Durante a semana passada o diário sueco Dagens Nyheter publicou uma série de reportagens escritas pelo jornalista e escritor Maciej Zaremba, que é polonês naturalizado sueco e chegou aqui desde 1969, com 18 anos fugindo das perseguições aos judeus na Polônia. A série se chama “I väntan på Sverige” (à espera da Suécia), nela o autor discute a integração de imigrantes sob vários pontos de vista. Ele fala sobre multiculturalismo, nacionalismo, sobre a burocracia sueca encontrada por refugiados e asilados e sobre aprender sueco. Em linhas gerais ele discute porque é tão difícil para imigrantes se integrarem à sociedade sueca.
Imigração e integração são assuntos que dão pano para manga aqui na Europa. Muitos países do velho continente que por muito tempo tiveram populações etnicamente homogêneas ou em que um grupo conseguiu por décadas manter uma certa dominancia cultural e política estão tendo vários valores questionados por imigrantes ou minorias que podem ser pequenas, mas não são nem um pouco submissas. Uma questão que é recorrende nessas discussões é: quem precisa se adaptar a quem?
Apesar de o autor usar quase só exemplos particulares para ilustrar o geral e apresentar bem poucos dados que comprovem que a realidade daquelas pessoas que ele descreveu é reprensentativa do todo, em muitos pontos eu pude me identificar com o que ele escreveu. Nos primeiros textos ele fala sobre o ensino de sueco e como ele NÃO corresponde à necessidade da maioria dos alunos. Para mim isso não é novidade. Uma coisa que não aconteceu comigo, mas que eu sei que não é raro principalmente em cidades pequenas aqui na Suécia (aconteceu com algumas pessoas que eu conheço), é abrirem turmas em que juntam gente que é analfabeto em sua língua materna com outros que terminaram a faculdade. Não estou querendo dizer que ninguém é melhor que ninguém, mas acho que são grupos com necessidades diferentes.
Daí passamos ao conteúdo dos livros que tratam imigrantes e suecos de uma forma tão estereotipada que chega a ser quase cômico. Se não fosse trágico. Nos livros de sueco Ali e Fatima estão sempre esperando cartas da imigração ou falando com com o funcionário do órgão que deveria ajudar as pessoas a encontrarem empregos. E é óbvio que o funcionário ou funcionária sempre tem um nome sueco. Ah, também acontece de Zeinab e Juan procurarem emprego, que geralmente é como cozinheiro (a), ajudande em creches ou operário (a) de fábrica. Novamente, nada contra esses empregos, mas será que todos os imigrantes querem seguir essas carreiras ou todos os suecos querem exercer profissões de nível universitário?
Outra coisa é a tonelada de coisas inúteis que precisamos engolir quando o que queremos é apenas dominar uma língua. Por que eu preciso conhecer clássicos da música sueca do século XVIII? Por que eu preciso ler livros do século XIX escritos em de uma maneira que não se escreve nem fala mais hoje em dia? Como eu já disse em outro post, eu quero aprender a língua e depois decidir de acordo com a MINHA agenda que livros eu vou ler e que tipo de música eu vou escutar.
Adestramento
O autor também fala da idéia que parece permear a burocracia sueca de que nós (sim nós, eu também sou imigrante assim como você que está aí lendo e mora na Suécia, não apenas árabes, somalis e iraquianos) precisamos primeiro aprender a viver na sociedade sueca, antes de qualquer coisa. Sim porque no mundo lá fora TUDO funciona diferente e se nós não aprendermos como as coisas funcionam AQUI, nunca conseguiremos nos integrar. Eu não acho que isso seja racismo, talvez um pouco de preconceito, somado à ignorância com uma pitada de inocência e falta de conhecimento do mundo lá fora, aquele para além da costa leste do país. É essa mistura que faz com que, por exemplo, a Ju quase fosse impedida de entrar no segundo nível de um curso de francês na Universidade de Estocolmo, mesmo tendo estudado francês na França, porque dã, ela não fez o primeiro nível na Universidade de Estocolmo. E qualquer que seja o Francês que eles ensinam lá na França é óbvio que não é a mesma coisa que ensinam aqui.
