Arquivo para a categoria 'Minha vida sem baratas'

Sobre o trabalho, a vida e as coisas

Eu sei que eu prometi escrever sobre a cidade onde estou dando aula, Karlstad, o problema é que a minha estada lá se resume a três lugares: o bed and breakfast onde eu “moro” (eu já disse em outro post que em sueco a gente “mora” nos lugares em vez de se hospedar) quando estou lá, a universidade e a estação de trem. Espero que ano que vem eu possa escrever alguma coisa e postar algumas fotos considerando que 1) vou ficar lá de segunda a quarta-feira e 2)adquiri uma máquina fotográfica guaipeca depois que a minha irmã tomou posse da minha ex-câmera. Mas o B&B onde eu moro, Birgitta B&B é ótimo, super recomendo se alguém estiver pelas bandas de Värmland (a província em que Karlstad se localiza). O B&B fica numa área cheia de casas antigas com pomares cheios de macieiras e pereiras e é super aconchegante, o café da manhã é simples (pães, frios, legumes, geleia, cereal, yougurte, leite, suco, café e chá) mas super gostoso, a cama é macia, o banheiro é limpo e melhor de tudo, o preço é camarada – cerca de 80 reais por noite.

Agora sobre a universidade. Esse é sem dúvida o melhor trabalho que eu já tive na vida (espero ainda estar pensando assim em 2 anos) e estou feliz por ter conseguido exatamente o emprego que eu queria considerando ser estrangeira e ter chegado aqui na Suécia a menos de três anos sem nenhum contato ou referência. Ainda não são as condições ideais: nesse semestre eu estou substituindo professores e dando algumas aulas em áreas que eu tenho mais conhecimento (mídia e movimentos sociais, por exemplo), ano que vem eu vou ter um contrato de 30% do tempo e lógico, tem o fato de que Karlstad fica a três horas de trem de Estocolmo, onde eu moro e nós não temos planos de mudar para o interior. Mas para o começo eu acho que está ótimo, estou conhecendo bastante gente, fazendo contatos e descobrindo várias oportunidades.

Contatos é algo que eu descobri ser algo indispensável aqui na Suécia, mais do que em outros lugares, principalmente em áreas profissionais que não são muito amplas por aqui, nas quais todo mundo se conhece. Eu acho que apenas nas faculdades da região metropolitana de Porto Alegre são oferecidas mais vagas para doutorado em mídia e comunicação por ano do que em toda a Suécia, só para dar um exemplo. Logo, conhecer as pessoas certas  é muito importante. A primeira disciplina que eu peguei foi por recomendação de uma antiga professora, como eu já contei, e porque eu estava lá na universidade e acho que eles ficaram satisfeitos com meu trabalho, me ofereceram outras disciplinas.  Eu sempre ouvi por aqui que o mais difícil é colocar o primeiro pé dentro do mercado de trabalho, depois disso as oportunidades surgem, mas não achei que fosse assim tão fácil, depois de já estar dentro. Por isso, eu não me arrependo nem um pouco de ter cursado um segundo mestrado aqui na Suécia pois além de ser de graça e de eu poder receber auxílio do governo durante parte dos meus estudos, se não fosse por ter cursado o mestrado, eu nunca teria conseguido esse emprego na universidade.

Além de eu estar gostando muito de dar aula, de ter contato com os estudantes e aprender bastante com eles eu fiquei positivamente surpresa com a recepção que tive no departamento. Todo mundo tem sido extremamente amigável, sempre que eu cruzo com alguém que eu ainda não conheço a pessoa se apresenta conversa um pouco comigo e tal. Na minha primeira semana, quando não sabia onde nada ficava, precisava de chaves, cartões,senhas e conta de email não faltou gente para me ajudar.

Espero que a minha (ótima) primeira impressão sobre a universidade seja mesmo a que vá ficar!

Bye bye verão

Me dá uma angústia ver o blog às jogado às traças, mas acontece que eu estava ocupada aproveitando o verão. Sim, aproveitar o verão é mais ou menos uma religião por aqui. Na TV só passa porcaria tipo primeiras temporadas de Seventh Heaven e Gilmore Girls porque, hey, quem vai querer ficar sentado em casa assistindo TV quando o sol brilha lá fora até as 11 da noite. A piscina da academia fechou por seis semanas porque quem vai querer nadar na piscina limpinha com tantos lagos cheios de lodo dando sopa por aí. Desculpa gente, eu não gosto mesmo de nadar em lago, açude, rio, porque tenho nojo da lama que fica no fundo. Além do mais não conseguir ver o fundo me dá angústia. E se tiver um animal venenoso lá?

Apesar de eu não gostar de verão tenho que admitir que o verão sueco é bem mais agradável que o verão brasileiro, principalmente o verão no sul do Brasil – muito abafado e úmido – e particularmente em Santa Maria, onde eu morei os últimos seis anos antes de vir para a Europa, onde as folhas das árvores não se mexem, o sol é escaldante e não dá para viver sem ar condicionado. O verão aqui é melhor porque 1) tem vento, 2)à noite refresca bastante e 3) NÃO TEM BARATA.

Mas então, eu resolvi aproveitar o verão, só que não exatamente como os suecos. Não fui acampar, não nadei no lago (motivos já explicados) e não peguei um bronze, nem natural, nem artificial. Eu fiz alguns cursos na universidade, arrumei guarda-roupas, dei coisas, outras vendi no Tradera (Ebay sueco),  remei numa canoa pela primeira vez na vida, peguei um cruzeiro para a Estônia para celebrar a despedida de solteira de uma amiga, comi churrasco de picanha, fiz duas entrevistas de emprego e brinquei com o Umberto que agora já está interagindo bastante.

Mas agora acabou o aproveitamento porque o outono tá ai, piscina da academia reabriu. Os seriados legais tipo Desperate Housewives vão voltar a TV – na verdade eu queria que algum canal passasse Mad Men, mas não sei se vai rolar – e as aulas recomeçaram. Esse outono inicia com uma novidade, eu recebi uma proposta para dar aula na universidade de Karlstad, uma cidade que fica a 350 km de Estocolmo. Completamente out of the blue um professor me escreveu e disse que precisava de alguém para dar aula da disciplina de Global Media e que meu nome tinha sido recomendado a ele por alguns colegas. Minha surpresa foi que a professora que me recomendou – no início eu achei que tivesse sido a minha orientadora porque sei que ela trabalhou com professores dessa universidade – me deu aula no primeiro semestre do mestrado e nem trabalha mais na Universidade de Estocolmo. Fiquei super feliz por ter conseguido esse emprego sem ajuda de ninguém – bom com a ajuda da minha ex-professora, mas ela não me recomendou porque eu sou simpática e querida – sem ser amiga, namorada, esposa, filha, irmã ou prima de ninguém, apenas pela minha competência.

