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Preguiça

As vezes eu leio uns posts tão legais nos blogs alheios e fico com vontade de estar com a pessoa numa mesa de bar, num banco de praça, num assento tre trem, trocando uma idéia.
Porque ando com uma preguiiiiiça de comentar. E esperar a resposta. E responder a resposta.

Como não ser feliz na sua vida de expatriad@

Há quase oito anos fora do Brasil, eu sempre ouço gente dizendo que nunca mais quer voltar a morar lá, ou gente dizendo que no Brasil tudo é maravilhoso, o sol, o mar, o futebol, o samba… Muita gente que quer sair do Brasil e pensa se a vida lá fora vai dar certo ou não. Então eu sempre me pego em análises pseudo-sócio-antropológicas de quais os fatores que fazem com que sejamos felizes e satisfeitos com nossa vida fora da pátria amada. Eu consegui elencar já alguns fatores, mas veja bem, essa é apenas a minha opinião. A sua pode ser diferente. Muitos desses erros eu já cometi, por isso achei por bem avisar.

1. Reclame de onde você está. Muito. Ache defeitos em tudo, tenha uma visão assim bem p&b, simplista e reducionista das coisas. Aqui não dá para ter empregada, ir na manicure, cabeleireiro, massagista então é ruim. Não ter carro então… Quem um dia disse que isso era o primeiro mundo errou feio.

2. Concentre-se no #1, mas não esqueça de explicar, salientar, fazer com que todos entendam que NO BRASIL TUDO É MELHOR. O sistema de saúde é maravilhoso, as escolas e faculdades todas ótimas racismo, que isso? Xenofobia? Xeno o que mesmo…? Esqueca o grande esquema das coisas. Ele não existe

3. Irrite-se com todo e qualquer estrangeiro que mostrar desconhecimento sobre o Brasil (desconhecimento e preconceito são coisas diferentes) afinal de contas nos sabemos muito bem quem é o presidente da Polônia, que língua se fala na Indía, sem falar na geografia da China e da Rússia, mesmo esses sendo países sem a mínima importância no cenário mundial.

4. Se você tem um-a parceir@ nativ@ do país onde está morando, deixe que ele-a resolva todos os seus problemas, não se meta.

5. Se você não fala a língua do país onde está, não se esforce muito em aprender.

6. Generalize bastante quanto aos nativ@s do país onde você está. Afinal de contas, a cor do passaporte deles é a mesma, muito diferentes eles não deve ser um do outro.

7. Generalize e discrimine também outros imigrantes, pois nada melhor do que achar um grupo em situação pior do que a que estamos para nos fazer sentir melhor. Saia falando por aí dos indianos que são sujos, coloque árabes e muçulman@s tod@s no mesmo saco e saia falando que eles não sabem viver numa sociedade civilizada. Romenos… todos ciganos, que são um povo em que não podemos confiar. Outros Latino-Americanos, que elegem elegem um índio e um comunista para presidente. Se você vem do sul do Brasil, não esqueça dos nordestin@s e goian@s. Classe média? Só se misture com seus iguais.

8. No trabalho, reclame que seus colegas são preguiçosos, pois povo trabalhador é o brasileiro. Também não se misture muito com seus colegas, porque eles provavelmente bebem demais, comem comidas esquisitas e não tomam banho.

9. Não perca tempo em aprender sobre a cultura e a história do país onde você está.

10. Também não procure entender muito sobre política, legislação e afins, porque nada funciona mesmo.

Fazendo todas essas coisas tenho certeza de que você terá uma péssima experiência em qualquer país e poderá voltar ao Brasil onde você vai, com certeza, reclamar que nada funciona e que bom mesmo é na Europa/Estados Unidos/Austrália/Japão. A não ser que você tenha morado na África, outros países da América Latina e mais uns tantos países considerados piores que o Brasil. Daí você vai voltar dizendo que o Brasil é mais ou menos como uma Europa abaixo da linha do Equador.

Por favor, não me siga

Disclaimer: Hoje eu vesti minha camiseta de CHATA, então provavelmente depois de ler esse post você vai achar que eu sou uma pessoa bem chata. Read at your own discretion!

Eu não entando muito toda essa hype das mídias socias. Bom, até entendo de um ponto de vista comercial. Se trabalhasse na área de comunicação de alguma empresa, partido político, ONG provavelmente acharia Tweeter, Facebook, Orkut e similares opções bem baratas e eficazes para se comunicar com os públicos dessas organizações.

O problema é que no nível pessoal as vezes fica parecendo que eu to recebendo a newsletter da vida dos meus amigos e conhecidos e isso é meio chato. Fica aquela sensação de que eu sou apenas mais uma na multidão de pessoas que precisam ficar sabendo que fulano foi para Madagascar ou que ciclana comprou uma bolsa nova.  Tipo assim, eu recebo a newsletter da Naomi Klein, porque existem bem poucas possibilidades de que ela vá me ligar para conversar sobre o último discurso do Obama. Agora, dos meus amigos eu apreciaria uma forma de comunicação mais pessoal.

Eu não sou uma daquelas pessoas nostálgicas que achava que no tempo das cartinhas éramos muito mais civilizados. Não mesmo, eu acho muito legal poder falar todos os dias com meus pais, que moram do outro lado do Oceano Atlântico. Com cartinhas nossa comunicação ficaria bem mais difícil. Também gosto da possibilidade de trocar mensagens com meus amigos no Orkut e no Facebook e de conhecer pessoas legais através do blog. Mas reparem numa coisa, em todas essas atividades que eu acabei de listar existe interação entre as partes. Eu converso com meus pais, troco mensagens com meus amigos pelo facebook e geralmente respondo os comentários do blog e comento em outros. Agora ficar jogando mensagens ao vácuo, contando não sei pra quem o que eu fiz ou deixei de fazer não é para mim. A ironia disso é que essas ferramentas foram idealizadas exatamente para que as pessoas se comuniquem mais, só que muitas vezes acabamos  nos comunicando menos.

