinha comentado antes, porque sabem como é, tem muito olho gordo por aí. E além do mais, não gosto muito de ficar falando das coisas antes que elas aconteçam, pois como diz a minha mãe, não se deve contar com o ovo no c* da galinha. Mas enfim, comecei o curso terça-feira. Esse é um curso de sueco como língua estrangeira (Svenska som främmande språk) e temos aula de gramática, sueco oral, redação e algo como estudos sociais. Até agora tive aula de gramática e adorei a professora e de redação, achei o professor um pouco pedante. O curso parece muito mais sério do que o “Swedish for Idiots” que eu estava estudando. Nas aulas de redação e sueco oral as turmas são de 20 pessoas, o que ajuda bastante.

Mais uma coisa legal é que eu comecei a trabalhar!!!! Bom, o trabalho será apenas por um mês, mas qualquer coisa aqui na Suécia já é ótimo. O negócio é o seguinte: o presidente dessa que promove cursos de treinamento técnico para profissionais de telecomunicações vai para o Brasil em fevereiro para fazer contatos com possíveis clientes. O que eu tenho que fazer é ligar para varias empresas de telecomunicações e tentar agendar reuniões com eles. Chato, mas melhor do que nada. Mas o que eu achei realmente estranho foi a confiança que eles têm nas pessoas: no segundo dia eu fiquei sozinha no trabalho (por causa do fuso eu fico até as 7-8 horas) e eles me deixaram lá, com a chave do escritório, vários computadores, telefones celulares, o escambau. Além disso, depois de ter trabalhado 5 anos na Inglaterra eu confesso que é meio estranho não ter Health and Safety Training. Eu não tenho idéia de onde as saídas de emergência são, não sei para onde ir se o prédio tiver que ser evaculado. Ainda mais preocupante é o fato de que eu não sei o que fazer se receber uma ligação de alguém dizendo que colocou uma bomba no prédio.
E além de tudo isso, eu não vi nenhuma câmera de CCTV. E olhem que eu procurei.

Eu ainda não sei se fiquei aliviada ou se o meu senso de normalidade foi tão distorcido que eu acho que não ser filmada 300 vezes por dia é anormal…

A interessante experiência de ler o jornal

Ontem, no caminho para o centro peguei um dos jornais distribuidos gratuitamente para ler. Foi uma experiência, digamos, interessante. A manchete era sobre um a quadrilha de latino-americanos sul- americanos que roubam as casas no sul de Estocolmo, onde moro. Até ai tudo bem, crime e primeira página de jornal sempre combinaram como arroz e feijão. Entretanto, eu achei engraçado eles se referirem aos ladrões como latino-americanos sul-americanos . Segundo a Wikipédia, a América Latina engloba 22 países. Como Nicklas argumentou, é mesma coisa que dizer uma quadrilha européia, não esclarece nada, os ladrões podem ser croatas, alemães, poloneses, suíços… Mas não para por aí, pois o jornal também afirma que os membros da quadrilha tinham “aparência latino- sul-americana”. Alguém pode me dizer que aparência é essa, pois se eu penso nos (as) latinos (as) que conheço de vários dos 22 países, eles tem várias aparências. Fazia tempo que eu não via algo de tamanha ignorância publicado num jornal (sem contar aquela revista semanal brasileira, cujo nome é sinônimo de olhe). Eu aceito que uma das minhas colegas no curso de sueco diga que eu não pareço brasileira, porque sou muito clara, afinal o cidadão comum não tem obrigação de ter um vasto conhecimento sobre o Brasil. Eu também, até bem pouco tempo, não sabia muito sobre o Curdistão, de onde ela vem. Só fiquei sabendo mais porque tive uma colega austríaca, mas de origem curda, no mestrado em Londres. Ela estava pesquisando sobre a diáspora dos Curdos e me contou várias coisas sobre essa parte do mundo. Mas um jornal, na minha humilde opinião, deveria ter um pouco mais de cuidado com uso da palavra escrita. Não interessa se é um jornal grátis. Jornalistas, repórteres, editores, não precisam ser experts em américa-latina (ou américa do sul) , mas poderiam pensar um pouquinho mais e procurar informações (coisa em que eles deveriam ser peritos) para não escrever tamanha burrice.

Mais adiante no mesmo jornal, uma publicidade me chamou atenção. Era um anúncio de uma página da Svenskt Näringsliv, algo como Confederação das Empresas Suecas. Esse anúncio, com o título “A fábula da moça que comprou muito pouco”, contava, de forma literária, a estória de uma moça que no Natal sempre comprava várias coisas: presentes, decorações, comidas fazendo a felicidade do dono da loja, que assim podia manter seu negócio, pagar seus funcionários, etc. Mas, tudo mudou quando a moça leu artigos dos cruéis articulistas, que diziam que as pessoas estão comprando demais, que isso é ruim para o meio ambiente além de alimentar um sistema exploratório. Os articulistas diabólicos pediam que as pessoas comprassem menos, fizessem seus presentes, etc. E a moça (e mais um monte de gente) ouviu os articulistas e decidiu comprar menos. E isso teve sérias consequências: o dono da loja precisou fechar seu negócio, seus fornecedores tiveram que demitir funcionários porque o consumo diminuiu e a moça do título teve um natal muito chato. Tudo isso porque ela não comprou o suficiente.

Tudo bem, eu defendo a liberdade de expressão (até mesmo dos neonazis) mas isso é um insulto à inteligência das pessoas. Primeiro essa linguagem de estória infantil forçou a barra. Segundo, são exatamente pequenos negócios, como o da fábula, que sofrem com a expansão das grandes corporações. Terceiro, a maioria dos movimentos e organizações que tentam propor alternativas ao nosso modo de vida extremamente nocivo ao ambiente defendem o consumo em negócios locais, como o caso da propaganda. Na verdade, quando eu li o anúncio eu não sabia se dava risada da idéia totalmente equivocada que a agência de publicidade teve, ou se me irritava com a maneira como eles distorceram a realidade.

Depois dessa, eu parei de ler o jornal, tinha chegado na minha estação.

Ao contrário da moça que comprou muito pouco, eu acho que comprei o necessário, comprei de lojas pequenas (onde o atendimento geralmente é muiiiito melhor) e a maioria das embalagens eram recicláveis. Acho que o meu Natal não vai ser chato como o da moça que comprou muito pouco.

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Atenção

Eu moro na Suécia mas não sou agência de turismo, intercâmbio nem trabalho no consulado brasileiro, então não me peça informações sobre morar aqui, aprender a língua, estudar, etc, para essas coisas existe o Google e foi googlando que eu achei 99% das informações que precisava para morar aqui. Na página de links tem vários sites com informações úteis sobre morar na Suécia e Inglaterra.

 

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