No início eu achei que esse professor que me contratou, sendo o responsável pela disciplina, iria preparar todo o programa e eu só chegaria lá para dar as  aulas, porque afinal de contas ele não  me conhece e eu não tenho experiência. Mas qual não foi a minha surpresa quando ele me pediu opinião sobre o programa, métodos de avaliação e disse que eu poderia escolher os assuntos que quero ensinar e os textos que vou usar. Depois disso a coordenadora do curso me ligou para discutir detalhes práticos tipo, se eu precisasse de livros poderia comprar que depois a universidade me reembolsa e já disse que semestre que vem pode ser que eles precisem de mim para outras disciplinas. Pois bem, nas últimas semanas tenho me dedicado a isso, pesquisar textos, le-los, tentar conter minha vontade de incluir no programa todos os textos interessantes que eu achei para não assustar os probres alunos. Segundo o professor esse é o primeiro curso que eles estão fazendo em inglês, então não dá para exigir muito. Além de agilizar coisas práticas como arrumar onde ficar em Karlstad (minhas aulas são quarta e quinta-feira então só vou ficar lá nesses dias), pesquisar preços de passagens de trem e tentar comprar livros nas livrarias online suecas que insistem em cancelar os meus pedidos.

No mais estou adorando  sair de casa de manhã com um ventinho frio batendo no rosto – ótimo para acordar – que me lembra o vento Minuano que soprava quando ia para a universidade às sete e meia da manhã em Santa Maria.

Umberto

Eu estava planejando escrever um post sobre a semana do orgulho gay que aconteceu semana passada aqui em Estocolmo, também sobre a parada gay, que foi sábado. Mas nada disso aconteceu por um motivo muito especial que se chama Umberto, o gato que nós adotamos.  Não foi nada difícil escolher ele entre os quase 50 gatos que estavam no abrigo, logo que a dona do abrigo abriu a porta do compartimento onde ele estava ele veio brincar conosco. Não dá para chamar o Umberto de gatinho porque ele é bem grande. Nós pegamos ele sexta-feira  passada no abrigo do qual eu falei no post aí embaixo. Daí sábado não fomos na parada porque não queríamos deixar o Umberto sozinho em casa.

Esse é o abrigo onde Umberto morava antes de ser adotado por nós.

Esse é o abrigo onde Umberto morava antes de ser adotado por nós.

Essa é a primeira vez que eu adoto um gato adulto (ele tem mais ou menos 4 anos), eu sempre tive meus felinos desde bebê, então as vezes fico sem saber o que fazer. Sexta-feira ele passou o dia todo embaixo do armário da sala, mas no sábado ele andou pelo apartamento e  brincou um pouco. Domingo ele veio para o sofá enquanto assístiamos TV, a cada dia que passa ele se sente mais à vontade conosco, apesar de que ontem ele me pregou o maior susto e se escondeu dentro do móvel da TV  no meio de fios, DVD, Xbox, etc. Imagina se ele  resolve brincar de morder os fios e morre eletrocutado? Não quero nem pensar. O Umberto morava no abrigo desde janeiro e chegou lá através da polícia depois de ser encontrado na rua.

O Solgäntan, abrigo onde pegamos Umberto, acomoda cerca de 400 gatos por ano em novos lares. Eles também tem um pensionato para gatos que ajuda a manter financeiramente o abrigo.  O abrigo existe desde 1995 e em 2000 foi fundada uma associacão para ajudar a arrecadar fundos já que manter o abrigo funcionando é bem caro.  Uma das maiores dificuldades que esses abrigos tem é que não é muita gente que quer adotar um gato adulto porque acha que eles não se acostumam num novo lar, o que não é verdade. Outro mito é de que gatos tem sete vidas e portando dá para largar eles por aí que eles se viram, o que também não é verdade. Gatinhos pequenos podem pegar todos os tipos de doencas porque seu sistema imunológico não está desenvolvido além de serem mortos por animais selvagens, inclusive aves de rapina. Já os gatos adultos precisam ser alimentados e castrados.

Outra coisa que eu li nos folhetos informativos que eu ganhei no abrigo é que aqui na Suécia é muito comum as famílias irem para suas casas de verão lá as criancas encontrarem gatinhos e “adota-los” durante o verão. Só que quando o verão acaba, a família volta para a cidade e deixa os felinos abandonados. Muitos dos gatinhos e gatinhas do abrigo foram encontrados em casas de verão aqui na Suécia.

Quem quer ter um animal de estimacao, não apenas gato, mas cachorro, porquinho da índia, lontra, etc, precisa ter em mente que é responsável pelo bem-estar desse animal. Isso pode dar um pouco de trabalho e não e custa dinheiros. Para mim vale à pena, porque uma casa sem gato não é um lar.

Lutando pela sobriedade da nação

Esse post é dedicado ao creme Nivea, que é barato e cumpre suas funções com maestria!


Sábado é o dia que as crianças aqui comem doce e o dia que nós adultos tomamos um vinhozinho, pelo menos aqui em casa.  Seguindo esse costume sábado passado depois de nadar fomos comprar nosso vinho semanal. Para quem não sabe, aqui na Suécia bebidas com mais de 3% (acho que é isso, não tenho bem certeza, mas se não for vai aparecer alguém e corrigir) de teor alcoólico só podem ser vendidas por uma empresa estatal chamada Systembolaget. No supermercado e na vendinha da esquina só tem cerveja e cidra com teor alcoólico de até 3%. Ah, é óbvio que bares e restaurantes podem vender bebidas alcoólicas mas também não é assim tão fácil para conseguir a licença.

Mas então, saindo da academia fomos ao Systembolaget local que parece uma daquelas lojas antigas onde nós precisamos pedir o que queremos no balcão e @ funcionári@ busca e vende. Nós queriamos dois vinhos brancos diferentes (um para beber e outro para fazer risotto) e um vinho tinto. Cada produto tem um número, então muita gente costuma anotar e já pedir pelo número o que eu acho que torna a vida d@s atendentes mais fácil. Daí na hora de anotar o número descobrimos que não tinhamos caneta. O que fazer… Eu decorei um número e o Nicklas decorou os outros dois.

Chegando a nossa vez de ser atendidos (é obvio que tem que pegar senha e esperar ser chamado, como tudo aqui) o Nicklas disse os números dele e eu disse o meu. Imediatamente a moça nos pediu identidade para comprovar que nós somos maiores de 21 anos – eu tenho 30, Nicklas 31 – agora tão entendendo o porquê da dedicação ao creme Nívea? (detalhe, há muito tempo, coisa de anos, ninguém pede identidade para o Nicklas) só que como só tínhamos ido nadar eu não levei a carteira e não tinha a minha identidade. A moça então falou que poderia apenas vender os vinhos que o Nicklas pediu, não o que eu pedi.  Nós dois ficamos meio que sem reação, eu disse à moça que eu tenho 30 anos e até cabelos brancos. Mas não adiantou, ela estava irredutível e disse que eu pareço muito jovem (brigadaí mocinha, que provavelmente era mais nova que eu).  Nesse meio tempo eu encontrei meu cartão do metro e meu cartão de estudante, ambos pessoais, intransferíveis e contendo meu número de identidade sueco que sempre começa com o ano de nascimento. Mas a moça estava decidida a lutar pela minha sobriedade e disse que tais documentos não eram válidos como prova de identidade.