Eu acho que eu fui contagiada pela paranóia que os ingleses tem por privacidade (eu mostrei o hitta.se, um site onde se pode descobrir o telefone, endereço ou nome de praticamente qualquer pessoa aqui na Suécia, e esse não é o único site aqui onde dá para fazer isso, para alguns amigos em Londres e ele ficaram genuinamente chocados com a possibilidade de ter seu endereço e telefone divulgados assim tão facilmente) e não quero ser seguida. Eu imagino a angústia que seria se eu tivesse um Twitter. Eu acho que teria aí por três seguidores, o que para mim já é um exército. Não, eu definitivamente não gosto de me sentir seguida. Talvez eu empregasse um ghost twitterer pra despistar meus seguidores. Quando eu fosse viajar para o Brasil, mandaria @ ghost twitterer escrever que eu estou a caminho da China.

Amigos e memórias

Há umman walks into a roomas semanas eu terminei de ler Man Walks into a Room (ainda sem tradução para português) da escritora americana Nicole Krauss* que também escreveu A História do Amor. Man Walks into a Room foi o primeiro romance escrito pela então poeta mas só foi publicado agora provavelmente porque a editora resolveu capitalizar depois do sucesso de A História do Amor. O livro conta a história de Samson Greene um professor de Literatura Inglesa em Nova Iorque que é encontrado vagando pelo deserto de Nevada sem ter a mínima idéia de quem é. Depois de ser socorrido, Samson é levado para um hospital onde descobre ter perdido a memória de sua vida a partir dos 12 anos, ele tem 36. Ele volta para seu apartamento em Nova Iorque na companhia da esposa com quem viveu os últimos 10 anos sem saber quem ela é. Colegas da universidade, alun@s, amig@s e a esposa se tornam estranhos de uma hora para outra.  Samson se vê no meio do grande problema que encontrar sentido num vácuo de 24 anos e achar uma ligação entre a criança que ele lembra ter sido e o adulto que ele é hoje.

Uma das críticas que eu li sobre Man Walks into a Room fala que o livro discute a questão de que nós nãoa historia do amor somos muito mais do que um acumulado de nossas memórias. Anna, mulher de Samson, reluta em aceitar um homem com quem ela não divide mais o passado, que não lembra nem dela nem do primeiro encontro, do casamento ou da lua-de-mel passada no Brasil. E Samson reluta em encontrar pessoas que o conheciam antes do acidente talvez porque ele ache que sem suas memórias não é mais a mesma pessoa que os amigos e colegas conheceram.

Mudar de cidade, estado, país também é perder um pouco de memória. Mudar de país duas vezes já adulta me obrigou a estabelecer novas relações com pessoas que não me conheceram quando eu tinha oito anos e colecionava borrachas cheirosas, quando eu tinha 12 anos e queria ser uma pianista famosa e montei com meu vizinho uma biblioteca no porão da minha casa ou quando eu tinha 20 anos, tomava chimarrão na sacada do apartamento da 24 Horas em Santa Maria, comia morte-lenta (cachorro-quente de 1 real) na saída das festas e meus sonhos não iam além, geograficamente falando, de um emprego em Porto Alegre. Eu ainda encontro amig@s desse tempo, mas bem esporadicamente, quando vou ao Brasil ou quando alguém vem para a Europa, mas não é a mesma coisa do que estar a um telefonema de distância.

Claro que é bom encontrar gente legal e fazer novos amigos em qualquer fase da vida, se bem que vai ficando mais difícil com o tempo porque ficamos mais exigentes e porque trabalho, família e outras coisas da vida adulta vão tomando o tempo tão necessário para que as amizades sejam cultivadas. Mas também é bom ter gente com quem dividimos memórias, pessoas que sabem por onde passamos para chegarmos no que somos hoje, porque qualquer memória morre aos poucos se não é dividida.

* Informação sem muita utilidade mas não de todo desinteressante: Nicole é casada com Jonathan Safran Foer autor de Extremamente Alto e Incrivelmente Perto e Tudo se Ilumina.

Londres, os terroristas e eu

Então que eu fui para Londres e já voltei. Cheguei lá no domingo de páscoa com muita vontade de ver vários amigos e de ir a vários lugares que eu gostava. Na verdade eu estava com uma pontinha de medo de me arrepender de ter mudado para a Suécia e querer voltar a morar em Londres. Essa foi a primeira vez que eu voltei desde que sai de lá em dezembro de 2006. Só posso dizer que não me arrependo de nada, eu não conseguiria mais morara em Londres nem se fosse obrigada. Depois do segundo dia lá eu queria voltar para Estocolmo.

É óbvio que eu gostaria de poder ver meus amigos que estão lá com mais frequência e de comprar na Topshop por preços 20% menores. Mas isso não compensa a paranóia que é viver em Londres.

Para começar, cheguei lá a 1 da tarde, almocei com meu amigo Dani que foi me esperar em Heathrow e fiquei esperando a minha irmã que ia chegar as 3:30. Ela chegou e fomos pegar o metrô. Andamos umas cinco estações e o motorista avisou que “havia uma pessoa embaixo do trem” e que por isso ele não pararia em várias estações, o que atrasou nossa viagem e nos fez trocar de linha duas vezes em vez de uma. Mas o que mais me impressionou foi a maneira como eles disseram “there is a person under the train” assim como se a pessoa estivesse lá fazendo alguma coisa, parafusando um parafuso em vez de morta e dividida em vários pedacinhos.