Numa das respostas à série de reportagem – que teve muitas respostas, hoje o jornal publicou duas páginas só com respostas – uma professora sueca aposentada diz que ajudou um professor polonês com 15 anos de experiência a escrever uma monografia para poder ter licença para dar aula aqui na Suécia. Ela conclui com uma certa ironia
Ele será certamente um professor muito melhor depois de escrever 30 páginas sobre como se ensina, não é mesmo?
Outra leitora do jornal diz o seguinte
Eu fiz parte de uma revolução, estudei em três países e falo quatro línguas. Mas isso não é nenhum mérito na Suécia, o que conta é ser sueco, falar como sueco, se comportar como sueco, pensar como sueco.
Esse mesmo preconceito, misturado à inocência, ignorância e ao gosto por tudo o que já é conhecido e claro como água constrói o muro que separa muitos imigrantes do mercado de trabalho. Segundo Maciej Zaremba muitos suecos são selecionados para empregos no lugar de imigrantes porque
Vão rir das mesmas piadas, não vão dar uma opinão que não seja fundamentada, não vão falar de livros que os outros não conheçam, não vão interromper quem está falando, vão compreender exatamente o que sigfica dizer que Olsson “é meio especial”*.
Por isso tudo eu tenho um certo receio de vir a trabalhar num lugar onde eu seja a única estrangeira (isso me lembra do Daffyd, the only gay in the village, personagem do David Walliams em Little Britain). Eu não quero ser o elefante branco no meio da sala. Na Inglaterra eu sempre trabalhei com gente de vários lugares, não tinha olhares estranhos, ninguém se sentia excluído. E todos precisavam, uma vez ou outra, explicar piadas.
A indústria da integração
Num dos artigos da série o autor fala que a integração pode não ter dado certo na Suécia, mas muita gente saiu lucrando. Sim porque o governo está tentando privatizar a integração e começou pelas escolas de sueco. E é obvio que isso significa professores não necessariamente qualificados, ganhando menos e salas de aula cheias. O concurso é para ver quem consegue “educar” mais gente pelo menor preço. O tipo de ensino e aprendizado resultam dessa equação vocês podem imaginar.
Quando eu estava na escola, a minha professora queria que eu fizesse a prova final um mês antes da data que estava marcada porque ela achava que eu estava preparada. Quando ela foi pedir a autorização da diretora da escola (que nunca me viu mais gorda), a diretora disse que eu deveria esperar mais um mês. Eu ja tinha feito outra prova um mês antes da data marcada e acho que a diretora achou que eu não estava dando lucro para a escola, que recebia por aluno/hora-aula.
Identidade escrita na pedra
Nesse debate todo sobre integração, uma coisa que eu não entendo é porque tem gente que pensa que a identidade de uma pessoa está escrita na pedra, não pode mudar.Istoé: se eu sou brasileira não posso aceitar a cultura sueca e valores suecos. Eu acredito que uma coisa nao exclui a outra, que uma pessoa pode se identificar com várias culturas, com várias nações.
Na minha opinião a era de um povo, uma nação, uma cultura já passou.
* Em sueco, quando se diz que uma pessoa é um pouquinho especial isso significa que a pessoa não bate bem, é estranha. Esse é outro exemplo de swenglish. as vezes o Nicklas me falava que ciclano ou beltrano era a little special e eu achava que a pessoa era trilegal, só não entendia por que ele falava que a pessoa era só um pouquinho especial em vez de dizer que a pessoa era bem especial.
por aqui – no ramo das artes, fique bem entendido- estudou lá, como por exemplo Mats Åkerman e 
“Todos nós sabemos que a medicina, os hospitais e psiquiatria tem funcionado historicamente não apenas como mecanismos de apoio, ajuda e cura mas também como um campo para o exercício do poder e disciplina.











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