Nós então resolvemos deixar a moçoila lutar pela sobriedade da nação e fomos até outra loja no bairro próximo, onde compramos todos os vinhos que queríamos, o Nicklas passou no caixa e ninguém pediu a identidade dele.

Agora me digam, para que eu vou gastar dinheiro em Clinique e Lancôme se o creme Nívea já me faz parecer quase 10 anos mais jovem? Ah sim, não é só o creme Nivea, eu também evito o sol, porque é melhor ter a pele pálida e jovem do que morena e igual a uma uva-passa, não é mesmo?

Swenglish

Swenglish é uma língua muito falada aqui na Suécia, é a língua que vários que pensam que falam inglês realmente falam.  A característica principal da língua é traduzir literalmente expressões e palavras do sueco para o inglês, algumas delas quando traduzidas ficam bem engraçadas.

Alguns exemplos:

Logo que eu conheci o Nicklas eu não entendia porque ele me perguntava

Did you eat your medicine? Você comeu o seu remédio?

Quando o certo em inglês seria: Did you take your medicine? Você tomou seu remédio. Mas, depois de estudar um pouco a língua eu descobri que em sueco não se toma remédio, come-se.

Outra coisa que me causou espanto foi quando ele me disse:

When my parents married I was in my mum’s stomach. Quando meus pais casaram eu estava no estômago da minha mãe.

Não, não foi o fato de ela ter casado grávida que me espantou, mas sim o fato de que o bebê estava no estômago. O certo seria dizer : I was in my mum’s womb – Eu estava na barriga da minha mãe. Mas só que no sueco coloquial, há apenas uma palavra para toda a area que pode significar tanto estômago quanto barriga.

Eu sempre cuidei para não falar swenglish ou portuglês, porque às vezes pode ficar estranho e também porque não quero ninguém rindo da minha cara (mais do que já riem quando eu falo sueco) porque eu falo errado. Só que nas últimas semanas eu andei cometendo uns deslizes. O primeiro deles foi quando escrevi para um amigo em Londres. Eu escrevi o seguinte:

It’s very cold here, minus degrees everyday. Algo como: Está muito frio aqui, graus negativos todos os dias.

É assim que se diz em sueco, só que em inglês o certo seria below zero.

E ontem eu falei para o Nicklas:

She couldn’t call me because she had no coverage. Ela não conseguiu me ligar porque não tinha cobertura.

Em português até que funciona porque nós também dizemos cobertura para o celular, assim como no sueco. Só que em inglês se diz reception.

Tem outras coisas que eu acho muito engraçadas quando traduzidas diretamente do sueco para o português. Uma delas e chaleira elétrica (vattenkokare) que quer dizer, literalmente, cozinhador de água. Porque em sueco não se esquenta ou ferve água mas se cozinha água.

Atualização: a minha irmã me lembrou de que eu tinha dito que o Nicklas fala “morar no hotel” (pousada, casa de amigos etc) em vez de “ficar”.  Realmente em sueco se mora na hospedagem, independente do duração da estada.  Numa das primeiras vezes que nos viajamos juntos, para Amsterdam em 2003, eu fiquei intrigada porque ele dizia

Here’s were we live. É aqui que moramos

e apontava para o hotel no mapa. O certo seria:  Here’s were we are staying.

Primavera?

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Teoricamente a primaveira chega  no início de fevereiro março aqui por essas bandas, mas a prática é bem diferente, como dá para ver! A universidade de Estocolmo estava coberta de neve ontem. No caminho de casa até o metrô a neve estava quase pelos joelhos. Mas engana-se quem pensa que quando tudo está assim branquinho é muito frio. Para cair neve a temperatura precisa estar em torno de 0° graus o que é uma temperatura bem amena para os padrões locais. Ontem de manhã quando eu saí estava 2°.


dsc01943Aqui em casa tem gente só esperando pelo verão para poder jantar na sacada, mas pelo visto vai demorar um pouquinho.

Praga

Depois de seis dias maravilhosos e frios em Budapeste, partimos para Praga no sábado dia 02 de janeiro. Essa era para ser a pior parte da viagem porque passaríamos a noite no ônibus (8 horas de viagem, saindo as 11 de Budapeste e chegando as 7 da manhã em Praga), a passagem foi baratíssima algo como 50-60 reais. Mas quando o ônibus estacionou na rodoviária, tivemos uma surpresa bem agradável: os bancos eram relativamente confortáveis e tinha bastante espaço entre eles. E o que é ainda melhor: o ônibus estava metade cheio, ou metade vazio, como queiram e nos pegamos um banco inteiro para cada um.

Chegamos em Praga as 7 da manhã tendo vencido a pior parte da viagem. Fomos para o hotel, largamos as malas e fomos explorar. Ao contrário do hotel meio sinistro em Budapeste, esse em Praga era bem ajeitadinho e as moças e o rapaz da recepção bem simpáticos e tinha uma estação de metro a 5 minutos – 3 paradas para a estação central. Como já expliquei o Nicklas é o homem da tour guiada então em Praga foi a primeira coisa que fomos procurar, bom segunda, primeiro procuramos um lugar para almoçar. Depois de matarmos que estava nos matando – a fome – achamos a tour, já compramos logo duas, Grand Tour of Prague que fizemos no mesmo dia e uma excursão para Kutná hora, uma cidade a 70km de Praga onde fica o ponto alto de toda a viagem para o Nicklas.

Praga é uma cidade muito bonita, isso não há como negar. A maioria das atrações ficam no centro – cidade antiga e cidade nova que não é lá tao nova. A cidade antiga lembra muito a parte antiga de Estocolmo. E preciso confessar que depois de todo o esplendor que é Budapeste fica difícil achar qualquer coisa muito impressionante. Assim como a Hungria, a República Tcheca também fazia parte do Império Austro-Húngaro e até a sua independência em 1816 (quando se tornou a antiga Tchecoslováquia) a língua oficial era alemão. O império Austro-Húngaro era uma super potência dominada pela família Habsburgo e isso explica em parte a exuberância e riqueza da arquitetura.