Fora isso tem a paranóia do terrorismo, cartazes por todo lado dizendo para as pessoas reportarem qualquer coisa suspeita, policiais por tudo.  Eu não consigo evitar de me sentir suspeita de achar que sempre tem alguém achando que eu to fazendo algo errado.  Não sei se quem mora lá nota isso, acho que muita gente está tão acostumada que nem percebe mais. Eu fiquei meio estressada. E isso é uma pena porque Londres é uma cidade maravilhosa, cheia de coisas, lugares e pessoas interessantes. Tem sempre alguma coisa acontecendo por lá, cada área da cidade tem uma personalidede diferente, a maioria dos museus são gratuitos. Mas o governo consegue estragar tudo criando esse climão alarmista e paranóico.

(essas são os poster da nova campanha do governo contra o terrorismo, eu acho que se isso der certo Londres vai virar uma ex-Yugoslávia no tempo da guerra, vizinhos contra vizinhos, famílias matando entre si, etc. Só que eu acredito na sensatez das pessoas, pelo menos as pessoas com quem eu conversei acharam essa campanha bem ridícula)

Os cinco dias que eu passei em Londres me fizeram valorizar ainda mais a minha vida em Estocolmo: nosso apartamento espaçoso e com preço bem razoável, as três linhas de metrô que sempre funcionam, inclusive durante a madrugada nos fins-de-semana (eu me irritava no inverno, quanto tinha um aviso dizendo algo assim “pode ser que sua viagem demore mais hoje porque os trens estão andando mais devagar pois a pista está escorregadia por causa da neve”, agora juro que nunca mais me irritarei), o curso de sueco e mestrado gratuitos e o fato de não estar sendo observada 24 horas por dia e não temer um atentado terrorista a qualquer momento.

Mas bem que o a Inglaterra e a Dinamarca poderiam trocar de lugar, assim daria para eu ver os meus amigos com mais frequência.

P.S.: Acho que Estocolmo mudou um pouco a minha personalidade, a June comentou quando nos encontramos que eu estava menos rabugenta e reclamona.

E aqui um pessoal que se preocupa tanto com terroristas que resolveu fazer graça.

(Esses produtos químicos não serão usados para preparar uma bomba porque esse é um cenário fictício. A realidade é mais complicada. Não confie em outros… como o governo… para lhe dizer como pensar. Se você suspeita deles, informe-se)

A censura que nós não conhecemos

Uma das minhas colegas no mestrado está fazendo uma pesquisa super interessante sobre um fenômeno chamado Blue Jacking (de highjacking ou hijacking – que significa tomar controle) que vem acontecendo no Irã. O que acontece é que o Irã é governado por um ditador muçulmano e a imprensa do país sofre uma censura bem pesada. Não dá para criticar a religião nem o governo, as mulheres são bastante oprimidas e, obviamente, não dá para sair googlando qualquer coisa porque as buscas na internet são controladas.  Mas é óbvio que como jeitinho não existe apenasmente no Brasil, os iranianos também encontram uma saída para a censura: mensagens por bluetooth. Como essas mensagens não podem ser rastreadas eles aproveitam para mandar de tudo para familiares e amigos, desde cenas de filme (uma das minhas colegas iranianas falou que demonstrações de afeto são proibidas na TV) até piadas e notícias.  Segundo a minha colega é normal receber cerca de 100 mensagens por dia. Então ela está explorando essa mundo meio que underground e como as pessoas – principalmente jovens – lidam com esse fenômeno.

Isso me faz pensar nas coisas que nós, no nosso mundo ocidental, temos e não damos o mínimo valor. Eu posso escrever criticando o governo brasileiro no meu blog, muita gente pode ler e ninguém vai para a cadeia por isso. Eu posso seguir a religião que eu quiser, ou não seguir nenhuma. Se eu quiser googlar homem fazendo sexo com uma camela (não que eu me interesse em fazê-lo) eu posso e não duvido de que venham resultados. Mas eu não vou tentar. Foi apenas um exemplo, uma hipótese.

Para mim a idéia de não poder escolher em que acreditar, não poder falar o que eu quero, não poder criticar aquilo que acho que está errado, não ter acesso às informações que eu procuro é completamente alien. Eu não sei o que faria se estivesse numa situação dessas.

Mas o melhor (ou pior) vem agora, minha colega se inscreveu numa conferência na Polônia sobre Oriende Médio, mídia e democracia, ou algo do tipo. O trabalho dela foi aceito, ela mandou o resumo e está tudo pronto para ela ir. Mas eis que ela resolve olhar a lista de participantes iranianos e vê que o nome de altos-oficiais do governo. Pânico. Hoje ela estava sem saber o que fazer, porque ela quer poder voltar ao país sem correr perigo de ser sequestrada presa no aeroporto e desaparecer.  Ela disse que o governo está de olho em estudantes iranianos em outros países, para saber se o que eles andam pesquisando e escrevendo representa alguma ameaça à “soberania nacional”. Outra coisa que para mim é completamente natural, poder apresentar minha pesquisa – que é sobre comunicação política, in case you wonder – em conferências sem me preocupar se vai ter alguém lá para me acusar de estar traindo a nação.

Por outro lado eu não cesso de me surpreender com a habilidade que o ser humano tem de driblar situações adversas e encontrar saídas. Não dá para escrever no jornal, não dá para mandar email,  a TV não mostra o que a gente quer ver? Bluetooth neles!

Atualização: Falei com a minha colega essa semana, ela disse que conversou com os organizadores do evento que disseram para ela que o pessoal do Irã eram apenas pesquisadores, que não tinha ninguém do governo mas que não tinha nenhum problema se ela quisesse mudar o tema da aprensantação. Então ela disse que mudou para uma coisa mais neutra, acho que ela vai dar uma receita de bolo de cenoura ou algo do tipo.

Ao redor do buraco tudo é beira

Durante a semana passada o diário sueco Dagens Nyheter publicou uma série de reportagens escritas pelo jornalista e escritor Maciej Zaremba, que é polonês naturalizado sueco e chegou aqui desde 1969, com 18 anos fugindo das perseguições aos judeus na Polônia. A série se chama “I väntan på Sverige” (à espera da Suécia), nela o autor discute a integração de imigrantes sob vários pontos de vista. Ele fala sobre multiculturalismo, nacionalismo, sobre a burocracia sueca encontrada por refugiados e asilados e sobre aprender sueco. Em linhas gerais ele discute porque é tão difícil para imigrantes se integrarem à sociedade sueca.

