No post anterior falamos sobre expatriados reclamões, tem vários comentários interessantes então se você está chegando agora sugiro que os leia também. Eu acho que reclamar pode ser produtivo, dependendo da maneira como o fazemos. Esse post conta a história de uma briga que eu comprei aqui na Suécia porque achei que valia à pena. Os fatos se desenrolaram durante o final do ano passado e primeiro semestre desse ano.
Até janeiro do ano passado eu fazia um curso samado Svenska som främmande språk (sueco como língua estrangeira) na Universidade de Estocolmo. Esse curso era dividido em quatro disciplinas, Sueco oral, escrito, Realia (um tipo de Educação Moral e Cívica em sueco) e Projeto, essa última disciplina tinha como objetivo nos ensinar a fazer um projeto de pesquisa.
Sinceramente, se fosse possível eu trocava a aula de projeto por mais um semestre de gramática, que tive no primeiro semestre do curso com uma professora ótima, porque depois de duas graduações e dotois mestrados eu mais ou menos sei como fazer um projeto de pesquisa. Mas, como essa não era uma opção, fiz a matéria e, consequentemente, o projeto em grupo com mais três colegas.
Tudo correu bem, por incrível que pareça considerando que o trabalho era em grupo (correu tão bem que mantive o grupo com uma das colegas que fez o próximo curso comigo), fizemos nosso trabalho e entregamos a primeira versão para o professor. Ele sugeriu algumas correções e alterações e disse que no geral o trabalho estava bom.
No último dia de aula teríamos que apresentar o trabalho. Apresentamos, nossa apresentação recebeu alguns elogios dos outros colegas, mas quando chegou a hora de o professor fazer seu comentário, ele encheu o trabalho de defeitos, disse que nós usamos uma linguagem estranha, que nós escrevemos como falamos e que o trabalho tinha muitas estatísticas (detalhe: era uma pesquisa quantitativa). Uma das críticas que ele fez era o fato de termos usado a palavra mottagare que significa receptor significando isso mesmo, o receptor da comunicação, sabem, emissor e receptor, ele disse que a palavra era usada antigamente significando rádio, assim como usamos em português. O interessante foi que em uma aula do curso seguinte outro professor usou exatamente a mesma palavra com o mesmíssimo significado que tínhamos usado no nosso trabalho.
Mas não foi só isso não, no final da aula o professor resolveu fazer uma avaliação geral da turma. E aí veio a aula de didática. Ele disse que depois de termos estudado sueco pelo tempo que estudamos, já deveríamos falar bem melhor, que nós não estávamos preparados para fazer um curso universitário em sueco e que se ele fosse um empregador, não nos contrataria por que não falávamos sueco suficientemente bem. E olha que essa era a última aula de um curso que deve preparar os alunos para um curso universitário em sueco.
Eu fiquei tão indignada que resolvi escrever uma carta para o DCE universidade (aqui se chama studentkår) relatando o que aconteceu, junto com uma das minhas colegas de grupo, que estava tão indignada quanto eu. Mandamos o email e depois de uns dias recebemos a resposta de uma moça chamada Eva, que nos deu algumas opções de passos que poderíamos seguir a partir da nossa reclamação. Nós falamos que não estávamos interessadas em revisão de notas, nós tínhamos passado e isso era o que interessava. No entanto, queríamos que o professor ficasse sabendo que o comportamento dele não foi apreciado. A Eva nos escreveu de volta e sugeriu que marcássemos um encontro com ela, o professro em questão e a chefe do departamento para discutir o problema. Ela então escreveu para a chefe do departamento, explicando o acontecido e pedindo para marcar o tal encontro.
…. (tempo passando)
Meses se passaram e nada aconteceu. Lá por abril eu recebo um email da Eva dizendo que ela estava fazendo o relatório de fim de semestre, com todos os casos que ela tinha acompanhado e queria saber se nosso caso teve algum desfecho. Eu disse que não, e que tinha ficado decepcionada, porque isso para mim mostrava que o departamento não está nem aí para o que os alunos pensam. Ela me respondeu e disse que achava muito estranho, porque nós não pedimos revisão de prova nem nada, apenas queríamos conversar e disse que iria escrever novamente para a chefe do departamento. Dito e feito. A chefe que daí ja era ex-chefe repassou o email para o atual chefe que pediu desculpas, disse que estava se acomodando na nova função, que tinha muitas coisas para resolver e que nosso caso tinha ficado para trás, mas que nossa reclamação era importante e que iríamos marcar um encontro.
Encontro marcado, vamos eu e a minha colega primeiro conversar com a Eva que nos disse que não era a primeira vez que acontecia esse tipo de problema nos cursos de sueco como língua estrangeira e que foi muito bom que nós tivéssemos escrito a carta e tal.
Durante o encontro nós falamos, falamos e falamos, perguntamos porque o professor não fez as críticas que ele tinha feito quando entregamos o trabalho para revisão e criticamos a maneira como ele se expressou diante da turma. A Eva falou para ele que aprender uma língua estrangeira depende muito de auto-confiança e por isso falar que não nos empregaria porque não falamos bem a língua não ajuda muito no aprendizado. Mas o melhor mesmo foi quando ela disse que queria ver as avaliações do curso, preenchidas pelos alunos no fim de cada semestre e ele ficou enrolando, porque eu acho que as avaliações não devem ser tão boas. Esse professor – que é tudo o que um bom professor não deve ser – só n0s pediu desculpas quando o chefe do departamento disse que ele, o professor, não tinha se expressado da maneira mais adequada.
No fim das contas, eu acho que valeu à pena ter reclamado. Esse professor deve pensar que os alunos estrangeiros não conhecem os canais para reclamar e por isso abusou de sua autoridade. Eu espero que agora ele pense melhor quando for fazer suas “avaliações”. Para esse tipo de reclamação eu dou o maior apoio.












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