O nosso tour saiu da praça central em Praga, atravessamos a famosa Ponte de Carlos (Charles Bridge) e fomos para o castelo, que hoje é o palácio do governo, porque como o nome já diz, o país é uma república. O castelo na verdade é um complexo com casas, prédios administrativos e igrejas. Entre as igrejas está a Catedral de São Vito que começou a ser construída no século 14 e só foi ser terminada no início do século 20. O castelo fica numa colina de onde se tem uma vista muito bonita da cidade, a tour pelo complexo de prédios durou mais de uma hora e quando acabou eu achei ótimo poder voltar para o quentinho do onibus. Do castelo voltamos na cidade e a tour terminou no antigo gueto judeu, na verdade hoje há uma sinagoga e o cemitério judeu lá, mas não existem muitos judeus morando porque essa é hoje uma das zonas mais nobres de Praga.

Kutná hora

No dia seguinte, domingo fomos para Kutná hora que fica a 70km de Praga, a cidade de 25 mil habitantes já foi a segunda maior da República Tcheca por causa da antiga casa da moeda que ficava lá. Mas a razão da nossa visita foi a Igreja de Ossos. Não, não foi minha idéia visitá-la. Como se pode perceber pelo nome, a igreja é decorada com ossos humanos formando esculturas. Mas por que um artista escolheria esse tipo de material para expressar sua criatividade? Bom segundo a história os fundadores da Igreja visitaram Israel e trouxeram com eles um pouco de “terra sagrada” e espalharam pelo cemitério que fica ao lado da igreja. Sabendo disso, todos os habitantes da cidade queriam ser enterrados no cemitério, o que gerou uma superpopulação. Os padres então decidiram que para que todos tivessem acesso à terra sagrada (vai ver é um atalho para o céu), os restos seriam desenterrados para dar lugar a novos “inquilinos”. E o que fazer com todos os ossos? Esculturas para decorar a parede da igreja, oras. E assim surgiu esse ponto turístico que atrai milhares de visitantes anualmente.
Meu conselho: caso você não ache interessantíssimo ver esculturas de caveiras dentro de uma Igreja, passe.

Museus

O primeiro museu que nós visitamos foi um museu de tortura que pelo que eu entendi nao é um museu mas uma exposição itinerante que eu achei meio falcatrua, sem falar que os textos estavam num inglês péssimo quase ininteligível o que me irritou. E para completar era cara, mais ou menos uns 7 euros (160 coroas tchecas).

Nós também visitamos o museu do Franz Kafka, o habitante mais ilustre de Praga que, por ironia, não gostava de sua cidade. O museu parece uma instalação enorme sobre a vida e obra do autor, tem um acervo bem grande de fotos, documentos, cartas e objetos, tudo com tradução para inglês e alemão. Eu achei que valeu muito à pena.

O último museu que visitamos foi o Museu Alphonse Mucha, dedicado ao artista. Mucha foi um dos grandes nomes do estilo Art Nouveau. Muitas das obras dele tem temas bem nacionalistas e um de seus trabalhos mais famosos é uma série de 20 pinturas épicas sobre os povos eslavos.

Além dos museus também fomos numa exposição do artista gráfico tcheco Bohumil Konecny, ou Bimba. Ele ilustrou várias revistas de aventurasl, revistas ilustradas e também fez alguns trabalhos comerciais. A exposição estava na Casa Municipal, um dos prédios mais bonitos de Praga.

Enchendo o bucho internacionalmente e festivamente

Hoje vamos abordar um tema muito relevante para o futuro da humanidade: comidas natalinas. Se você amiga(o) leitor(a) já esteve a se perguntar o que se come nessas terras onde a neve natalina já foi verdadeira e não bolinhas de isopor, não se pergunte mais, a resposta está aqui.

Inglaterra
Na Inglaterra o Natal se comemora no dia 25 com um super almoço, na verdade as pessoas começam a comer desde que acordam e só param lá pelo dia 5 de janeiro, quando começam a comprar Kits detox em grandes quantidades. Mas o tal almoço é composto geralmente de: Peru recheado com castanhas, salsicha de porco, bacon, batata assada e couve-de-bruxelas.

xmaslunch1 Ali do lado esquerdo do prato parece um omelete, mas eu não me lembro de ter comido nos anos que morei lá e que comia o Christmas Lunch da firma.  Na sobremesa temos o super tradicional Christmas Pudding, aquele que estava nas fotos de TODOS os meus livros de natal, quando eu era pequena e que eu sempre ficava me perguntado por que ele não dava as caras no jantar de natal. Vários anos depois pude provar essa iguaria que, quando bem preparada é muito gostosa. É um bolo bem molhado, com frutas secas e algum tipo de álcool. Tem um sabor bem encorpado e não é muito doce e é acompanhado de brandy butter – uma mistura de açúcar escuro, acúcar de confeiteiro, manteiga e brandy (conhaque) – algo tão delicioso quanto engordativo, quando de boa qualidade.  Nos almoços da firma o Chrismas Pudding parecia papelão e a brandy butter creme de maizena.

brandybutter

xmaspuddingNas semanas que antecedem o natal também é bem comum encontrar nas lojas inglesas mince pies e mulled wine. Mince pies parecem umas empadinhas com recheio de maçã, passas-de-uva, temperos como gengibre e canela e… preparem-se… gordura de cordeiro. Parece nojento, mas não é, na verdade eu sempre comi mince pies e só descobri o ingrediente menos nobre agora quando fui pesquisar do que elas são feitas. Elas são gostosinhas, mas uma vez por ano é o bastante.

Mulled wine é basicamente um tipo de quentão: vinho tinto com vários temperos como canela, cravo, gengibre, cardemuma, noz moscada etc. É bem gostoso e necessário em temperaturas em torno dos zero graus. mulled-wine

Suécialussekatter

Se eu fosse falar de todas as comidas de natal daqui acho que precisaria escrever um livro, porque no mês de dezembro o país entra numa febre natalina e dá para achar praticamente tudo de natal, até papel-higiênico, sim, até isso.  Tem cerveja de natal, pão de natal, biscoitos de natal, etc. Mas vou me restringir às mais populares. Já em novembro, padarias, lancherias, mercados, etc, começam a vender os pãezinhos de natal – lusekatter-  aromatizados com açafrão e geralmente em forma de 8. Também presentes em qualquer loja de gêneros alimentícios nessa época são as bolachinhas de natal em vários formatos – pepparkakor – feitas com gengibre e canela. Essas bolachinhas são um grande sucesso entre certos membros da família Sartoretto e eu corro o risco de ser presa por importação ilegal (biscuit smuggling, nunca ouviram falar). Além de serem digeridas elas tambem são usadas como decoração.  Para acompanhar as bolachinhas as pessoas bebem glögg que nada mais é do que um mulled wine, ou quentão sueco.  Só que a coisa não podia ficar assim na simplicidade, então existem vários tipos de glögg mais forte, mais fraco, com sabor de baunhilha, de chocolate, com conhaque e por aí vai. Tem uma marca bem tradicional de glögg que a cada ano lança um sabor diferente, o desse ano era com mirtilo e já tinha terminado duas semanas antes do natal

Pepparkakor decorados em vários formatos.