Imigração e integração são assuntos que dão pano para manga aqui na Europa. Muitos países do velho continente que por muito tempo tiveram populações etnicamente homogêneas ou em que um grupo conseguiu por décadas manter uma certa dominancia cultural e política estão tendo vários valores questionados por imigrantes ou minorias que podem ser pequenas, mas não são nem um pouco submissas. Uma questão que é recorrende nessas discussões é: quem precisa se adaptar a quem?

Apesar de o autor usar quase só exemplos particulares para ilustrar o geral e apresentar bem poucos dados que comprovem que a realidade daquelas pessoas que ele descreveu é reprensentativa do todo, em muitos pontos eu pude me identificar com o que ele escreveu. Nos primeiros textos ele fala sobre o ensino de sueco e como ele NÃO corresponde à necessidade da maioria dos alunos. Para mim isso não é novidade. Uma coisa que não aconteceu comigo, mas que eu sei que não é raro principalmente em cidades pequenas aqui na Suécia (aconteceu com algumas pessoas que eu conheço), é abrirem turmas em que juntam gente que é analfabeto em sua língua materna  com outros que terminaram a faculdade. Não estou querendo dizer que ninguém é melhor que ninguém, mas acho que são grupos com necessidades diferentes.

Daí passamos ao conteúdo dos livros que tratam imigrantes e suecos de uma forma tão estereotipada que chega a ser quase cômico. Se não fosse trágico. Nos livros de sueco Ali e Fatima estão sempre esperando cartas da imigração ou falando com com o funcionário do órgão que deveria ajudar as pessoas a encontrarem empregos.  E é óbvio que o funcionário ou funcionária sempre tem um nome sueco. Ah, também acontece de Zeinab e Juan procurarem emprego, que geralmente é como cozinheiro (a), ajudande em creches ou operário (a) de fábrica.  Novamente, nada contra esses empregos, mas será que todos os imigrantes querem seguir essas carreiras ou todos os suecos querem exercer profissões de nível universitário?

Outra coisa é a tonelada de coisas inúteis que precisamos engolir quando o que queremos é apenas dominar uma língua. Por que eu preciso conhecer clássicos da música sueca do século XVIII? Por que eu preciso ler livros do século XIX escritos em de uma maneira que não se escreve nem fala mais hoje em dia? Como eu já disse em outro post, eu quero aprender a língua e depois decidir de acordo com a MINHA agenda que livros eu vou ler e que tipo de música eu vou escutar.

Adestramento

O autor também fala da idéia que parece permear a burocracia sueca de que nós (sim nós, eu também sou imigrante assim como você que está aí lendo e mora na Suécia, não apenas árabes, somalis e iraquianos) precisamos primeiro aprender a viver na sociedade sueca, antes de qualquer coisa. Sim porque no mundo lá fora TUDO funciona diferente e se nós não aprendermos como as coisas funcionam AQUI, nunca conseguiremos nos integrar. Eu não acho que isso seja racismo, talvez um pouco de preconceito, somado à ignorância com uma pitada de inocência e falta de conhecimento do mundo lá fora, aquele para além da costa leste do país. É essa mistura que faz com que, por exemplo, a Ju quase fosse impedida de entrar no segundo nível de um curso de francês na Universidade de Estocolmo, mesmo tendo estudado francês na França, porque dã, ela não fez o primeiro nível na Universidade de Estocolmo. E qualquer que seja o Francês que eles ensinam lá na França é óbvio que não é a mesma coisa que ensinam aqui.

Numa das respostas à série de reportagem – que teve muitas respostas, hoje o jornal publicou duas páginas só com respostas – uma professora sueca aposentada diz que ajudou um professor polonês com 15 anos de experiência a escrever uma monografia para poder ter licença para dar aula aqui na Suécia.  Ela conclui com uma certa ironia

Ele será certamente um professor muito melhor depois de escrever 30 páginas sobre como se ensina, não é mesmo?

Outra leitora do jornal diz o seguinte

Eu fiz parte de uma revolução, estudei em três países e falo quatro línguas. Mas isso não é nenhum mérito na Suécia, o que conta é ser sueco, falar como sueco, se comportar como sueco, pensar como sueco.

Esse mesmo preconceito, misturado à inocência, ignorância e ao gosto por tudo o que já é conhecido e claro como água constrói o muro que separa muitos imigrantes do mercado de trabalho. Segundo Maciej Zaremba muitos suecos são selecionados para empregos no lugar de imigrantes porque

Vão rir das mesmas piadas, não vão dar uma opinão que não seja fundamentada, não vão falar de livros que os outros não conheçam, não vão interromper quem está falando, vão compreender exatamente o que sigfica dizer que Olsson “é meio especial”*.

Por isso tudo eu tenho um certo receio de vir a trabalhar num lugar onde eu seja a única estrangeira (isso me lembra do Daffyd, the only gay in the village, personagem do David Walliams em Little Britain). Eu não quero ser o elefante branco no meio da sala. Na Inglaterra eu sempre trabalhei com gente de vários lugares, não tinha olhares estranhos, ninguém se sentia excluído.  E todos precisavam, uma vez ou outra, explicar piadas.

A indústria da integração

Num dos artigos da série o autor fala que a integração pode não ter dado certo na Suécia, mas muita gente saiu lucrando. Sim porque o governo está tentando privatizar a integração e começou pelas escolas de sueco. E é obvio que isso significa professores não necessariamente qualificados, ganhando menos  e  salas de aula cheias.  O concurso é para ver quem consegue “educar” mais gente pelo menor preço. O tipo de ensino e aprendizado resultam dessa  equação vocês podem imaginar.