Pepparkakor decorados em vários formatos.

gloggDaí enquanto todos vêm se empanturrando dessas coisas por mais ou menos dois meses, chega o dia 24 e muitas outras comidas entram na jogada. Claro que existe a possibilidade de já ter rolado uma confraternização da firma, onde as iguarias são oferecidas ou pode-se ter visitado alguma das inúmeras mesas de natal (julbord) que os restaurantes fazem.

Os pratos mais típicos são:

Presunto cozido (julskinka): presunto curado, dizem que por dias, servido geralmente acompanhado por mostarda. Do presunto eu gosto, mas mostarda me faz espirrar.

Jensens Frestelse (Tentação de Jensen): como se fosse uma torta de batatas com vários temperos, entre eles nós moscada, muito creme. Hummmmm
Prinzkorvar (Salsichas Prinz): umas salsichinhas pequenas e bem gostosas.
Köttbullar (almôndegas): um clássico da culinária sueca, não podia faltar no natal
Risgrynsgröt : é um tipo de arroz de leite, feito com um arroz especial e servido com amêndoas, canela e geléia de framboesa.julmust_27875b
Para completar,  o refrigerante de natal, que se chama Julmust e é parecido com Coca-cola mas não exatamente igual. Dizem que as vendas de Coca-cola despencam durante o natal aqui e por isso se vê propagandas de Coca-cola por todos os lados
Julbord - mesa de natal com vários pratos tipicos

Julbord - mesa de natal com vários pratos típicos

Fazendo as coisas rodarem

Essa semana compramos dois móveis para a sala, um que eu nao sei como se chama, mas é tipo um balcão, a minha vó tinha um onde ela colocava as louças mais finas e uma mesa de centro que na verdade são duas. Por que estou contando isso aqui no blog? Porque isso me fez pensar que aqui nos vivemos fazendo uma coisa que nunca tinha feito no Brasil e não vejo meus amigos ou família fazer: comprar coisas usadas e vender aquelas que não usamos mais.  Esses dois móveis são da BoConcept uma loja dinamarquesa bem cara, novos eles custariam mais ou menos 4.500 reais mas nós pagamos menos de mil. Os dois estão praticamente novos e são de ótima qualidade.

Além disso eu comprei um vaporizador de roupas pela metade do preço e ele veio na caixa, a pessoa que comprou não tinha nem aberto (não sei por que comprou, mas melhor para mim), quase todos os livros que usei na faculdade, roupas e coisas para a cozinha. Nós também vendemos muitas coisas que não usamos, como uma mesa de jantar com cadeiras, um sofá horrível que o Nicklas comprou sem me consultar – reparem na propensão para ditadora doméstica – quando ainda morávamos separados, eu em Londres e ele aqui na Suécia e já levei todos os livros que não vou mais usar para vender.

Aqui é super comum comprar e vender coisas usadas e existe uma ótima estrutura para facilitar a vida de quem quer dar rotatividade aos seus pertences. Nos sites Blocket e Tradera dá para encontrar de tudo, desde bilhetes para shows até um castelo no sul da França; o primeiro é como se fosse um mercadão onde todo mundo anuncia de tudo – dá para encontrar até mesmo coisas de graça, quando as pessoas tão querendo se livrar mesmo, já vi pianos, livros e até gatos – e o segundo é o Ebay sueco e as vendas funcionam como leilões. Na universidade tem uma livraria onde dá para comprar e vender livros usados e também tem um site onde dá para comprar livros acadêmicos usados super baratos. Já encontrei livros sendo vendidos por 1/4 do preço porque o dono sublinhou ou fez anotações.

Nosso móvel, que eu não sei o nome, mas que é super bonito.

Nosso móvel, que eu não sei o nome, mas que é super bonito.

Também tem as lojas de caridade como a Myrorna que pertence ao que tem coisas muito legais: roupas, móveis, decoração por preços ótimos. Para quem mora em Estocolmo, está procurando móveis e não quer as coisas descartáveis da Ikea, a Myrorna de Skärholmen é uma ótima opção. Eles tem uma área de 500 m2 só de móveis, tem vários achados.

Há razões de sobra para comprar e vender coisas usadas:relação preçoxqualidade (vejam meus móveis por exemplo), ganhar uma grana extra, ajudar organizações de caridade em vez de ajudar empresas que não precisam muito da nossa ajuda, achar coisas diferentes que não são iguais às que todo mundo tem.

a mesa que são duas, o quadro é do brique da Redenção em Porto Alegre

a mesa que são duas, o quadro é do brique da Redenção em Porto Alegre

Daí eu fico pensando, por que tão pouca gente compra coisa usada no Brasil? Bom, não posso falar por todos os quase 200 milhões de habitantes do território nacional, mas na cidade interiorana onde eu nasci, cheio de gente que adora mostrar que tem, que tão podendo, comprar coisas usadas deve ser dar atestado de pobreza. Admitir que comprou algo porque era mais barato, que comprou algo que alguém já usou: nunca, o que os amigos vão pensar. O máximo admissível é comprar em antiquários prá lá de caros, por que, bom, aí é caro né, não é todo mundo que pode.

Enquanto isso nós aqui seguimos dando rotatividade às nossas coisas e às coisas dos outros, sem dívidas e com uma graninha sobrando para fazer uma viagem de vez em quando.

Filme

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Aqui em casa as vezes rolam uns momentos “Mas como tu não sabe quem é …. (ator, atriz, banda, cantor, cantora,político, terrorista, etc)! Uma vez eu soltei um “Mas como tu não sabe quem é Mikail Baryshnikov?” isso foi quando ele apareceu em SATC. Depois ficamos discutindo se Mikhail era ou não mais famoso do que algum cantor ou compositor de quem não lembro o nome. Nosso parâmetro para medir fama foram entradas no google e eu tenho a impressão de que perdi.

Isso aconteceu de novo semana passada quando fomos assistir ao filme “The Baaden-Meinhof Complex” sobre o grupo terrorista (ou revolucionário…) de esquerda alemão RAF (Red Army Faction) que foi muito ativo e violento no final da década de 60 e 70. Eu não fazia a mínima idéia de quem eles eram, me senti até um pouco burrinha. Mas tudo bem acho que a razão pela qual aqui na Suécia muita gente sabe quem eles são, na verdade são duas razões, primeiro porque a Alemanha é ali do lado e segundo o critério de proximidade nossos vizinhos sempre tendem a ser notícia; segundo porque o grupo foi responsável por um atentado a embaixada alemã aqui na Suécia.

Mas mesmo não sabendo nada sobre o RAF eu gostei bastante do filme. Ele é baseado no livro de não-fição de Stefan Aust, que segundo o site do IMDB é um best seller. Eu não tenho certeza, mas acho que li em algum lugar nesse vasto mundo virtual que o filme foi indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro. A história é contada principalmente sob o ponto de vista da jornalista alemã Ulrike Meinhof que escrevia para revistas de esquerda e entra em contato com o grupo quando vai entrevistar uma das líderes, Gudrun Ensslin, na prisão. Ulrike estava um tanto descontente com sua militância até então pacífica e resolve partir para a luta armada passando a fazer parte do grupo.

Eu achei o filme equilibrado, ele não retrata os membros da RAF como santos, bem longe disso, mas também mostra que eles tinham ideais e acreditavam em coisas que eu e muita gente também acredita. É óbvio que eu não cogito matar ninguém em nome do que eu acredito. A idéia de que violência pode vir tanto da direita, quanto da esquerda, como também da polícia esta bem presente no filme. O filme também mostra as falhas no julgamento dos quatro líderes do grupo, que podiam se reunir por tempo limitado para preparar sua defesa, tiveram acesso a médicos negado e se é que eu entendi bem (assisti o filme é em alemão com legenda em sueco) tinham acesso restrito aos advogados de defesa. É óbvio que um filme de duas horas e meia não é suficiente para explicar eventos complexos que aconteceram num espaço de 10 anos. Entretanto ele serviu para despertar minha curiosidade.

Informação inútil mas engraçada: por algum motivo, o ator que faz o policial sueco na cena da invasão à embaixada alemã em Estocolmo não é alemão e falou, ou melhor, tentou falar umas três frases em sueco com um sotaque pra lá de carregado. Eu ouvi várias gargalhadas do povo em volta nessa hora.

REM em Estocolmo

R.E.M. - Accelerate TourR.E.M. - Accelerate TourR.E.M. - Accelerate TourR.E.M. - Accelerate Tour

Hoje eu estou completamente afônica, minha voz sumiu.  É que ontem eu cantei TODAS as músicas no show do R.E.M que estava muito legal e eu ainda tive a sorte (na verdade foi graças à Ju que foi rápida, viu um espaço e me puxou) de ficar quase, mas quase no palco. Entre mim e a banda estavam apenas os seguranças.

Curiosamente, quando Loosing My Religion começou a fazer sucesso eu devia ter uns 14, 15 anos e não gostava muito da banda. Eu descobri mesmo R.E.M na faculdade que foi quando eu passei a prestar mais atenção nas letras.

R.E.M. - Accelerate TourR.E.M. - Accelerate TourR.E.M. - Accelerate TourR.E.M. - Accelerate Tour

Eu já tinha visto eles no Hyde Park, mas para falar a verdade o penúltimo CD deles não foi dos melhores e naquela turnê o Michael Stipe estava cantando com aquela faixa azul pintada nos olhos e preciso confessar que isso me incomodava um pouco. Além do que, o Hyde parque é enorme então eu via apenas uns pontinhos se mexendo no palco. A “ação” do show eu vi pelo telão o que é quase como ver na TV.

Mas ontem foi diferente, eu vi e ouvi tudo, nos mínimos detalhes. Eles cantaram músicas do CD novo, Accelerate, que é muito bom e várias músicas antigas como Orange Crush, Drive, Man on the moon, Ignoreland e óbvio Loosing my Religion. Faltou eles terem tocado Nightswimming que é minha favorita absoluta. Michael (todos percebem que eu sou super íntima dele, estamos assim em first name terms) fez piadas, falou sobre sua adolescência e sua professora metade sueca e (óbvio) criticou o governo dos Estados Unidos, que parece que é uma tendência entre artistas que querem reafirmar sua coolness, principalmente quando tocam na Europa.

Bom, mas agora estou eu aqui sem voz e esperando qual vai ser o próximo show. Será que eu vou realizar meu sonho de ver o Pearl Jam…

OBS.:Quem tirou as fotos foi a Ju porque eu estava muito ocupada cantando todas as músicas. Ela não tinha nenhuma lente especial, nós estavamos perto do palco MESMO.

Vestindo meu chapéu de burra


Eu já tinha comentado aqui, e aqui sobre como são os cursos de sueco e que muitas vezes me sinto como uma semi-retardada a julgar pela maneira como os professores de sueco tratam os alunos. Mas quando fui fazer a matrícula para esse semestre do curso de sueco (último, por sinal) me senti como uma retardada completa. Explico: nós alunos fomos divididos em quatro turmas levando em conta o resultado da prova de redação, uma turma de inteligentes, uma de meio-inteligentes, uma de meio-burros e uma de burros, que foi a que eu fiquei.

Quanto ao resultado da prova eu não dou a mínima porque faz tempo que parei de acreditar que provas e testes são capazes de medir conhecimento, aliás, não acredito que conhecimento possa ser medido. Segundo, porque quem me conhece sabe que eu não estudo para provas, o mais perto que cheguei de estudar, fazer exercícios, etc foi para o vestibular no século passado. Eu também não tenho nenhum problema em receber críticas (desde que feitas com educação) porque eu acho que sempre posso melhorar, ainda mais no aprendizado de uma língua. Meu objetivo não é escutar elogios dos professores nem provar para eles que eu sou super esperta e sei um monte de coisas, mas sim aprender a língua de tal forma que ela se torne um instrumento eficaz de comunicação. Eu quero poder ler de tudo, escrever satisfatoriamente bem e poder ter conversas que variam desde o preço do salmão a política, literatura e economia. Entretanto, o que realmente me irritou foram duas coisas: a) o fato de eles fazerem questão de informar o porquê de sermos colocados na turma, logo aqui na Suécia onde todos são considerados muito iguais, ninguém é incentivado a ficar contando vantagens ou a se achar superior que os outros e b) durante todo o semestre passado o que meu professor disse me levou a crer que eu não estava tão mal em redação, óbvio que as minhas redações voltavam com correções e ele me disse que eu precisava melhorar alguma coisa ou outra, mas nunca me disse que eu tinha sérios problemas e que precisava praticar muito o uso da lingua escrita, muito pelo contrário, num dos trabalhos ele escreveu algo assim: “nota-se que você tem o hábito de escrever, apenas corrija os erros ortográficos e seu trabalho está pronto” e nas provas eu sempre ia de mais ou menos a bem. Na prova final eu acertei 15 de 20 questões de múltipla escolha e a minha redação não teve muitos erros mesmo.

Daí, depois de um semestre achando que eu até que tava me saindo bem nessa aventura de aprender sueco, eu chego na universidade e percebo que estava bem errada. Como eu já tinha percebido que os métodos de ensino de sueco como língua estrangeira estacionaram nos anos 60, mais ou menos, não fiquei tão surpresa com essa atitude. Agora só me resta agüentar meu último semestre na “quarta-série”.