Quando eu estava na escola, a minha professora queria que eu fizesse a prova final um mês antes da data que estava marcada porque ela achava que eu estava preparada.  Quando ela foi pedir a autorização da diretora da escola (que nunca me viu mais gorda), a diretora disse que eu deveria esperar mais um mês. Eu ja tinha feito outra prova um mês antes da data marcada e acho que a diretora achou que eu não estava dando lucro para a escola, que recebia por aluno/hora-aula.

Identidade escrita na pedra

Nesse debate todo sobre integração, uma coisa que eu não entendo é porque tem gente que pensa que a identidade de uma pessoa está escrita na pedra, não pode mudar.Istoé: se eu sou brasileira não posso aceitar a cultura sueca e valores suecos.  Eu acredito que uma coisa nao exclui a outra, que uma pessoa pode se identificar com várias culturas, com várias nações.

Na minha opinião a era de um povo, uma nação, uma cultura já passou.

* Em sueco, quando se diz que uma pessoa é um pouquinho especial isso significa que a pessoa não bate bem, é estranha. Esse é outro exemplo de swenglish. as vezes o Nicklas me falava que ciclano ou beltrano era a little special e eu achava que a pessoa era trilegal, só não entendia por que ele falava que a pessoa era só um pouquinho especial em vez de dizer que a pessoa era bem especial.

A princesa casa e o povo paga a conta

Não sei se alguém notou a minha falta virtual, mas eu passei a semana inteira lendo jornais do ano passado para a minha dissertação. Segunda-feira eu tive uma reunião com a minha orientadora e o grupo de orientandas dela (eu e mais três colegas, ao todo somos cinco, mas uma das minhas colegas está fazendo um curso em Londres) e precisei também ler as propostas das minhas colegas para poder discutí-las. Para o meu profundo alívio a minha orientadora disse estar muito satisfeita com o meu progresso e gostou do que eu escrevi até o momento.  E se ela está satisfeita, eu também estou.

Mas vamos ao que interessa. Acho que já é de conhecimento geral que a princesa vai casar ano que vem. Quem não está a par dos detalhes pode ler o post da Ju. Como nós sabemos, ou melhor imaginamos (porque não é todo mundo que frequenta círculos reais), esse tipo de evento custa caro. E a família real sueca não pode fazer feio perante outras casas reais. Imagine só, se o príncipe fulano da Noruega teve uma fonte de Cristal, se no casamento da princesa fulana da Espanha serviram trufas com folhas de ouro, o casamento da Vitória não pode deixar por menos.

Só tem um problema. Dinheiro de menos. Os assessores econômicos do rei descobriram que a verba de cerca de 112 milhões de coroas (cerca de 30 milhões de reais) que a casa real vai receber esse ano não será suficiente para organizar um casamento digno de uma princesa-herdeira. E como quem casa quer casa, além do casamento também é preciso montar um ninho para os pombinhos. Diante dessa situação, o que faz o rei? Como nesses tempos modernos em que vivemos não dá para ele vender um pedaço de terra para a Dinamarca ou Noruega ou conquistar mais uns territórios na direção da Rússia, a única coisa que resta ao nosso soberano é pedir mais dinheiro ao parlamento sueco. E eu não preciso explicar de onde vem a grana não é mesmo? Dos impostos.

Mas veja bem, nós estamos falando de um país que atravessa uma crise econômica. Um país onde milhares de pessoas perderam seus empregos ano passado e onde estima-se que mais gente vá ser demitida esse ano. Um país onde muita gente foi obrigada a vender a casa com prejuízo porque não podia pagar a hipoteca por causa do aumento nos juros. Daí o que faz o monarca, que possui uma coleção de carros antigos? Ignora tudo isso e pede mais uns milhõezinhos para enterter umas cabeças coroadas do mundo. Não sei se é porque a família real não é nenhum símbolo de orgulho ou identidade nacional para mim pessoalmente, mas eu achei isso um insulto.

Tem muita gente dizendo o dinheiro que o rei vai ganhar não é nada perto da publicidade e aumento no turismo que o casamento vai gerar para a Suécia. Eu na minha ignorância não vejo nenhuma relação, eu acho que o turismo aqui na Suécia é influenciado por outros fatores. E eu não vejo uma como uma pessoa na Áustralia, por exemplo, pode ver umas fotos do casamento numa revista e pensar: poxa que casal simpático, vou ter que visitar a Suécia para conhece-los.

Acho que um uso muito melhor do dinheiro seria investir em treinamento para as pessoas que estão desempregadas ou criar uma linha de crédito para aqueles que não estão conseguindo pagara hipoteca das casas. Porque não sei se o rei se deu conta, mas quanto menos gente trabalhando e pagando impostos no país, menos chance ele tem de receber seu salário.

Olhem só os comentários deixados no site de um jornal sueco (traduzidos por mim):

Todo mundo pode mesmo se mudar para o castelo com o rei quando o dinheiro e os empregos sumirem.

Eu imagino como deve ser viver como o rei a a família real… Eles não foram nenhum pouco afetados pela crise econômica.  Parece que eles estão completamente fora da realidade. “Agora minha filha vai casar e precisa de uma casa, mandem o dinheiro”

Eu conheço essa história: pagar 100 milhões de coroas para que eles apareçam em revistas de fofocas espanholas e alemãs. Nós não ganhamos nenhum dinheiro com isso. Como já disse, com a minha experiência em viagens, eu sei que a família real é um pontinho no espaço. No geral ninguém se importa com eles. Bom talvez tenham alguns monarquistas fanáticos suecos espalhados pelo mundo. Mas eles podem continuar a adorar a família real independente de o rei ser ou não pago pelo estado.