Alguns pontos altos da minha primeira semana de aula:

- A professora de redação quer que para cada texto lido, nós façamos um caderno com palavras novas, conjugação, como são usadas, tradução, etc. Até aí tudo bem, só que ela quer ver o caderno! Será que eu vou ganhar uma estrelinha??
- A mesma professora disse que um dos objetivos do curso é nos ensinar a ler e interpretar gráficos e tabelas, porque muita gente fica nervosa (sic.) ao vê-los. Agora eu entendi porque sinto uma palpitação todas as manhãs enquanto leio o jornal, que bom que aprenderei a superar isso. Imaginem só a reação da minha colega que é formada em administração e fez mestrado em marketing ao ouvir isso.
- Parte do índice do livro de “estudos sociais”: a missão dos meios de comunicação de massa, o que faz de um fato uma notícia, quais os interesses que movem os meios de comunicação de massa, ética-significa alguma coisa para os jornalistas? e, finalmente: A mídia influencia todos nós – e nós influenciamos a mídia. Nossa, ainda bem que eles lançar uma luz nessas questões, porque depois de uma faculdade de jornalismo, outra de relações públicas, um mestrado em sociologia e quase um mestrado em mídia e comunicação eu NUNCA, mas nunca tinha pensado sobre isso.

Haja saco, esse semestre promete!

Europride em Estocolmo

Obs.: Depois volto para contar como foi

Assim com fiz ano passado, esse ano fui ver a parada gay em Estocolmo. Esse ano a cidade sediou o Europride, que reuniu grupos de luga pelos direitos GLBT de toda a Europa. Aqui em Estocolmo mais de 45 mil pessoas desfilaram e mais de 450 mil assistiram, o que fez dessa a maior parada gay da história. Com um detalhe, embaixo de uma chuva muito chata.

O que mais me impressiona é o publico completamente variado: jovens, velhos, famílias com crianças, turistas, tem de tudo. Cá para nós, se eu tivesse filhos preferiria leva-los na parada gay a leva-los no Carnaval. A minha única preocupação é o que acontece DEPOIS da festa, se o apoio e a visibilidade se traduzem em respeito e melhores condições no trabalho, educação e na sociedade em geral.

Profissão: Designer

Bom retorno

Nós nem bem chegamos e no sábado já fomos no Moderna Museet para ver a exposição Eclipse – art in a dark age, interessantíssima com vários trabalhos super intrigantes. O que mais me chamou atenção foi essa tela do belga Michaël Borremans. Será que alguém adivinha o que essas pessoas estão fazendo?

Cadê?

Aqui na Suécia as coisas funcionam, em geral, de maneira organizada. Eu ouço buzinas pouquíssimas vezes. A lavanderia do prédio funciona bem, todo mundo marca sua hora, lava sua roupa e deixa o local livre e limpo para o próximo.

Eu disse no geral, porque no particular as coisas de vez em quando complicam. Eu estava reunindo meus documentos escolares para me inscrever para um curso. Eis que percebo que falta 1 página na tradução de uns dos meus históricos escolares. Daí eu pensei cá com meus botões, quando a mesma coisa aconteceu em Londres, eu fui na secretaria da faculdade e pedi para tirar uma cópia, pois eles tinham todos os meus documentos que foram enviados quando eu me candidatei para o mestrado. Eles ainda carimbaram as cópias e deram uma declaração dizendo que eles tinham os originais e que aquela era uma cópia legítima. Mais ou menos como uma autenticação.

Seguindo o mesmo raciocínio, mandei um email perguntando se eu podia tirar uma cópia dos meus documentos para a coordenadora do meu curso, que sugeriu que eu falasse com a secretaria, o que eu imediatamente fiz. Hoje a secretária do curso me escreve dizendo que falou com a ex-coordenadora do curso que por sua vez disse que se eu tenho pressa talvez seja melhor conseguir o documento de outra forma.

Agora a pergunta é, o que eles fizeram com meus documentos? Porque se era por uma questão de espaço, eles poderiam ter me devolvido depois de terem constatado que eu preenchia os requisitos para o curso.

Será que é mal das faculdades de comunicação? Porque os outros departamentos com quais eu tenho contato na Universidade de Estocolmo parecem ser bem organizados e em Londres eu estudei no departamento de Sociologia.

Agora eu estou pensando em quais serão as consequências de enviar meus documentos com uma página da tradução de um histórico faltando….

Bem feito para mim, se tivesse cuidado melhor dos meus papéis…

Era uma casa muito engraçada, nao tinha teto não tinha nada…

Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão

Ninguém podia dormir na rede porque na casa não tinha parede

Ninguém podia fazer pipi, porque pinico não tinha ali

Mas era feita como muito esmero na rua dos bobos número zero.

Antes que eu complete aniversário de um mês de não-postagem resolvi dar sinal de vida. Nesse quase um mês até que aconteceu bastante coisa. A mais importante foi que compramos um apartamento e eu estou adorando a possibilidade de morar na mesma casa por um bom tempo, sem ter que se preocupar em renovar contrato de aluguel, não poder furar parede, etc. Sem falar que aluguel é um dinheiro jogado pela janela. Então mudamos no primeiro fim-de-semana de maio, quase a mesma data em que mudamos para esse apartamento onde moramos agora, ano passado. Essa será minha terceira mudanca em pouco mais de um ano, então dá para entender a minha felicidade em ter um endereço permanentemente fixo.

O mercado imobiliário aqui de Estocolmo é algo completamente surreal para quem esta acostumado a chegar na imobiliária e dizer quanto quer pagar, onde quer morar, pegar umas chaves, olhar uns apes e depois escolher. Acho que para um sueco essa situação seria mais complicada do que física quântica. O que acontece é que tem muita gente querendo morar aqui (principalmente em algumas áreas) e poucos apartamentos disponíveis. Além disso, aqui os prédios são geralmente apenas de apartamentos de aluguel ou apenas de apartamentos próprios. Quem é responsável por construir os apartamentos de aluguel é a administração municipal enquanto os apartamentos próprios são construídos pelas associações de moradores. Para evitar a especulação imobiliária o governo controla os preços dos aluguéis e não permite que se compre para alugar, o que eu até acho certo porque ter uma casa para morar é um direito e não deveria estar sujeito às leis do mercado.

Por tudo isso, simplesmente não há apartamentos para alugar em Estocolmo. Para alugar um apartamento é preciso entrar numa fila, cada dia de espera na fila equivale a 1 ponto e se pode escolher apartamentos de acordo com a pontuação. É óbvio que em áreas mais cobiçadas são necessários milhares de pontos e em consequência milhares de dias esperando. Mas… quem pensa que é só brasileiro que dá jeitinho tá redondamente enganado porque aqui existe o jeitinho sueco e as pessoas usam vários subterfúgios para ter um teto sobre suas cabeças, um deles é pagar uma (muita) grana para poder alugar um apartamento. Para ter uma idéia, reza a lenda que o casal que mora no térreo do nosso prédio pagou 300 mil coroas (mais ou menos 80 mil reais) pelo seu CONTRATO de aluguel.