Não é só o rei que precisa de dinheiro. Tem muito mais gente que gostaria de receber uns trocados extras do governo. Mas quando a Saab precisa de ajuda eles dizem não. A Saab não é um símbolo sueco? Quantos estrangeiros conhecem a Saab versus o rei? Por que nós não investimos em gerar empregos na Suécia em vez de investir no rei? Em vez de dar mais dinheiro para o rei poderiam salbar uma empresa sueca, ou retomar o controle de empresas que eram suecas.

Deixem aqueles que tem a ganhar com o casamento pagar por ele Aftonbladet, Expressen, Svensk Damtidning, Se och hör (jornais e revistas de fofoca). Todas as revistas e jornais de fofoca devem pagar mais impostos ano que vem. São os que ganham com o casamento que tem condições de pagar por ele. Simples.

Escreva primeiro, pergunte depois

Pegue uma mulher num país estrangeiro, possivelmente com problemas psicológicos, governado por um partido de extrema direita que fez uma campanha abertamente contrária à imigracão. Digamos que ela invente um ataque xenofóbico. O resultado poderia ser uma família preocupada, um julgamento, alguns traumas e possivelmente um tratamento psicológico. Agora coloque na equacão uma imprensa onde a falta de profissionalismo impera, qual o resultado? Escândalo, caos e marcas que ficarão por toda a vida.

Eu não estou dizendo que se se confirmar que a Paula Oliveira mentiu, inventou a gravidez e o ataque, ela seja uma coitadinha. Acho que se ela mentiu para a polícia precisa ser punida; se tem problemas psicológicos precisa ser tratada. Mas facamos um exercício: o que teria acontecido se o caso não estivesse nas capas dos jornalões e na tela da TV um dia depois de ter acontecido? O que aconteceria se fosse eu ou você que não temos pais bem relacionados em Brasília? (No meu caso, pode ser que o Jornal do Povo desse uma notícia, talvez, bem talvez, a Zero Hora, porque meus pais não são tão bem relacionados quanto o Sr. Paulo Oliveira, político e advogado). Imagine se fosse um de nós, eu ou você, e se nós realmente tivéssemos problemas psicológicos. Você ia querer a sua foto estampada nos principais jornais do país? Não né, pois é, nem eu e acredito que nem a Paula.

Para mim é um misto de mau-caratismo com covardia que a imprensa tenha se portado como se portou. Quem trabalha na imprensa sabe o poder que tem em mãos e deveria saber que esse poder deve ser usado com cuidado. Agora imaginem, alguém numa redacão de jornal recebe o telefonema do Sr. Paulo Oliveira, umas fotos por email – que ele disse ter pedido à filha que tirasse para servir como prova – e tcharan, o que temos: uma notícia. Para que checar com a polícia, para que investigar, para que ouvir os outros lados da história, quando se pode dar a notícia imediatamente, antes de todo mundo, não é mesmo?

Parece que o imediatismo é bem mais importante que outros princípios do jornalismo, como a investigacão.  Um jornalista não pode esperar escrever a verdade absoluta sobre alguma coisa – muitos duvidam até que algo como verdade absoluta exista – mas investigar um fato sob vários ângulos, procurar informacões em várias fontes, isso é perfeitamente possível. O problema é que investigar um fato minuciosamente significa esperar uns dias para publicá-lo, o que parece ser inaceitável para a imprensa brasileira. O importante é falar qualquer coisa, mesmo que depois seja preciso desmentir. A Paula por exemplo era vítima na semana passada e nessa é culpada. Semana passada ela tinha nome e sobrenome na Folha, essa semana ela só tem sobrenome.  Mas no fim das contas contas é a cara – e a barriga – da Paula que estão nos jornais mesmo, não a do editor, então para que se preocupar como essas coisas de ética?

Na minha humilde opinião o maior vexame nessa história toda foi o da imprensa, mas os jornais vão continuar aí, todo mundo vai continuar lendo e daqui a pouco eles acham outro super furo de reportagem , outra pessoa para julgar. Enquanto a Paula vai continuar sendo para muita gente a brasileira que saí por aí manchando a reputacão do Brasil no primeiro mundo.

*Povo eu estou escrevendo no computador da universidade e não consegui achar o cedilha, peco desculpas pelos transtornos causados!

Artistas arteiros

A Konstfack é uma escola de artes super tradicional aqui na Suécia, cujas origens datam lá do século XIX. Muita gente famosa por aqui – no ramo das artes, fique bem entendido- estudou lá, como por exemplo Mats Åkerman e Jan Stenmark. Dizem que não é qualquer um que estuda lá: precisa apresentar portfólio e uma carta de intenções e  tem uma  entrevista.  É algo tipo a nata da nata da vanguarda artística.

Acontece que agora alguns alunos da Konstfack resolveram fazer arte. Não essa arte dos quadros que temos nas paredes, mas aquela que as mães não gostam que os filhos façam. Como por exemplo escrever nas paredes com chocolate, no meu caso. (Eu era uma criança bem criativa, assim como os alunos da dita escola).  E eis que a escola agora não sai das páginas dos jornais.
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Primeiro foi um aluno até agora não identificado que em seu projeto de graduação resolveu pichar um trem do metrô de Estocolmo, quebrar uma janela para sair e filmar. Tudo isso com o trem em trânsito. O filme de dois minutos foi o trabalho de conclusão de curso dele. Agora a SL, empresa de transporte público de Estocolmo está processando a escola em 100 mil Coroas Suecas (cerca de 26 mil Reais) pelos danos causados. A escola diz que não autoriza projetos que possam causar danos à propriedade pública ou privada, mas o aluno foi aprovado e ganhou seu diploma.

Agora em janeiro outra aluna, Anna Odell, colocou em prática seu projeto de se fazer passar por doente mental tentando cometer suicídio perto de uma ponte aqui em Estocolmo.  Ela foi ajudada por passantes que chamaram a polícia. A polícia levou Anna para uma emergência psiquiátrica onde ela foi medicada. Depois disso ela se identificou, disse que era completamente saudável e que tudo era parte de um projeto para a faculdade. Os médicos não acharam o acontecido lá muito artístico e reportaram Anna para a polícia. A estudante está sendo acusada por sete infrações legais. Os professores da faculdade expressaram seu apoio à estudante, mas a escola iniciou uma investigação interna para reavaliar seus procedimentos.