O desespero é tanto que quem tem um apartamento alugado não quer perde-lo por nada. Então se as pessoas vão viajar, passar um tempo fora, etc, elas geralmente sublocam o apartamento. E olha que mesmo conseguir um apartemento de segunda-mão não é fácil. Esse apartamento onde moramos foi alugado de segunda mão e teve até processo de seleção.

Mudando de saco para mala, outra coisa legal é que o meu trabalho foi aceito para o congresso da IAMCR (International Association of Media and Communication Research) que acontecerá em julho na Universidade de Estocolmo. Eu também estou escrevendo para o site do congresso, estou adorando poder participar e acho que vou fazer muitos contatos. Aliás, se algum dos digníssimos leitores está vindo para o congresso, entre em contato.

Fim-de-semana trilegal


O fim-de-semana começou na sexta-feira depois da minha aula de sueco oral. Saí correndo e fui encontrar minha amiga K que mora em Örebro e veio para Estocolmo para uma entrevista de emprego superhipermegablaster legal. Depois fiquei sabendo que a entrevista ótima, mas minha amiga é meio que a wild-card da agência de recrutamento, porque eles estão procurando por um designer gráfico e ela era set designer no Canadá, entretanto eles acharam o currículo dela interessantíssimo. Eu estou com os dedos cruzados por ela, que é uma amiga muito querida, e se conseguir o emprego ela vai passar a semana aqui em Estocolmo (o marido não quer mudar para a capital, porque ele gosta da vida tranquila do interior) o que significa que vou poder vê-la mais vezes.Depois do encontro, enquando K. corria para a entrevista, eu corri para a casa para preparar umas comidinhas porque era dia de colocar a fofoca em dia com as tipas. Passamos uma tarde dando risada e babando em cima do nosso mascote, Kristoffer, o bendito fruto entre as mulheres. Realmente eu não sei como ele aguenta um monte de mulher apertando, pegando e passando o pobre de colo em colo. Mas enquanto ninguém mais no grupo se animar a ter bebês, ele continuará sendo o centro das atenções.

No sábado nós fomos num jazz brunch num lugar muito legal. O Mösebacke é um lugar no alto de um morro com uma das vistas mais bonitas de Estocolmo, no verão tem mesas na rua e o pessoal fica lá bebendo e admirando a vista. No sábado, devido ao tempo péssimo, horrível, tenebroso, não deu para admirar vista nenhuma, mas a comida e a música estavam ótimas.

Sábado à noite eu fui ver nada mais nada menos que Smashing Pumpkins!!! Eles eram uma das minhas bandas preferidas logo que eu mudei para Londres e os descobri. Eu adoro as letras, as musicas, os clips e depois que eles se separaram perdi a esperança de vê-los ao vivo, mas daí, eles resolveram se reunir e vir tocar em Estocolmo, para minha alegria. A acústica do show não estava lá essas coisas, parecia que eles estavam tocando láááá looooonge. Segundo me disseram, esses estádios de hóquei onde vários shows acontecem são meio chatinhos para resolver os problemas de acústica. Eu não sei não, porque o show do Muse foi no mesmo lugar e tava bem melhor. Mas mesmo com a acústica marromeno, eles não cantando duas das minhas músicas preferidas (Disarm e Thirty-three) e fazendo uma versão acústica muito meia boca de 1979 valeu muito a pena ter ido.

Adestramento de pessoas: AQUI

Depois de duas semanas correndo de um lado para o outro pela cidade, hoje deu para ficar o dia inteiro em casa. Não tive aula no curso de sueco nem no mestrado, e como é carnaval no Brasil, também nao fui trabalhar.  Nessas duas semanas que passaram eu fui uma das melhores clientes da SL (companhia de transporte urbano de Estocolmo), peguei inúmeros trens e onibus por dia, para ir da universidade 1 para a universidade 2 e da universidade 2 para o trabalho. A universidade 1 e a 2 são a mesma universidade, o que acontece é que a Faculdade de Jornalismo e Comunicação fica no centro da cidade e nao no campus onde é o meu curso de sueco. Super conveniente!

Por falar no curso de sueco, ele vai muito bem. Tirando os professores que acham que estão adestrando cachorros e se esquecem de que estão ensinando seres humanos. Isso é uma coisa que me irrita muito, desde que comecei a estudar sueco, o tempo DESPERDIÇADO  em discutir estereótipos (“o sistema penintenciário da Suécia é uma colônia de férias”; sexismo no ambiente de trabalho; quais são as tarefas consideradas masculinas e quais são as tarefas consideradas “femininas”; e por aí vai) porque eles têm que preparar os imigrantes semi-civilizados para viver nessa sociedade democrática-iguálitaria-inclusiva-justa e tudo mais. Não que eu ache que a sociedade sueca não é todas essas coisas ou que esses assuntos não devem ser tratados em aula, mas isso poderia ser feito de uma forma menos “aqui-homem-lava-louça-e-cozinha-e-a-mulher-trabalha-fora”. Eu já estudei inglês e italiano e não me lembro de ter passado horas discutindo sobre se os ingleses vão muito ao pub ou se os italianos falam muito alto. Durante os cursos eu li sobre a história e costumes dos dois países, porque são interessantes e porque é um jeito divertido de aprender a língua. Agora, ficar batendo na mesma tecla do aqui é todo mundo igual e não converse com as pessoas no metro, pelamordedeus, haja saco.

Para aumentar ainda a minha antipatia com professores que acham que nós somos retardados, na aula de expressão oral nós tivemos que apresentar para a turma três pontos importantes do livro que estamos lendo. É óbvio que todo mundo gaguejou, ficou pensando nas palavras, ninguém na turma fala sueco fluente. Só que eu acho que o professor não entendeu isso e saiu com uma palestra sobre como falar em público, com direito a exercícios de respiração e um tal de ficar repetindo aaaa – mmmmm- uuuuuu. E eu lá pensando se falava ou não para ele que eu quero aprender a falar sueco, não aprender a falar em público que nisso até que eu me viro, contanto que seja numa língua que eu domino.

Bom, mas agora chega de reclamação, porque os exercícios de sueco me esperam.

Stockholm Syndrome

Ontem, como comemoração da minha “troca de anos” fomos no show do Muse, que estava o máximo.
Além de serem músicos extremamente habilidosos, os efeitos visuais foram muito cool!!

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Atenção

Eu moro na Suécia mas não sou agência de turismo, intercâmbio nem trabalho no consulado brasileiro, então não me peça informações sobre morar aqui, aprender a língua, estudar, etc, para essas coisas existe o Google e foi googlando que eu achei 99% das informações que precisava para morar aqui. Na página de links tem vários sites com informações úteis sobre morar na Suécia e Inglaterra.

 

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