Semana passada alguns professores da faculdade escreveram um artigo em um dos diários nacionais suecos, o Dagens Nyheter, apoiando a aluna.  Eles dizem que (tradução bem livre minha)

“Todos nós sabemos que a medicina, os hospitais e psiquiatria tem funcionado historicamente não apenas como mecanismos de apoio, ajuda e cura mas também como um campo para o exercício do poder e disciplina.

Poucos negam que o papel da psiquiatria tem sido o de apontar e definir os limites da normalidade”

Acho que esses profes andaram lendo o Alienista. Bom, mas voltando ao assunto, eles acrescentam que um experimento parecido foi feito por uma jornalista na década de 70 e que também gerou intenso debate. Além disso, dizem os professores, quando a aluna terminar o trabalho e expor seu objetivo – que até agora não foi exposto – a sociedade irá entender o porquê de ela ter agido como agiu.

Daí eu me pergunto, quais são os limites da arte. Eu acho que a criatividade não deve ser limitada.  Se empresas podem pagar para colocar seus outdoors feios  e muitas vezes cheios de preconceito e estereótipos no espaço público, por que artistas não podem utilizar esse espaço? Só que eu também acho que a arte deve nos fazer pensar, nos fazer ver as coisas sob uma perspectiva diferente. Eu não sei se eu considero o resultado do projeto do nosso pichador anônimo arte. Mas e aí, quem decide o que é arte e o que não é? Eu? Os intelectuais? Os curadores dos museus? Executivos de grandes empresas quando decidem que projetos vão patrocinar?

E o projeto da moça que se fingiu de suicida é arte? É um desperdício do dinheiro público? E se fosse um estudo sociológico, será que despertaria tanta polêmica?

Se alguém tem a resposta para essas perguntas, be my guest, porque eu não faço a mínima ideia.


Todos querem ser donos da verdade

Eu não retiro uma vírgula do que disse no post anterior. Eu acho que a história da agressão à Paula tomou rumos inesperados e mesmo que a hipótese de que ela teria se auto-mutilado e inventado o ataque seja comprovada isso não vai mudar em nada o fato de que a situação para imigrantes aqui na Europa está se deteriorando.

Até agora eu não encontrei uma fonte de informações confiável.  A imprensa brasileira é muito apressada em achar culpados em achar uma explicação, qualquer que seja, vide o caso do vôo TAM.

Do lado suíço, não sei o que esperar de um país governado por um partido de extrema direita, que tinha um discurso racista durante a campanha eleitoral e que em sua plataforma de governo quer limitar os direitos de imigrantes no país. Além disso, até 1990 mulheres não podiam votar nesse cantão suíço.  (Os textos estão em inglês e espanhol, respectivamente). Nesse contexto assim super favorável (ironic mode on) a mulheres e imigrantes não dá para esperar que instituições estatais – como a polícia – tratem um membro desses dois grupos maravilhosamente bem.

Nós e os outros

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Ontem de manhã eu saí da academia e no caminho até a estação de metrô, uns 5 minutos, liguei para a Ju. Eu cheguei em casa sã e salva o que não aconteceu com a Paula Oliveira, que mora em Zurique, na Suíça. Como muita gente deve saber a Paula foi agredida por neonazistas quando voltava do trabalho, o choque a fez perder os gêmeos que estava esperando. Infelizmente a Paula não foi a primeira vítima desse tipo de crime aqui na Europa. E lamentavelmente ela não será a última.

Em setembro de 2007 eu escrevi nesse post sobre a campanha eleitoral ultra-racista do SVP, o partido que agora está no poder na Suíça. O SVP é apenas um, talvez o mais bem sucedido, dos partidos de extrema direita que pipocam aqui na Europa. A Grã-bretanha tem o British National Party, a Itália tem o Lega Nord e aqui na Suécia tem o Sverigedemokraterna. Durante os últimos anos o número de votos para esses partidos tem crescido bastante. O problema não é que as pessoas hoje são mais racistas do que no passado, mas sim que hoje certos comportamentos estão se tornando socialmente aceitos. E isso é muito perigoso.

Muito do racismo que existe hoje na Europa e faz com que episódios horríveis como o que aconteceu com a Paula Oliveira se tornem mais comuns tem origem num raciocínio prá lá de tacanha, que muitas vezes é incentivado pela mídia. O discursos desses partidos neonazistas é, em essência, de que a imigração é a principal causa da violência e desmantelamento da sociedade. Falta de emprego, criminalidade, baixos salários … é tudo culpa dos imigrantes.

Para quem não se esforça em entender outras culturas é muito fácil colocar culpar quem é diferente e mais vulnerável. Para quem não quer entender uma complexa rede de relações sociais e políticas que causam a falta de emprego, os baixos salários e a alta criminalidade, é muito fácil dar uma cara ao vilão. Criar um antagonismo entre nós e eles faz um grupo pensar que ao eliminar o outro estará solucionalndo todos os seus problemas.

A partir da década de 90 o fluxo de imigrantes para os países do oeste europeu aumentou muito. Duas guerras no Iraque e conflitos na ex-Yugoslávia e África contribuíram para que muita gente deixasse seus países. Ao chegarem no novo país, imigrantes, asilados e refugiados estão numa posição muito vulnerável. A integração à nova sociedade é muitas vezes quase impossível sem falar a língua e morando num gueto. A segregação da qual muitos imigrantes são vítimas causa outros problemas como desigualdade, pobreza e obviamente a violência.

Do outro lado da equação está a ignorância que anda de mãos dadas com o preconceito. Não entender a cultura do outro faz muitas vezes com que nós formemos opinões erradas – preconceito. O preconceito faz que nós não aceitemos que outros sejam diferentes de nós – intolerância. Como eu já escrevi lá em cima, a mídia contribui muito para formar a imagem dos imigrantes em vários países na Europa. Ela contribui quando retrata imigrantes como criminosos, ou quando diz que imigrantes abusam do sistema de bem-estar social ao mesmo tempo que se cala  sobre a dificulde de encontrar emprego, ser aceito e se integrar na nova sociedade. A mídia também contribui quando retrata certas culturas e religiões – vocês sabem quais – de uma forma extrema, maniqueísta e unilateral.

Mas eu acredito que nós brasileiros – principalmente os que moram na Europa – não estamos numa posição muito boa para falar de tolerância. Eu já ouvi e li muitas opiniões extremamente preconceituosas sobre árabes, muçulmanos, africanos, europeus do leste, indianos … a lista poderia continuar. Quando um de nós é agredido e violentado é preciso refletir e pensar que a raíz dessa agressão é esse tipo de idéia que nós também temos a respeito de outros.

Leia o post da Ju sobre o assunto.

Leia mais sobre imigração na Europa.

E a louça, quem vai lavar?

A Lola escreveu um post ótimo no blog dela que falava mais ou menos de como aqueles que tem uma posição de poder na sociedade tentam se apoderar do destino daqueles que estão nas bases – subalternos, dominados, chamem como quiserem. No post, que teve mais de 200 comentários ela fala, entre outras coisas, das empregadas domésticas (alguém ja viu empregadO doméstico?) que, na grande maioria das vezes, tem esse tipo de trabalho por completa falta de opção e que são exploradas e tratadas como escravas.

Uma das coisas que as pessoas no Brasil mais se espantam é o fato de que nós não temos empregada. Até mesmo a empregada dos meus pais achou estranho. Quem limpa a casa então? – ela perguntou espantada. Respondi que nós limpamos, lavamos a roupa, cozinhamos (quer dizer, eu cozinho). Na minha família sempre tivemos empregada, assim como nas famílias dos meus colegas de escola, amigos, etc. Ter uma pessoa limpando a casa, fazendo comida, lavando a roupa sempre foi tão comum que eu nunca me perguntei o porquê de elas estarem lá.Ter uma empregada doméstica aqui, por outro lado, custaria quase metade do dinheiro que temos disponível mensalmente. Além disso aqui na Suécia não existe o costume tão comum no Brasil de ter serviçais.

Se eu gostaria de chegar em casa e ver tudo limpinho e cheiroso, as roupas passadas, nenhuma poeira nos móveis? A resposta é sim. Se eu concordo com o sistema que permite que nós no Brasil tenhamos uma pessoa que é obrigada a lavar, limpar, passar, cozinhar e achar que ainda estamos fazendo um favor em empregá-la? A resposta é não. Eu digo obrigada porque eu não acredito que ninguém escolha ser empregada doméstica. O que muita gente não entende é que a mesma organização – ou desorganização – social que lhes permite empregar uma pessoa para fazer as tarefas caseiras faz com que a carreira de traficante seja a mais promissora e lucrativa para um adolescente nascido numa favela, ou que crime seja uma opção de vida.

Aqui na Suécia uma pessoa que trabalha com limpeza – sim elas existem mas a maioria não trabalha com limpeza doméstica – não ganha vinte vezes menos do que um médico por exemplo, mas um pouco menos da metade. Isso faz com que, para a maiora das pessoas pelo menos, ter uma empregada saia caríssimo. Com um salário de auxiliar de limpeza dá para pagar aluguel ou prestação da casa própria, comer e pagar todas as contas, educação é gratuita e a saúde pública é subsidiada. (Quase todos os remédios aqui são subsidiados pelo governo, semana passada eu comprei 13 cartelas de anticoncepcional por pouco mais de 100 reais, no Brasil eu lembro de pagar uns 25 reais por mês. Façam as contas.) Como grande maioria das pessoas tem suas necessidades básicas satisfeitas por um sistema de bem-estar social que funciona relativamente bem, não tem muita gente que precisa roubar para alimentar os filhos. Nós deixamos o carro na frente de casa, sem nenhum tipo de tranca; eu não tenho medo de voltar para casa sozinha à noite, a porta da frente do prédio fica destrancada das 7 da manhã às 9 da noite e nunca aconteceu nada.

Só que agora tem muita gente no Brasil reclamando porque as empregadas não querem trabalhar para viver de auxílio do governo, o que não me parece muito real. Mas suponhamos que seja real, quem no Brasil consegue viver de salário mínimo? As pessoas que tem empregada eu tenho certeza de que não. Se alguém pode escolher entre ganhar um salário mínimo tão mínimo que mal cobre as necessidades básicas ou ganhar um auxílio do governo que dê para um pouco mais, não é lógico a escolha seja a primeira alternativa?

Aqui na Suécia tem muita gente que recebe auxílio do governo (eu inclusive): auxílio família, auxílio moradia, seguro desemprego, licença saúde, bolsa estudantil. Porque aqui o governo cumpre relativamente bem o que eu considero ser uma obrigação importantíssima: impedir a concentração de renda.( Não, eu não acredito no poder de auto-regulação dos mercados, para mim ele existe no mesmo plano que o papai noel, o coelhinho da páscoa e os gnomos e elfos da floresa).  A concentração de renda é uma das principais causas de muitos dos problemas que temos no Brasil, como a violência por exemplo; entretanto  ela  permite que a classe média mantenha seus serviçais.


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Atenção

Eu moro na Suécia mas não sou agência de turismo, intercâmbio nem trabalho no consulado brasileiro, então não me peça informações sobre morar aqui, aprender a língua, estudar, etc, para essas coisas existe o Google e foi googlando que eu achei 99% das informações que precisava para morar aqui. Na página de links tem vários sites com informações úteis sobre morar na Suécia e Inglaterra.

 

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